Getúlio, Jânio, golpe (1)
Ontem, quadragésimo quinto aniversário do suicídio de Vargas, não foram poucos os que se debruçaram sobre a relevância daquele acontecimento e suas implicações na vida brasileira. O nacionalismo exasperado da carta-testamento ainda emerge das manifestações de hoje e amanhã em Brasília: essa visão, superada no tempo, como alerta Hobbsbawn, talvez o maior marxista vivo, teve o seu momento e até se sustentava na doutrina da própria Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), da substituição de importações.
Ironicamente, Getúlio negociou com os Estados Unidos da América do Norte as concessões de aeroportos no território nacional, entre os quais o de Natal, estratégico para o front africano, e o de São José dos Pinhais para as operações de escala. Eles fizeram os aeroportos e nos deram em troca a usina de Volta Redonda, que permitiria ao País ampliar o seu raio de autonomia. Foram os pró-americanos que o derrubaram do governo para abrir clareira à obra de reconstitucionalização do Brasil.
Testemunhei, em 1953, nas comemorações do centenário de emancipação política do Paraná, no salão nobre da Faculdade de Direito de Curitiba, em reunião da Comissão Interestadual da Bacia do Paraná-Uruguai (CBPU), Getúlio, em discurso, anunciar a criação da Eletrobrás, o que lhe criaria dissabores referidos na carta-testamento.
Como ensina Ortega y Gasset sobre o peso das circunstâncias no evoluir da história, Getúlio deve ser visto na perspectiva do seu tempo. Há, no entanto, um dado que prejudica o mito – o do messianismo, elemento comum com uma outra liderança, não das armas, mas das urnas, Jânio Quadros, cuja renúncia se deu na data de hoje há 38 anos passados. E foi essa aura que potencializou o gesto extremo de Vargas e que estancaria o golpe militar e dos falsos liberais da UDN e garantiu a sobrevivência por mais cinco anos da frente populista que unia o PSD e o PTB, duas criações dele, o primeiro para a sociedade dominante rural e outro para o nascente proletariado urbano.
Jânio encenou a renúncia, confiando que voltaria nos ombros do povo e quebrou a cara. Lembro perfeitamente que Ney Braga, governador, esperava que ele reconsiderasse. Seguiu-se o agito da tentativa de impedimento da posse de Jango, frustrada, graças à resistência de Brizola em Porto Alegre e do recuo dos direitistas que babavam, o que concederia moratória ao golpe dentro de menos de três anos. Isso não estava nas estrelas, mas na estratégia daqueles militares que fizeram a campanha da Itália, dentre eles Castelo Branco.



AFORÍSTICO
Depois dos ruralistas, a megapasseata dos 100 Mil dos partidos que tentam fazer repetir. A OAB e a ABI não entraram no golpeAFORÍSTICO

BIZARRICE Para os que se iludem com o mito das barricadas, que alcançou seu auge na batalha autogestionária das massas em Paris em 68 (a do Brasil é de significância menor, em que pese a redução que lhe conferiu Zuenir Ventura), volto a lembrar um episódio curitibano. O arregimentador das massas, para dar respaldo a Brizola, foi o também trabalhista Iberê de Mattos, general prefeito de Curitiba, populista até a medula (apesar da boa formação técnica): criou um clima de revolução ao abrir voluntariado ao qual oferecia armas. Pois apesar disso, que se deu em agosto, no ano seguinte concorreu a deputado estadual e figurou na oitava suplência. Para quem estivera no olho do furacão daquele momento dramático é pedagógico o fato de que o frisson da agitação coletiva não garante a continuidade de uma liderança. Mas quem se mete nessas acha que aquilo será eterno. O fato é que dura pouco, qual perfume sem fixador.
AXIOMA Brasília às voltas com mobilizações e o governador Jaime Lerner vai até lá para tentar botar a mão, adiantadamente, em mais de 20 anos de royalties de Itaipu para salvar o Estado da desgraceira que ele próprio criou. Isso faz lembrar do jornalista Zé Cury, sustentáculo da revista ‘‘Panorama’’, que na noite de 31 de março de 64 estava no Palácio Iguaçu com um monte de papel embaixo dos braços e que Ney Braga julgou tratar-se de um manifesto do Samuel Guimarães da Costa para justificar a posição paranaense no golpe. O Cury, que gaguejava, esclareceu com uma pergunta: ‘‘São minhas fa-fa-turas, governador, e quando vo-vou receber?’’ Se o Cury estivesse vivo, iria à noite ao jantar do Abdo Kudri, irmão de artes editoriais.
GLOSA A Globo regional mostrou ontem dois meninos de 12 e 11 anos, campeões de motocross, servindo de instrutores de soldados e oficiais da PM nessas manobras de risco. O fato lembrou a história daquele menino de 6 anos que pegou um trem no Porto de Paranaguá e o pilotou até bem além de Alexandra, nos anos 60.
PM DEVASSADA O governo Lerner vai acabar com os fundamentos hierárquicos da Polícia Militar gravemente afetados no episódio do vigarista Jony Rodrigues, no da concessão do ‘‘grampo’’ para espionar sem-terra e nas operações de despejo feitas de madrugada e com uso da coação. Pois não bastasse tudo isso e com o claro intuito de prejudicar a Associação da Vila Militar, que tinha uma de suas fontes de renda na fábrica de uniformes, pretende comprar jaquetas importadas com os R$ 350 mil descontados dos milicianos. O Conselho da PM negou aprovação, mas o comando não aceitou a posição da maioria e mandou importar o material da Coréia. A ata, em que os conselheiros se opunham à aquisição externa desapareceu, e do balancete consta a saída de um cheque no valor de R$ 350 mil, assinado pelo comandante Lara, e a favor de Gerges Pantazis, proprietário da importadora Pawer Brands. Como nada aconteceu no episódio Jony Rodrigues e nem no da agressão dos milicos a três delegados, é possível que nada ocorra.
FOLCLORE Esse caso das fardas na PM poderia ser musicado com a obra de Noel Rosa ‘‘com que roupa,// com que roupa que eu vou// pro desfile que você me convidou.’’ O governo é uma opereta: custa caro, mas diverte.
CROMO A perereca em meio ao verde do jardim é descoberta pelo daltônico.

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