Luiz Geraldo Mazza
AS BATATAS
A renúncia de Jânio, ontem celebrada, desnorteou o governador que se elegera com o slogan vivo Quem é Ney é Jânio, quem é Jânio é Ney, bem sacado especialmente devido ao agudo caráter do trabalhista Nelson Maculan que, embora apoiado pela UDN do Norte, recusou-se, por convicção, a abandonar Lott, o candidato que trazia na face o fulgor da derrota, respeitando a aliança PSD-PTB. Ney se elegeu, desfrutou nos primeiros meses do apoio presidencial e obteve até um empréstimo do Banco do Brasil para segurar o preço da safra da batata, aviltado em função do excesso de produção. O contingente retirado do mercado permitiu que seu secretário da Agricultura, Paulo Pimentel, levasse o produto ao Nordeste em caminhões para distribuição com o dístico da campanha Alimentos para o Brasil. Um dos coordenadores da operação era o Rafael Iatauro, coadjuvante de Aníbal Khury na imposição da candidatura Pimentel pelo PTN, logo em seguida, e que colocaria o governador em sinuca. Essa operação era um sinal de presença nacional em favor de Ney.
De lua-de-mel com a União, vale dizer Jânio, Ney ficou pasmo com a renúncia. Lembro que os atritos com Carlos Lacerda, um dos desencadeadores do gesto presidencial, ao menos na aparência, levaram o Palácio Iguaçu a emitir notas em sentido contrário. Numa delas fui convocado, ao lado do jornalista Samuel Guimarães da Costa e do filósofo Ernani Reichmann, especialista maior do País na doutrina de Kierkgarden, para a elaboração de um texto.
AFORÍSTICO
E que tal se a passeata dos cem mil
fortalece Fernando Henrique?
PRAGMATISMOGraças ao pragmatismo de Ney, o homem que revolucionou o Paraná (aquele caso da batata, por exemplo, não é isolado, já que projetava um dos pontos mais estratégicos do programa de diversificação da economia e que com Pimentel recriaria a pecuária, trocando gado de raça indiana pelo rebanho existente), consegue aproximar-se de João Goulart na condição de dirigente do PDC nacional e pelo fato de ter ajudado a eleger senador Amauri Silva, em 62, e que iria ser o ministro do Trabalho. Ney defende a abertura à esquerda, que se ampliava em função do Papa João XXIII e das Encíclicas; defende a reforma política e o voto do analfabeto, a reforma agrária e a de empresa com a cogestão e a derrubada do parlamentarismo para devolver poderes a Jango.
Com o golpe de 64, que Ney ajudou a ser desencadeado na condição de milico e dos bem informados, a extrema direita queria golpeá-lo, tanto a militar quanto a civil. Mais ligado à linha dos pombos Castelo Branco e Geisel, adeptos da abertura lenta, gradual e segura Ney ficava no alvo dos falcões, ainda mais quando teve a ousadia de postular a presidência e levar a melhor no Paraná sobre Costa e Silva.
Militares da linha dura me procuraram à época para dar depoimento sobre como funcionava o sistema de comunicação de Ney, com o qual jamais concordei, e me recusei a fazê-lo, lembrando que o intermediário, que me conduzira até eles, carregava o governador nas costas nos comícios e andava ressentido porque seu pai não fôra nomeado desembargador, o que também não dependia do Executivo. Ódios, enfim, paroquiais.
De certa forma, pois, o Paraná foi beneficiário dos golpes de 54, 61 e 64, mas aproveitou as coisas pela metade: ganhou ministérios, dinheiro a fundo perdido, que fez a mitificação de Lerner, cedeu áreas agricultáveis para as gigantescas hidrelétricas, não federalizou as universidades e paga, ainda, o que é um absurdo, a folha do Hospital de Clínicas. Nesses períodos, foi o Estado que forneceu mais divisas líquidas, e a reciprocidade recebida em nada favorece as nossas lideranças que pecaram, como até hoje, pela falta de ousadia. Soa inútil a campanha tardia do Ramiro Whahrhaftig e num momento em que o Paraná, quebrado por Lerner, mendiga no governo federal absurdos.
BIZARRICE Novo round ontem entre a PM e policiais civis. Vão tentar botar pano quente na parada, o que é próprio deste governo. O pior um profeta já viu: o momento em que um sem-terra chutar o traseiro de um hierarca palaciano.
AXIOMA O Banco Central informa que os títulos podres estaduais negociados pelo Banestado contam com garantia da Copel: quebram o banco e, na sequência, a Copel. E depois perguntam por que Lerner, Gionédis e Campelo gaguejam, o que torna o discurso sincronizado. Requião vai à justiça contra essas & outras.
GLOSA Elísio Marques, anarco-coxa branca, dizia, ontem, antes do jogo do Inter contra o Atlético: Tem Dunga na Baixada, anão a preço de Mulher Maravilha.
SPRAY Aníbal Khury hospitalizado com problema gástrico no Santa Cruz. - Osmar Dias falando com Malan ontem sobre dívidas estadual: ele acha que aí está o furo das contas públicas, o que não é bom para o Paraná. - Importadora confirma que PM comprou uniforme da Coréia do Sul e já pagou. Esse é um dos casos raros de o dinheiro já chegou ao fornecedor neste governo. - A Paumer, de Guaratuba, criou expectativas de empregos e só depois o governo, graças à Polícia catarinense, descobriu que o empresário não era sério. Cobrou R$ 20 de cada um dos 2.100 inscritos como candidatos e não devolveu a caução e nem o calção. - OAB forma, semana que vem, lista de seis para vaga no Tribunal de Alçada.
FOLCLORE Segundo o jornalista Freitas Neto, o Tribunal de Alçada foi criado para que juízes não dissessem que determinado assunto não era de sua alçada.
CROMO Borboleta, florzinha que voa. Artes do caleidoscópio infantil.





