Para os radicais à direita, o ritmo das privatizações do governo é lento demais. Seu porta-voz mais articulado, Roberto Campos, faz hoje, com um cenário mais favorável, o mesmo discurso dos anos 50. A Vale do Rio Doce, ícone menos religioso do que a Petrobrás, está na camisa do Flamengo em substituição ao Lubrax que dela deriva, é uma parada decisiva para FHC e o sistema não apenas, o brasileiro, mas o mundial que ele decalca, feito agora uma espécie de ‘‘verdade revelada’’, de confessionalismo em cima da economia de mercado e da globalização, que estão longe de ser a fatalidade invocada.
O enfrentamento é desigual: o peso do governo, ainda com credibilidade elevada, apesar da concentração de Brasília que pegou carona na manifestação dos sem-terra, joga para a opinião pública a versão de que o passado, o que há de mais atrasado no País, a nostalgia nacionaleira, se opõe à modernidade. Esta, a rigor, lembra em muito a das cenas caricaturais de Greenville na novela ‘‘A Indomada’’, na qual a modernização é adoção colonizada, mecânica, da mão à esquerda no trânsito inglês e neste momento o personagem Ipiranga Pitiguari, o prefeito, é uma soma de Fernandos, do Collor ao Cardoso.
Refém desse discurso confessional, mais do que isso, dessa fatalidade, como se de repente o determinismo voltasse a imperar, apesar de sua desmistificação em doutrinas totalitárias, FHC passa por cima da consideração do interesse nacional, algo que norte-americanos, canadenses ou japoneses sempre levam em conta, para mostrar-se palatável aos nossos credores e investidores. Joga com todas as suas forças nessa questão da Vale, o derradeiro bastião existencial porque depois dela tudo irá de roldão, tal como ocorreu na Argentina e cujos problemas não foram e não serão resolvidos por esse alinhamento.
O mal é que os resistentes não souberam construir uma linha de argumentação que não tivesse os resíduos dos tempos da substituição das importações, da doutrina da Cepal e do ISEB, de tudo o que é arcaísmo na história do nosso pensamento econômico e político. Se Getúlio Vargas e Arthur Bernardes viessem com seus discursos, ontem, nas manifestações contra a venda da Vale, estariam em sintonia fina com toda a algaravia produzida. De outro lado, havia opções alternativas, como a da mudança do modelo de venda sugerida por Eliezer Baptista, o maior executivo da área, e que não entrou nas discussões porque o embate se encaminhou para o reducionismo maniqueísta. E aí, a rigor, ninguém raciocina.
Estamos em marcha batida para nos transformar num entreposto. Até o Paraná já está nessa, fazendo concessões extremadas a estrangeiros quando não dá apoio a empresas locais que acabam absorvidas. Como numa fatalidade incontornável e com o governador, sorridente, não percebendo os ônus que daí advirão.
BIZARRICE Como os jornais estão anunciando a vinda do prestidigitador David Copperfield ao Brasil, o advogado e anarquista Elísio Marques sugere que o mago veio para dar uma força na ‘‘privatização’’ da Vale do Rio Doce.
SPRAY O presidente da República teria deixado claro aos tucanos que apóia a solução Lerner num partido aliado sem condições, o que poderia significar prejuízo aos resistentes. - Como Lerner não é de briga e ao contrário se perde ao lado dos seus trapalhões não se valerá desse sinal verde para mostrar a fragilidade dos seus adversários. - Álvaro Dias é o responsável por ter o PSDB malufado no Paraná a tal ponto que copiou os projetos do paulista. Apesar disso e dos seus inúmeros partidos (PST, PP, PMDB, PSDB), fala em coerência e fidelidade. - A fidelidade de Lerner ao PSDB é maior do que a de Álvaro: sendo a liderança maior do PDT, apoiou Richa e Scalco, enquanto ele ajudava, com a operação ‘‘Ferreirinha’’, a eleger Requião. - Lerner foi mais longe: apoiou FHC contra Brizola. E por isso, o PSDB o apoiou em aliança ao governo, enquanto Álvaro iniciava o processo de malufização no PP e o transferia, na sequência, ao tucanato que o adotaria com Carlos Simões até em projetos de campanha. Como se vê em matéria de autenticidade é um campeão. - Do manancial de ridículos expostos nas especulações nada é mais absurdo do que a idéia de Jaime Canet Júnior ou João Elísio saírem candidatos. O doutor Silvana pelo jeito voltou a atuar com plena desenvoltura. - Indecisões de Lerner se transmitem por osmose e o secretário de Segurança, nas questões de terras (agora, outra vez, com morte e massacre), banaliza a perplexidade: acha contornável uma decisão judicial e pouco faz para evitar conflitos. Levou meses para adotar uma postura mais técnica relativamente aos vândalos do futebol. - Uma das causas profundas da resistência a Lerner no PSDB é a convicção de que haveria uma invasão do partido por gente ‘‘aparelhada’’ em secretarias de Estado. Essa, aliás, a razão pela qual os pedetistas preferem não sair, pois seriam moídos pelos privilegiados. - Manifestação igual a de ontem em favor da Vale é melhor que não saia: seus números - isso a capacidade de aglutinar - só dão força ao governo. Excusado falar sobre os discursos, a mesmice nacionaleira dos anos 50. E bravatas exigindo a derrubada de FHC ou a dando como consumada é algo que não dá para suportar, mesmo com doses de Engov.
FOLCLORE Observação de um cético sobre a manifestação contra a venda da Vale na Boca Maldita: ‘‘Se fosse a favor do vale-transporte e do vale-refeição, garanto que reuniria mais gente.’
CROMO Tão verdes as folhagens em que se escondiam os periquitos que dava a impressão de que a árvore misteriosa é que fazia a bulha.
AFORÍSTICO ‘‘O Estado sou eu’’ e ‘‘Depois de mim o dilúvio’’ são frases que assentariam bem em Fernando Henrique. O plágio seria didático.

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