O passionalismo, às vezes com tom religioso, toma conta do Brasil em função da venda da Vale. Mas há um mérito inegável neste processo: o de desmitificar e checar velhos tabus do Brasil. É que se torna difícil botar matizes numa polêmica que tende à irracionalidade porque sugere, como é da tradição da terra, expectativas que jamais serão satisfeitas.
A forma como Fernando Henrique dirige o Brasil lembra cada vez mais de um dos paradigmas que precederam a Revolução Francesa, o Rei Sol. Sua postura se distancia do perfil republicano para o monárquico, logo ele que primeiro se localizou à esquerda e mais recentemente como um radical do parlamentarismo e que no Palácio Alvorada se configura como o presidencialista mais agudo que até hoje tivemos. Haja vista para o abuso das Medidas Provisórias.
A esquerda é atrasada. Ninguém haveria de exigir que ela desse a virada de FHC, que seria demais. Mas que ao menos tivesse visão mínima do que está ocorrendo por exemplo hoje, dia 1º, na Inglaterra, onde o trabalhismo teve que abrir mão de um dos seus fundamentos socialistas - o que se deve entregar aos trabalhadores o domínio dos meios de produção, romântico, mas inviável - para fazer de Tony Blair um candidato palatável e capaz de agregar parte ponderável do centro.
Ora, o tatcherismo é como Hobsbawn, a última grande expressão do marxismo, adverte: algo muito além dos chamados regimes neoliberais comuns e estereotipados para constituir-se numa especificidade sofisticada da direita e que deve obrigar a mobilização de todas as forças liberais e de esquerda para a sua superação. A esquerda tradicional inglesa tem restrições ao realismo de Blair e este argumenta que o embate agora, isso serve também para o nosso caso, é ampliar o raio das práticas democráticas para radicalizar naquilo que possa constituir-se, pelo menos, na busca da igualdade de oportunidades.
Olhar FHC como um homem da direita é uma estupidez. Não há um observador europeu que cometa o absurdo, tanto que figuras da social democracia como Alain Touraine ou o ex-dirigente espanhol, Felipe Gonzales, o classificam como uma expressão desse alinhamento em nível internacional. Pode-se, no entanto, combater o autoritarismo militante do presidente, mas não fazer o jogo que o próprio sistema no momento desencadeia: o de que estamos diante do chamado homem providencial, antiga deformação à brasileira (Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, Collor) e altamente negativa para a democracia.
O pior, porém, é que a ausência não apenas de homens, mas de um discurso atualizado, quer na oposição ou na esquerda, facilita aquilo que há de mais detestável numa democracia: o personalismo hegemônico, incompatível na essência com a república, embora simétrico à monarquia.
De qualquer forma, as tensões, apontadas como as dores do parto da democracia, são válidas porque ajudam a melhor compreender o Brasil e sua política.
BIZARRICEQuando FHC foi perguntado sobre o que achava das manifestações contra a venda da Vale fez gracinha querendo saber se se tratava de vale-transporte ou vale-refeição. É uma convocação indireta ao vale tudo.
SPRAYÁlvaro Dias, em nome do seu grupo, cria todas as dificuldades para o ingresso de Lerner, desejado pelo presidente FHC. Sugere que Lerner tende a se desgastar e talvez lá pela época da convenção, ele, Álvaro, esteja melhor. Na verdade, o maior desgaste que Lerner está sofrendo é esse do PSDB. - Anteontem houve novo contacto entre Lerner e FHC pelo telefone, em Apucarana, e o governador se mostrava tendente a aceitar a sugestão presidencial de ir para o PFL, que a chapa seria mantida em aliança regional com ele na cabeça e Álvaro Dias, se as duas convenções o admitissem, para o Senado. - A capa da última ‘‘Paraná em Páginas’’ é um libelo contra as obras do Cemitério Municipal, feitas por Rafael Greca, e que prejudicaram especialmente o mural de Franco Giglio, cujas pastilhas soltas não encontram reparação técnica. - Na Net e na TVA, ontem, havia mais interesse nas suas pendências para o direito de transmissão dos jogos de hoje do que em torno da novela da Vale do Rio Doce. - Pesquisa da rádio CBN se pronunciou radicalmente contra a iniciativa do senador Pedro Simon de exigir que apenas o poder público oferecesse fundos para as campanhas eleitorais. O público percebeu o moralismo discurseiro da proposta e a sua inocuidade, pois mesmo que houvesse o suprimento oficial, ninguém impediria que os lobbies funcionassem, via caixa 2, no pleito. - Beneficiários do processo do ICMS (não os que estão na prisão há mais de 300 dias) e das guias falsas pelo jeito vão ficar de fora de qualquer punição. Como de resto, todo o mundo já esqueceu das patologias da Leasing Banestado.
FOLCLORERafael Greca, perguntado sobre o seu destino partidário, caso Lerner fosse para o PSDB, construiu metáfora bem a seu gosto ao dizer que aprendeu com o bicho-da-seda que um ser em metamorfose não sabe exatamente o que é. Afinal crisálida ou ninfa, pode concluir-se, não é borboleta. Antes poesia do que lembrar, por exemplo, do Dr. Jekill e Mr. Hyde que fica melhor assentado para os inimigos. Ou ainda para valer-se da literatura, lembrar de Gregório Samsa que acordou em pesadelo, no conto de Franz Kafka, transformado em barata.
CROMOO girino se faz sapo, mas lentamente, como o alevino se faz peixe e a larva se transfigura em mosquito. Mudar de partido não é poético e muitas vezes se traduz em falta de caráter.
AFORÍSTICOCom a globalização anunciada, o nosso presidente será cada vez mais parecido com um capataz e os brasileiros com seus peões.

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