Luiz Geraldo Mazza
Uma imagem vale mais do que um milhão de discursos. Quando o brasileiro viu na Rede Globo a filmagem das violências de Diadema, criou-se uma comoção nacional e o terror oficial, que se acreditava banido, se revelou de corpo inteiro. Essa nódoa vai perseguir, entre outros, o governador Mário Covas, que apenas mostrou perplexidade diante do episódio.
Qual a imagem que os sem-terra cultuavam? Antes de tudo, a da pobreza visível na forma como se apresentam e vivendo em acampamentos sob lona preta. Enfim, a imagem do sofrimento, da exclusão, o que encontra no melodramatismo nacional, tonalidade afetiva irremovível de nossa cultura e maneira de ser, o fundamento maior da identificação e da empatia pela causa.
Além de tudo, o maniqueísmo da luta entre rico e pobre, redução falsa, mas que pega facilmente, ainda que de certa forma desmoralizada pelo uso, santificava o homem sem-terra e fazia do fazendeiro que defendia a sua propriedade uma representação do demônio. Pois agora os acontecimentos do Paraná colocam mal os sem-terra, outra vez pelo uso da violência e das armas.
Antes foi na tragédia de Campo Bonito, onde os sem-terra, descumprindo acordo com o governo Requião, que mediara a disputa na Fazenda Santana, acabaram, de certa forma, linchando três PMs descaracterizados. Assim, pois, ficou visível, desde aquela ocasião, que os sem-terra não são sem armas. Agora, com as imagens da televisão, no caso das ocorrências de Tamarana, ficou também nítido que o pacifismo não é uma regra de ouro do movimento, como se tentou mostrar na concentração de Brasília.
O fato de a luta dos sem-terra contar com apoio da opinião pública e que se comove com os mártires dessa causa, como se viu tanto em Corumbiara, como em Eldorado de Carajás e também em Pinhal Ralo, no Paraná, não assegura aquilo que a Igreja chama de indulgências plenárias aos seus integrantes na hipótese da prática de violências como se, por serem uma expressão dos destituídos, tivessem o direito não apenas de invadir, mas também de matar. Ora, a legislação assegura exatamente o contrário ao dono da terra que diante da iminência do esbulho e na prática do desforço incontinenti pode, aí sim, atirar contra o invasor. Velharia da legislação não derrogada.
Parece incrível que isso ocorra depois de ter havido a celebração de trégua para encerrar o clima de beligerância entre fazendeiros e sem-terra com a dispensa, inclusive, dos seguranças que haviam contratado. O pior é o papelão do governo, que se mostra inerme para fazer o gênero politicamente correto, e do secretário de Segurança, o maior tradutor dessa perplexidade por método, ainda que no caso de Tamarana haja decisão da Justiça determinando a desocupação do imóvel. Dentro em pouco teremos o pipocar de pedidos de intervenção federal no Paraná por descumprimento de decisões judiciais, como se deu com a Fazenda Can Can, no governo Requião. Com um detalhe adicional: o proprietário vai ganhar na Justiça o direito de indenização pelas benfeitorias roubadas, consumidas ou destruídas, e quem pagará por isso será, como sempre, o contribuinte. Jamais se viu o caso de responsabilização do governante. Essa, uma garantia institucional para todos que fazem do seu proselitismo um exercício teatral: a impunidade.
BIZARRICE Um erro de digitação na coluna de domingo dá ao professor auxiliar da UEL ao invés dos R$ 590,45 por 40 horas nada menos de R$ 5.900,45. Lembra a música popular brasileira, carnavalesca, do Está faltando um zero no meu ordenado. No caso dois zeros. Era assim: Trabalho como um louco// e ganho muito pouco// por isso vivo sempre atrapalhado// fazendo faxina// comendo no China// Está faltando um zero no meu ordenado.//
SPRAY Um complicador no plano de reeleição de Lerner e FHC: o STF pode exigir a desimcompatibilização. Isso seria um trauma no Paraná. - A bronca é grande contra secretários de Estado que invadem áreas de parlamentares estaduais e federais: entre os mais apontados estão os da Saúde e da Segurança. - Hoje tomam posse os catorze juízes substitutos, às 17 horas no salão nobre do TJ. - Congresso Internacional de Direito Comunitário e do Mercosul, de Foz do Iguaçu, aprovou, à unanimidade, proposta do presidente da Associação dos Magistrados do Paraná, Guilherme Luiz Gomes, de condenação ao presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, nas críticas ao STF. - Arremate de discurso de Sepúlveda Pertence no conclave de Foz: Há 20 anos, Cone Sul figurava a comunidade do terror, do medo. Hoje Cone Sul, vejo isso aqui, é a comunidade da esperança. - O presidente da URBS tem a mesma ingenuidade dos militares de 64: acredita que se enfrenta problemas escondendo notícias. É que voltou a minimizar os números do vandalismo de torcedores com ônibus e bens públicos de um modo geral. Imagens da TV Canal 4 o desmentiram de forma rude. A URBS acredita que leva à urbanidade mentindo. - Empresário Erondi Silvério atribui a Rafael Greca a quebra das empresas do sistema de transporte urbano de Curitiba. Ele disse isso na TV Exclusiva e o repetiu na rádio CBN.
FOLCLORE Ao tomarem conhecimento da gracinha de Belinati com frase latina para gozar a presença do governo Lerner no interior, alguém do terceiro andar do Palácio Iguaçu deu a resposta: Quosque tandem, Belinati, abuttere patientia nostra? Até quando, Belinati, abusarás da nossa paciência? Se copiassem o Cícero Catani vá lá, mas o Cícero clássico já é demais.





