Luiz Geraldo Mazza
Anistia, memória, vivência
Jean Paul Sartre, numa das suas reflexões, suscitou o papel desempenhado pelos franceses durante a ocupação alemã, na Segunda Guerra, como quem cobra o conjunto da sociedade pela omissão diante de governos fantoches como os de Pétain e Laval. Fez a inquirição no sentido de quem poderia olhar-se ao espelho por sua atuação. Igual cobrança poderia ser feita no Brasil, não apenas quanto ao sentido da resistência e também dessa passividade diante da violência de Estado que é, aliás, uma tradição brasileira, sempre acobertada por juristas de plantão, como Francisco Campos no Estado Novo, e outros como Alfredo Buzaid no regime militar mais recente.
A tradição brasileira é o autoritarismo, parta do governo, do empresariado urbano ou rural, da classe política e até dos sindicatos, inclusive os dos trabalhadores. Liberdade e participação ocorrem nas esteadas democráticas, minoritárias no tempo, na história nacional. O governo é olhado pelo povo como uma extensão do pai, visão mantida pelos simples na sociedade rural diante dos seus patriarcas, tal eram vistos os patrões como suas concessões, como a orelha de jegue, que tornava o parceiro agrícola num devedor permanente do armazém da fazenda, ou o cambão, o trabalho de graça, herança visceral da escravatura. Ou ainda algo caricato como o direito de pernada, adaptação à brasileira do jus primae nocte, o direito que o Senhor tinha de dormir a primeira noite com a sua agregada que casasse.
Obviamente, isso tudo é reminiscência histórica, arqueológica, de antanho e nada tem a ver com os dias de hoje. Só que ainda temos trabalho escravo naquele exato conceito que Galbraith atribuiu à origem condigna do poder e que significava exatamente a subordinação a outrem pelo trabalho. A segunda forma de poder, já evoluída, era o compensatório, traduzido no salário ou na troca e a última o poder condicionado, o da sociedade de consumo, das religiões, das ideologias, sofisticadíssimo.
No momento em que comemoramos a Anistia, percebemos o quão abstratos são, na realidade, os direitos cívicos essenciais (liberdade, igualdade, emprego, moradia, direito a aspirar felicidade, educação, saúde) e vemos ainda, nessa convocação oposicionista de Brasília para forçar o presidente à renúncia, uma terrível demonstração do pior dos obscurantismos o de não respeitar as regras do jogo democrático.
BIZARRICE
Para o bebum que vira xarope ao primeiro gole há o apelido de Miojo, porque está cozido em dois minutos
AXIOMA Se Anistia é, sobretudo, esquecimento, Lerner é o campeão. Esquece de tudo com a maior facilidade. Vide o ocorrido no Banestado (Leasing e Corretora), nas finanças públicas, do terço de férias dos professores, dos débitos com empreiteiras e prestadores de serviços, das promessas eleitorais.
GLOSA Ao pedir financiamento// no banco foi rejeitado//por amplo desprovimento:// era calvo e desdentado. Quadrinha do Jota Carlos ante uma blague que fiz sobre o calote ruralista, ao lembrar que a maioria dos brasileiros de bens de raiz às vezes têm apenas os dentes e os cabelos.
EPIGRAMA Feliz é o país onde o homem honesto pode falar tão alto quanto o canalha. Frase atribuída a Palmerston, livro das citações, página 207, abre a denúncia do PSDB ao Ministério Público Federal de Londrina em cima do caso Sercomtel-Copel-Banco FonteCindam. A frase original é melhor e atribuída a Disraeli sobre um dos fatores de progresso da Grã-Bretanha porque ali era preciso que os homens de bem tivessem a mesma audácia dos canalhas!
ELITES Não espanta que na listagem dos 100 maiores devedores rurais apareçam alguns paranaenses, entre cooperativas e empresas comuns. Dentre aquelas, a Cocamar, sabidamente em dificuldades há muito tempo, com o quinto lugar no ranking. E dentre essas, as comuns, a Usina Santa Terezinha, décima colocada, pertencente a Ágide Meneghetti, presidente da Federação da Agricultura, volta e meia reverberando contra isso e mais aquilo. Dirigentes classistas deveriam ter um distanciamento mínimo na hora de chiar. Se o presidente FHC anunciasse uma ação em massa contra os sem-terra, a Faep iria adorar. Não é crime ter dívidas, mas a soberba não deveria acompanhar os inadimplentes. Sem-terra é dívida (social) também.
ANALOGIA Jaime Lerner já foi chamado de anti-Midas pelo fato de transformar ouro em coisa quando aquele rei transmudava coisa em ouro. Mas agora, com a insistência em querer receber antecipações de receita e de royalties, já está lembrando, por uma via oblíqua, o Juscelino Kubitschek de Oliveira, que afinal fez o Brasil crescer cinquenta anos em cinco, enquanto o ocupante do Palácio Iguaçu atua em direção oposta: o Paraná corre o risco de comprometer cinquenta anos em menos de cinco. Há trinta e nove anos o funcionalismo estadual recebia o pagamento no dia 30 e hoje tudo atrasa.
FOLCLORE Cada vez que o governo se dispõe a acertar o seu caixa e ir em cima dos inadimplentes de empréstimos bancários, como se dá agora com ruralistas, e dos sonegadores, pinta um clima pedindo, no mínimo, a derrubada do presidente. É por essas e por outras que se reproduz aquele conceito de que a história se repete e que deu margem àquela discussão entre Hegel e Marx em que este frisou que a história se dá primeiro como tragédia e depois como farsa. Essa crença no mito da história repetida levou o versejador de quadras, Jota Carlos, ao seguinte: Não renunciando em agosto// pela comédia que lembro// pode FH por desgosto// criar polaca em novembro.// Quem criou a polaca, Magna Carta de traço corporativo, foi Getúlio Vargas, e hoje as Medidas Provisórias, de certa forma, lembram uma polaca em fascículos.
CROMO Disputei uma uva em sua boca, mas quem a polinizou com tanto mel?
AFORÍSTICO Ausência de bandeiras do PMDB o leva a essa cruzada contra multas, repudiada pela maioria da população. Com isso vai para a quarta derrota.





