Luiz Geraldo Mazza
O mito das barricadas
Barricadas, como essas que os ruralistas e as oposições aprontaram em Brasília, podem transformar-se em barrigadas. Quando eu era mais disponível, até 1960 e pouco, estava convicto de que era mais fácil mudar a ordem com um movimento de massas do que com artigos de jornal, outra fantasia romântica, hoje rareando.
Dos agitos estudantis e sindicais, eu participava de todos como o clássico da Guerra do Pente, nos fim dos anos 50, quando houve uma conflagração na capital que a condenou ao estado de sítio por três dias em função de uma briga por causa da nota fiscal de um pente: o comerciante, irritado, porque o valor da compra não atingia o limite da lei, reagiu e bateu no cliente. Foi o estouro da boiada, pois o fato se dera na Praça Tiradentes e dali se irradiara.
Estudiosos desses fenômenos os que deram sequência a avaliações sérias sobre as multidões como Gustave Le Bon estão devendo explicação detalhada sobre sua origem e dinâmica. A Polícia Militar teve que sair das ruas e dar espaço ao Exército e seus carros blindados para pôr ordem no caos.
Várias vezes saímos às ruas para virar bondes por causa das tarifas ou invadir açougues para tomar posição contra o aumento da carne, como também o envolvimento em quebra-quebra em hostilidade à Companhia de Força e Luz, seja em função do aumento ou da má qualidade dos serviços. Claro que de vez em quando havia baixas com prisão, registro em ficha da DOPS ou ferimento com uma cassetada. Batalhas de rua, sob qualquer pretexto, afloravam e como recurso defensivo usávamos bolinhas de gude e rolhas para derrubar cavalarianos da PM.
Hoje, com o império do prazer, fundamento da psicanálise, um novo hedonismo, apropriado à sociedade de consumo, estudantes gostam mais de curtir o amor do que a frequência do agito, o que, convenhamos, é bem mais saudável. Só que aí pode dar, por descuido, outra forma de barrigada. Para agitadores, como nós, a repressão recomendava camisa-de-força; noutro caso, a camisinha resolve.
AXIOMA
O casamento, meus filhos, é uma troca diurna de humores e noturna de odores. Assim falava, e com uma elegância de espadachim, olhando para o teto, o mestre Napoleão Lírio Teixeira, na cadeira de medicina legal, avô da nossa diretora Regina
RENÚNCIA Brizola berrava na Cadeia da Legalidade diretamente do Palácio Piratini na renúncia de Jânio para garantir a posse de Jango em 1961. Aqui o general do povo, Iberê de Mattos, prefeito de Curitiba, montou a resistência na Prefeitura de Curitiba. De lá abriu voluntariado no qual tratava de distribuição de armas aos defensores da legalidade. O cenário estava crispado de paixão, sentia-se no ar o engajamento, havia passeatas e discursos contra militares e os golpistas.
Com tudo isso, como já disse pedagogicamente, Iberê, que faturou o clima emocional, não se elegeria no ano seguinte deputado estadual. Ficou na oitava suplência do PTB de Getúlio Vargas, mais desse do que do teórico Pasqualini.
E isso se repetiria com tantos outros em auês como o das Diretas-Já que não emplacou no Congresso, porém ajudou a fundar a vitória de Tancredo, cuja morte faria do mórbido porta-voz, o Antonio Brito, bom jornalista em políticao e até governador do Rio Grande do Sul.
Quem está no olho do furacão acredita nas barricadas, é peça de mecanismo bem maior, a multidão, e se acha invencível. Para as mobilizações de 100 a 150 mil pessoas, a direita respondeu em 64 com mobilizações de mais de 1 milhão de pessoas em São Paulo e no Rio. Lembrou que quando as marchadeiras entravam em declínio, o Zé Kéti andou por Curitiba e nos fez cantar em reunião meio fechada (aparelho): Você marchou pela democracia// Agora chia, agora chia! Quando das Diretas-Já, muitas das integrantes da Marcha com Deus pela Família e a Liberdade mudaram de lado e votaram em 82 no PMDB.
MOLDURA A dupla de cantores Marta Egert e Jian Kiepura se apresenta em Curitiba no Cine Palácio. O cantor vai fazer mesura e sua peruca vai ao chão.
O PENTE (2) Eu, no meio da massa na guerra do pente, tentando sugerir que a patuléia atingisse a estrangeira companhia telefônica e não adiantava: era um caso de xenofobia contra árabes que tinham suas lojas depredadas. Depois, na Redação do Diário do Paraná, na hora em que vi a plebe dobrar a esquina e dirigir-se pela Rua José Loureiro, quis realizar o velho sonho de domar a multidão e, um tanto emocionado, imaginei-me como Camile Desmoulins no agito da Revolução Francesa e gritei: Brasileiros... Olharam-me e lançaram um pau que derrubou o luminoso do jornal.
O PENTE (3) Na esquina da Marechal Floriano, por onde vinham os tanques do Exército desde o quartel do Boqueirão, com a Rua XV, onde havia mais agito, um carro blindado pifou, as lagartas se moviam sinuosamente.
Aí o curitibano, gozador, aparentando delicadeza, dirige-se ao oficial que comandava a viatura: O senhor quer que a gente empurre?
O BAR Meu pai tinha um bar na Rua XV e de vez em quando quem pintava por lá era o Sílvio Caldas, com violão à mão, junto com o Joffre Cabral Silva (presidente do Atlético, que morreu diante de um frango do goleiro Muca contra o Paraná de Londrina, em 1989, e que tirou o time da disputa). Os dois com aquele cabelo branco pareciam irmãos. O Joffre, com a voz rouca, pedia ao Caboclinho os números do repertório. Era um tempo menos mercantil: a seresta, inesperada, com cerveja e rolmops. Numa das madrugadas, o briguento Carlinhos Pereira (tinha um cão policial que chamava de Pinheiro Júnior, chefe de polícia) obrigou uma trinca de bebuns a dar vivas a Luiz Carlos Prestes, um deles um constrangido galinha verde do Partido Integralista.





