Luiz Geraldo Mazza
Os tipos populares
Com a morte recente da Maria do Cavaquinho, que estava sob cuidados de irmãs de caridade na Lapa, e anteriormente a do Alvino Cruz Guimarães, o Esmaga, Curitiba fica mais pobre, sob o ponto de vista da humanidade. Maria era baixinha e mongolóide, com um rosto curtido como de esquimó, e viveu os seus momentos de maior intensidade quando a capital era dominantemente uma cidade universitária, anos 40, 50 e 60, tal o predomínio na vida social e cultural do estudante, boa parte deles de fora e que aqui contribuíram para quebrar a rigidez de bloqueios da tradição hostil ao adventício. Apoiada pelos irreverentes acadêmicos, ela encenava atos de resistência pacífica que consistiam, por exemplo, no bloqueio ao trânsito na Rua XV, aquele tempo com os dois sentidos e área aberta ao footing permanente.
Uma de suas artes, estimulada pelos populares, era a de apertar as partes baixas dos homens. Ela os apanhava por trás como quem vai fazer o selim de uma bicicleta, já que as vítimas ficavam suspensas no espaço. Democraticamente, pegava gente de todas as classes, mas de preferência a elite como juristas, desembargadores, autoridades. Era sagrada para a multidão, ai de quem quisesse contê-la ou reprimi-la.
Com uma viola de uma corda só ou um guarda-chuva, ela diluía a circunspecção dos metidos a sóbrios e nivelava a todos, isonomicamente, nas provocações. Já o Esmaga ia muito além disso e até andou sendo agredido pelos abusos, mas não deixava de derrubar figurões como fez com um senador, que rompera com o governo que o ajudará a eleger-se: Senador, que papelão, hein? Deu uma de porco. Comeu e virou o cocho!
No golpe de 64, os milicos davam um jeito de escondê-lo para evitar situações de constrangimento, como a de provocar uma figura séria e fechada como Castelo Branco e Geisel e um metido a esportivo como Médici, em viagens ao Paraná.
Fazem falta. Como o Bataclan, negro atleta que corria pelado no frio das geadas, pregando civismo, querendo levar terra de cada cidade para Pistóia, o cemitério dos Pracinhas brasileiros na Itália; como a Maria Desenhista ou Indira Ghandi, que andava de branco e desenhava, ou ainda a Mulher de Plástico, que fazia suas roupas com rejeitos de embalagens, ou ainda a Gilda, travesti, que esclarecia não ser um colonizado, já que era Gilda de Abreu, a mulher de Vicente Celestino, cantora e escritora, e não a Gilda de Rita Hayworth.
OUVERTURE
Como o pescador que olha o mar e adivinha cardumes, Esmaga olhava o jeitão das pessoas, se havia ou não crise, e invariavelmente ao contemplar os que seriam mordidos, dizia: Como está bonito o meu pomar. E lá se ia a tomar a grana de um em um, como se tirasse frutas das árvores
BÓRIS BACANA Nos tempos áureos da vida universitária, era comum os estudantes mais destacados ganharem dimensão específica na galeria de tipos populares. O maior deles do fim dos anos 40 (em 48 tivemos aqui a Olimpíada Nacional dos Universitários que trouxe para nós, entre outros, o Tocafundo) foi, sem qualquer dúvida, o Elieser Batista, um dos maiores executivos em complexos siderúrgicos, genuíno consolidador da Vale do Rio Doce.
Fazia-se passar em Curitiba como um nobre russo, daí o Bóris. Já o Bacana, que acompanhava o apelido, vinha de sua elegância: ternos impecáveis, um cravo vermelho sempre na lapela, fazendo ponto no Café Para Todos, esquina da Rua XV com a Travessa Oliveira Belo. Metia-se, de vez em quando, em brigas, mas o seu folclore trazia, entre os seus feitos, o de fazer halterofilismo com material de estrada de ferro. Dormentes, dizem.
Na esquina do Para Todos havia o comunista Castelucci, que arrastava multidões com seus discursos apaixonados, e também quando ali se encontrava o Bóris, o seu indispensável companheiro o Perinha (ele usava aquele fino aglomerado de pêlo entre os lábios e o queixo), que se vangloriava de usar muito perfume e menos água, outra folclórica. O pessoal mais da pesada, mais ousado e que diluía a rigidez e a timidez do curitibano, era a turma da Engenharia, que sofria nas mãos dos mestres Del Claro, Parigot de Souza e depois o Barsotti.
PROPAGANDISTAS De 40 a 60, quando ainda se admitia pregões e o mais bonito era o canto coral das colonas de Santa Felicidade (olha o pepino, o tomate, o pimentão, uia baio! e lá vinha o chicote para encerrar o apelo de vozes tremidas ritmado pelo ranger do carroção no paralelepípedo), que traziam hortifrutigranjeiros para suas clientelas no centro urbano. Dos propagandistas, havia o Baiano, elegantíssimo, dando seu recado na calçada, ou o Sacarrolhas, anunciando produtos ou espetáculos culturais.
Um dia, no prédio velho da Universidade, aula de Medicina, uma colona põe a cabeça para dentro da sala e pergunta se alguém quer comprar uma galinha.
Aos poucos vão desaparecendo os pregões o jornaleiro que anunciava a segunda edição do Diário da Tarde e cantava a manchete, o último deles, vivo até hoje, o da vendedora de bilhetes com o grito dramático olha a cobra! á e um dos derradeiros foi o amolador de facas, um espanhol, que encostando o metal na pedra de afiar, tirava um som melancólico e produzia o fundo para ele próprio entoar Violetas de Espanha.
IRMANDADE Ah! Essa doce irmandade dos tipos populares que falta faz no mundo moderno! Maria Marcha Lenta, com sua gravidez crônica e simulada, a colher, sem as habilidades do Esmaga e do Pelezinho (com seu uniforme gaúcho), os tostões de sua alegria; a Indira Ghandi Maria Desenhista que se irritava de repente e se transformava em ameaça; a Maria Patrioteira, que vendia bilhetes com as cores nacionais, herança do verde-amarelismo do Estado Novo de Vargas: os Dois Mudinhos que eram protegidos de todos, e o Pinocchio, com seu nariz comprido, transistor no ouvido, e que lavava cadáveres na Santa Casa. Em que ponto mágico se ocultam com suas artes e manhas, fazendo da calçada um set de filmagem ou de esquete teatral? Londrina (o Dinho da Cerveja), Maringá (o Risada), Paranaguá (o Garrafa Nágua, que girava quando andava como se desse razão ao apelido), em toda a parte há desses anjos e demônios.





