Anistia e esquecimento
Hoje a promulgação da Anistia chega ao seu vigésimo aniversário. Além da premiação que recebi, junto com os colegas Valmor Marcelino e Milton Ivan, da OAB-Paraná relativa a direitos humanos do Centro Heleno Fragoso, participei de uma teleconferência na Educativa e numa entrevista na TV Bandeirantes, tudo em cima do tema pelo qual tantos se batem para que não caia na amnésia.
Duas décadas parecem pouca coisa a um país que põe em andamento a comemoração dos 500 anos e que tem uma história mais de arbítrio do que de tolerância de democracia, razão pela qual volta e meia precisa de anistia, algumas delas decorrentes de tensões bem maiores como a de 1893 e que colocou em xeque a nascente República e dois anos de processo constitucional recente.
É melhor assim do que ver, por exemplo, o papa fazer o ‘‘mea culpa’’ pelas atrocidades da Inquisição e reprovar julgamentos como o de Giordano Bruno levado à fogueira, já que não fez como Galileu que usou de malícia para driblar a baba do Santo Ofício. Todas as formas de terrorá – como as do Terceiro Reich, as do ‘‘socialismo real’’, as do Chile ou de Cuba – são denunciadas apenas como fato consumado quando já não há como intervir na marcha dos acontecimentos.
Por isso a existência de uma Anistia para avaliar o que é permanente se impõe num mundo que aceita o que até há pouco seria insondável como a prisão de Pinochet em que se consagra a extraterritorialidade mais de um princípio do que de uma lei específica e abrangente. De certa forma agiu-se assim no Tribunal de Nuremberg, no qual se desrespeitou, no entender de muitos juristas, o princípio basilar da anterioridade legal (nullum crimem, nulla poena sine lege, ‘‘o de que não há crime sem lei anterior que o defina e nem pena sem prévia cominação legal’’.
As manifestações de Brasília mostraram que tanto o governo como a oposição se saíram bem no episódio, em face do seu grau de civilidade. Não dá para comparar com aquela molecagem de agricultores familiares colocando porcos e galinhas na sala de um ministro, que apenas mostrou primarismo e má educação ou nessa outra dos sem-terra no Centro Cívico, nutrida pela frouxidão do governo e que só irá despertá-lo na hora em que chutarem o traseiro de um seu representante.



AXIOMA
Depois da panificadora e da estufa, os sem-terra do Centro Cívico podem programar para o ‘‘feriadão’’ a inauguração da gráfica e o primeiro baile do CTG Rompe Ferro. Mais uma do Elísio Marques

BIZARRICE Um motel de Curitiba está mandando mala direta para seus clientes mostrando as novas atrações da casa. Uma vez, com essa onda modernosa, de casados irem ao motel para exercício de fantasia e ‘‘renovação espiritual’’, a mulher de um político importante levou uma garrafinha de álcool para desinfetar a piscina de fibra (medo da Aids) e tacou fogo em cima. Quase acabou incendiando o honorável estabelecimento.
GLOSA Rubinho Ferreira sugere para fortalecer a chapa situacionista da capital a inclusão da Margarita Sansone como vice do Taniguchi para a prefeitura.
DEBOCHE Um dia depois da entrega do abaixo-assinado com mais de 1 milhão de assinaturas pedindo a CPI das Teles, o Brasil, ironicamente, conclui o processo de privatização do sistema vendendo pela bagatela de R$ 100 mil o espelho da Centro-Sul. O Brasil, diante do espelho mágico: ‘‘Espelho, espelho meu// Existirá no mundo// alguém mais trouxa do que eu?’’
LEMBRANÇA Um estudante, empenhado em tese de graduação, procura-me para um depoimento sobre Leon Perez. E traz um texto da revista ‘‘Panorama’’, de 1971, em que faço avaliações sobre o que poderia acontecer com um dirigente em aberta contradição com a política metropolitana. O curioso, porém, é a abertura do comentário: ‘‘Com as tendências globalizantes da economia e da política, até que ponto as tonalidades locais, como expressão de engajamento e poder de decisão, influirão no processo nacional?’’ Imaginem: globalização há quase três décadas.
SPRAY Mesmo em leito hospitalar, onde convalesce da cirurgia a que se submeteu, Aníbal Khury é uma referência para o encontro de hoje entre Lerner e o secretário de Segurança que definirá quedas e ascensões naquela área. - Ainda que não esteja opinando ou sendo consultado, parte do que será decidido terá sua influência. - Há facções razoavelmente arregimentadas, nas polícias Civil e Militar, para complicar o meio-de-campo. Entre os militares há mais de um grupo mandando material de denúncia como o caso das jaquetas. - Quem dava esse tipo de informação quando Requião governava era o coronel Vieira, hoje na Casa Militar, credenciado, talvez, por esses serviços. - Há muito tempo as jaquetas são importadas: a primeira de Taywan, a segunda ‘‘clonada’’ na AVM, Associação da Vila Militar e a terceira, essa da Coréia. - Vereadores de São José dos Pinhais querem saber tudo o que houve com a Renault, na questão dos terrenos, enfim com tudo o que a Companhia de Desenvolvimento andou fazendo. - Oposição está em fase de montagem de dossiê sobre os investimentos estrangeiros e nacionais no Paraná e o grau de comprometimento de autoridades locais na parte de incentivos, doação de área etc. - Denúncias de extenso desmatamento no Bairro Alto, junto ao rio Cachoeira, não foram levadas a sério pelo governo.
FOLCLORE PMDB, ainda sem bandeira, mantém, todavia, a bandeirada da história das multas e distribui hoje, nos principais cruzamentos da cidade, adesivos da campanha ‘‘meu coração tá arrependido’’. Encruzo é lugar de despacho e não, de forma alguma, de despachados.
CROMO Como no espaço teatral, saíram de cena os manifestantes de Brasília. O Brasil continuou o mesmo, o ruído ficou conservado como o som permanente do oceano no interior do caramujo.
AFORÍSTICO A revolução, como fruto sazonado, pelo jeito caiu da árvore.

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