Alagoas é vizinha
‘‘Vamos nos comportar como cavalheiros ou como aquilo que sempre fomos?’’ Essa hilariante pergunta do Cantinflas numa mesa de pôquer num dos seus filmes tradicionais poderia ter sido a epígrafe dos debates e articulações de ontem e anteontem, madrugada adentro, na Assembléia Legislativa. Para aqueles que com ligeireza atribuiam todos os males a Aníbal Khury – e que aguardavam mais clareza no ambiente parlamentar com o fim da hegemonia do Buda – tivemos uma das lições mais eloquentes de que em nada nos diferenciamos do Nordeste e das mais radicais estruturas de poder. Se tivéssemos o fulgor das praias de Maceió e a literatura de um Graciliano Ramos ainda compensaria.
Nos tempos de ouro da nouvelle vague do cinema francês, Jean-Luc Godard encenou ‘‘A China é vizinha’’ para um debate de valores estéticos e políticos. Poderíamos agora cogitar do título ‘‘Alagoas é vizinha’’ para mostrar que não somos aquilo que dizemos, tão distanciados do patriarcado feudal, em relação às práticas políticas. Dentro em pouco teremos sangue e o envolvimento das instituições para dissimular as coisas, como ocorre no caso PC Farias. Tudo à vista de todos, esquecendo da referência lírica e exemplar do gatinho da pensão burguesa no poeminha de Manuel Bandeira, que sabia esconder, com arte, as suas sujidades no jardim, ao revolver o solo e enterrar os excrementos.
Em política, dizem os pragmáticos, o único pecado é perder. E foi o que se viu ontem com os acertos de madrugada, gente de outros poderes intervindo nas votações. Acertos de natureza variada, fitas gravadas provando a obviedade do envolvimento dessa figura, cada vez mais confusa, que é Lerner. Um episódio barra pesadíssima: não havia lugar para cavalheirismo.
Resultado: a vitória de Justus não é interessante para o governo porque dependeu dos 13 votos de oposição e isso prognostica um convívio da base aliada, cada vez mais centrado no fisiologismo, como já ocorrera no episódio da Sercomtel. A moeda de troca permanece desconhecida, mas visível.



ANALOGIA
No Boqueirão tem o Pólo das Malhas. No Centro Cívico, o dos Malhos

BIZARRICE Quando se analisava a possibilidade de um ‘‘tertius’’ na disputa da Assembléia, falou-se no Basílio Zanusso e houve a observação: se ele tivesse a velocidade do seu ‘‘xarᒒ do Coritiba, quem sabe se aproximasse do Rossoni e do Justus, mas por certo, como o do futebol, não faria gol.
AXIOMA Do lado situacionista se dizia que o Nelson Justus era o herdeiro de Aníbal. Aí o Rossoni se valeu de um argumento demolidor: ficara no guardamento do guru durante toda a madrugada e o falecido lhe teria dito ‘‘vai que é tua’’. Exploração do ‘‘de cujus’’ é velha tradição brasileira: João Pessoa (morto por uma questão passional e não política) ajudou a Revolução de 30 e Getúlio, com seu suicídio em 54, garantiu a vitória de Juscelino-Jango.
GLOSA Sanepar está admitindo a hipótese, não muito remota, de estabelecer o rodízio de suprimento de água em Curitiba. Precisamos é de rodízio de governo que esse já entrou pelo cano, depois de ter quebrado o Estado.
MARKETING Curitiba continua sendo tida como plataforma de lançamentos de mercadorias e inovações. Vejamos num produto de alto consumo, o da cerveja, como está a partilha do mercado: Kayser 48%, Antarctica 27%, Skol 13%, Brahma 7% e Schincariol, 3%. Num passado muito distante, Porto Alegre e o Rio Grande do Sul, de um modo geral, apresentavam a Pepsi batendo a Coca. Aí o que fez a turma de vendedores da Coca? Simples: quebraram garrafas e engradados da que estava em primeiro e a batalha foi parar no Cade, que hoje examina a ‘‘suruba’’ das cervejas.
No interior do Paraná, Norte especialmente, foi muito comum na batalha do gás de cozinha a concorrência enrustir o botijão alheio.
SPRAY Requião estava irritadíssimo com as manobras do PMDB na eleição de ontem da Assembléia. Inaplicável, no caso, a lei de fidelidade partidária. - Que tipo de concessão pode oferecer o governo? Remissão de dívidas no Banestado e as de natureza tributária; aceleração ou redução de marcha em processos criminais. Enfim, sempre há alguma coisa. - Foi como na novela de Eugene O’Neil, uma longa jornada para dentro da noite. Ninguém dormiu e dava para perceber no humor e na irritabilidade de muitos. - A virada, já que na noite de ontem Rossoni liderava os exercícios de simulação, deu-se de madrugada, hora do espanto. - Novela do ‘‘Correio de Notícias’’ e de sua adesão a Lerner continua a tramitar na Justiça: tenta-se provar algo documentalmente difícil de demonstrar – que Cassio Taniguchi e Mário Celso Petraglia fossem os donos do veículo. - Caso da Leasing foi mais divulgado em detalhes na imprensa sergipana do que no Paraná, o que é prova de que em muitos aspectos somos mais atrasados do que os nordestinos, graças à cultura persistente dos meios de comunicação chapa-branca. - Por sinal que Lerner, na homenagem ao Abdo Aref Kudri, poderia ter respondido a interpelação sobre os R$ 500 milhões em propaganda. Seria uma exaltação à verdade. No centenário de Kudri, o governo fala.
FOLCLORE Dona Fani liga para o marido perguntando por que demora tanto. Lerner responde que está no Palácio. A esposa, levando em conta a hora, pensa tratar-se do Bar Palácio – churrasco paranaense, filé grisê, aquelas iguarias – e pergunta por que não a levou. Lerner explica que está no Palácio Iguaçu. É a dramatização de uma piadinha de ontem porque Lerner saiu do Palácio às 2 da madruga.
CROMO Nesse calor, as mulheres ronronam como gatas no cio: deslizam nas ruas como enunciadoras da primavera na sensualidade dos corpos.
AFORÍSTICO Não se sabe se o governo descobriu o peso ou o preço ou as duas coisas para o apoio do PMDB, no pleito de ontem. Quando se junta peso e preço, é gado e aí a medida é a arroba, e não foi esse o caso.
25ª HORA Mais um pouco e Lerner pedia o apoio dos sem-terra, pois valia tudo.

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