Luiz Geraldo Mazza
A anatomia do poder
Quem doutrinou sobre a anatomia do poder foi John K. Galbraith, o vigoroso liberal norte-americano que não se confunde com os calhordas neoliberais. Mas quem encarnou o poder, aqui no Paraná, foi Aníbal Khury na definição precisa de Canet Júnior. Quando define os fatores que dão suporte ao poder, Galbraith elege como o primeiro, a personalidade, depois a propriedade e, a seguir, a organização. Aníbal parecia unir a trindade em si mesmo e manteve, mesmo fora - da atuação, quando cassado, essa capacidade de aglutinar, de mover peças e obter resultados.
Não é fácil separar o homem do mito, pois assevera-se que mesmo na purgação do Ato Institucional atuava à distância na questão de municipalização, criação de municípios (comarcas e cartórios, vinham na sequência), enquanto curtia o poder carnavalesco de presidente do Atlético, uma forma que amigos encontraram para compensar os agravos sofridos, o que não deixava de ser mostra de caráter e de solidariedade.
Uma vida intensa como essa há de ter mais do que pecados veniais nessa busca de poder. Pode-se discordar com ênfase do lado assistencialista e populista do guru; jamais, porém, subestimá-lo. Esgotando o sentido de sua participação ao espaço paranaense, embora originário de Santa Catarina, foi um provinciano no extremo rigor da definição; um Fouchê (ou um Maquiavel) de campanário.
Essa a distinção cabível, quando o comparam a ACM, cuja atuação é nacional, ainda que em nome da baianidade. Se ACM brigou pelo pólo automotivo, Aníbal saiu à frente com a legislação de incentivos que permitiu o novo perfil da economia paranaense e que rompeu com a dependência de São Paulo.
Não é bom para a democracia em seu aspecto puro alguém concentrar tanto poder, embora uma parte dele possa ser fantasiosa; mas se o paradigma é negativo, por esse aspecto torna-se relevante quando medido pelo senso de participação, de intervenção nos acontecimentos. E o Paraná tem sido, na história brasileira, preterido por essa falta de determinação que sobrava no Aníbal Khury. Nesse sentido sua vida é um exemplo raramente seguido.
BIZARRICEComo os paranaenses gozam os catarinenses dizendo que o único herói daquela unidade federativa é uma mulher, Anita Garibaldi, eles podem replicar que o maior político do Paraná foi o catarina Aníbal Khury
AXIOMA Da mesma forma que acumulou poder, este visível, Aníbal teve o ódio de inimigos nem sempre visível. Tanto que em 64, embora ele tivesse contribuído para a derrubada de Jango, corria entre os militares a sentença de que a Redentora só chegaria ao Paraná se ele fosse cassado e tivesse bens confiscados.
GLOSA Dentre os mitos negativos sobre o Buda, há alguns terríveis como o de que tomara as terras dos índios para vender ao Miguel Forte e ao Slaviero e que tivera parte na morte do índio Ângelo Cretã. Aníbal tirava sarro da liderança de Cretã dizendo que ele era vereador pelo PTB. Dos exageros, porém, nenhum excede o de que alterava resultados eleitorais com o mapismo e que com a vinda dos computadores brincava de videogame com os escores registrados como se diante de um fliperama, o que acrescenta um dado cibernético a tanta aura.
BURACO NEGRO Está criado um buraco negro na política estadual. Pelo menos até a eleição do novo presidente da Comissão Executiva. Há um grupo que deseja mais reflexão e, portanto, maior prazo do que cinco dias para que se avalie bem e em profundidade os efeitos dessa nova situação no cenário político e nas suas relações institucionais com o Executivo e o Judiciário, onde já não vinha detendo tanta influência como anteriormente.
Aníbal, como defensor da instituição, detinha um zelo superior, notadamente nos momentos de confronto, já que a rotina tem sido de obsequiosa servidão.
A recomposição do cenário, diante dos espaços ocupados por Aníbal, não será feita sem traumas. Havia algo muito forte na atuação do pranteado e que se sobrepunha, ao longo do tempo, de forma condicionante. Fará falta ao governo e muito mais à oposição. O PT, por exemplo, era magnetizado por Aníbal. Fugiram desse magnetismo o Pedro Tonelli, no passado, e Rosinha, mais recentemente.
De Pedro Tonelli, que criticava o guru por causa das mordomias, a que se recusava aderir, Aníbal costumava dizer que ele, o petista sozinho, era mais
forte do que as bancadas que o sucederam.
PLEBISCITO Sugeri, tempos pssados, um plebiscito sobre a Copel, já que o governo age de forma imperial e disposto a queimar todos os ativos e sem abrir o assunto à discussão. A oposição se mostrou sensível à idéia de propor se não o plebiscito um debate em profundidade com a massa cinzenta da área, que não é pequena, toda ela contrária ao que o governo, que quebrou o Estado, pretende. Uma dessas correntes sugere que o governo privatuize a distribuição, mas nunca a geração. Esta seria suficiente, segundo Edson Neves Guimarães, que foi o melhor dos nossos derradeiros secretários da Fazenda, para atender o gasto com os aposentados.
Os açodados do poder, que quebraram por método o Banestado, e que se recusam a prestar contas do estrago (Leasing e Corretora), acham que a panacéia é uma só: leilão e privatização.
FOLCLORE Encontro com Aníbal Khury era sempre um festival de elogios. Certa ocasião, funcionários da Assembléia lhe prestaram homenagem num ambiente que já estava meio sobre o boêmio. Com a palavra livre, levanta o Ney Rodrigues, o Bigode, e faz uma oração de voz empostada de locutor de cinejornal e começa com expressões assim: Aníbal, você não é normal. Ou melhor você é um anormal. É um monstro. Já tinha áulico suando nas mãos, desesperado, acreditando que viesse uma enxurrada de mitos negativos sobre Aníbal como a aquisição de terra dos índios, alterar resultados eleitorais nos mapas, enfim tudo o que os inimigos, que eram poucos, mas extremamente cruéis, diziam. Foi nesse momento que o orador, no melhor estilo hitchcockiano, do suspense, suspirou fundo como se imitasse a Hortência na hora do lance livre e tascou: Só pode ser um anormal, um monstro, aquele que tem o coração maior do que o corpo e que não é pequeno!. Aplausos emocionados levaram a turma à catarse. Aníbal sorriu entre tabules e quibes.
CROMO A morte é a grande niveladora: a expressão dos versos de João Cabral, fortes e duras, de que a sepultura é a parte que nos cabe neste latifúndio é geral e irrestrita. O poder é ilusório como a vida. O poder como o amor é eterno (Vinícius) enquanto dura.
AFORÍSTICO O desagregador odeia todo aquele político que agrega.





