O clamor das ruas
Se Brasília se transformar numa espécie de Praça da Paz Celestial, diante das seguidas manifestações de massa, um dos fundamentos da interiorização da capital irá por água abaixo: o de que a condicionante geográfica a tornaria menos vulnerável do que o Rio de Janeiro, porque aí um agito por causa do aumento do açúcar ou do transporte ameaçaria derrubar o governo. O número de participantes da marcha anunciada para a semana que vem – ‘‘A Marcha dos 100 mil’’ – lembra em tudo, ao menos na referência estatística, a passeata por causa do assassínio do estudante Edson Luís no Calabouço. O agito que derrubou Collor era de caráter nacional e desencadeado em todos os centros urbanos, isso sem falar que altamente potencializado pela televisão e a mídia em geral.
Foi com mobilizações gigantescas que se deu o golpe de 64 com as marchas ‘‘Com Deus pela Família e a Liberdade’’, que ocorriam em todo o País, animadas por pregadores norte-americanos e parte da frota naval. O esgarçamento do fio institucional estava bem mais acelerado do que o que se dá neste momento, que está longe de comparar-se com as ‘‘Diretas-jᒒ e que não tiveram força para levar o Parlamento a aprovar a Emenda Dante de Oliveira.
Pior desafio para o governo federal é o do parcelamento das dívidas dos crônicos exploradores do Tesouro. É que os ruralistas, exaltados, de certa forma, são também da base aliada, hoje aos abraços com golpistas da esquerda que acham que chegou a hora das barricadas. Ao anunciar o veto e ao mesmo tempo condenar a absolvição dos oficiais do massacre de Eldorado de Carajás, o presidente FHC se revela em plena ofensiva para recuperar perdas em suas taxas descendentes de credibilidade.
Excesso de liberdade – e é isso que está acontecendo, já que a anomia vigente impede que se tenha referenciais institucionais e limites ao agir político – também derruba governos. Em 64, a democracia se desfigurava em democratismo e deu no que deu, mas as forças armadas estavam solapadas. O movimento de agora está parecido com a derrubada de Gorbachov na URSS, que gerou um herói de opereta, desgastado, como Yeltsin, mas até agora deitando e rolando. Não dá ainda para apostar no caos: a alta do dólar está para mostrar que ao lado dos pescadores de águas turvas da política há os corsários do mercado financeiro.



BIZARRICE
Rubinho Ferreira, hoteleiro nas horas vagas, liga de Guaratuba para contar que o relógio da Praia Central, da Coca-Cola, teria sido desligado por falta de pagamento da conta de luz

AXIOMA Se com os sem-terra, acampados no Centro Cívico, o governador nada faz, dá para imaginar como agiria se fosse presidente e encarasse os ruralistas e na sequência a passeata dos 100 mil lá em Brasília. Não haveria o risco de morrer, porque ele disse que preferia isso a privatizar a Copel, e pelo jeito vai deixar mais essa dívida aos paranaenses.
GLOSA O homem das quadrinhas, Jota Carlos, ao saber da declaração do senador Álvaro Dias de ‘‘independência’’ em relação a FHC tascou mais uma: ‘‘Na derrota que se avista// perde tudo o Éfe Agá// foge até o oportunista// enviado de Quatá//’’
100 MIL Vernon Walthers, o homem da CIA na Guerra Fria, costuma dizer a oficiais brasileiros (com eles se relacionou no front europeu na Segunda Guerra Mundial), que estava no meio da passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro.
SPRAY Coluna de circulação nacional do ex-porta-voz de Collor, Cláudio Humberto, está mandando uma brasa terrível contra o ministro Rafael Greca, acusando tráfico de influência e suborno nas concessões de bingos e máquinas eletrônicas de jogos no Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (Indesp). - Se há coisas que mereceriam rigor na regulamentação, são bingos que podem constituir-se em núcleos de lavagem de dólares. Já máquinas como a tal do pôquer eletrônico seriam só admissíveis quando o Brasil liberasse o jogo porque se trata de um ‘‘cassino sintético e telemático’’. - De repente vai haver gente da terra dando informação contra o ministro, conforme a tradição autofágica da praça. Estranha-se apenas, pela gravidade das denúncias, não ter havido, desde anteontem, o desforço incontinenti da resposta. - Já há até a formalização de denúncias no Ministério Público. - O cuidado nas denúncias não anula a necessidade rápida da resposta: não custa lembrar do ministro Alceni Guerra, da Saúde, alvo de campanha sórdida, e cuja família sofreu muito, quando as acusações eram totalmente infundadas. - Em Curitiba, por exemplo, a Loja do Pedro foi estigmatizada por causa dos desdobramentos. - Muda, de forma radical, o comportamento familiar com a liberalidade da moda: semana passada, numa suíte de motel, uma família e convidados comemoraram os 50 anos de uma senhora e que depois do auê ficou a sós – enfim sós! – com o maridaço. - Morrem os últimos tipos populares de Curitiba: Maria do Cavaquinho, que estava na Lapa aos cuidados de religiosas, seguiu a ‘‘viagem’’ do Esmaga (amanhã falo mais sobre os dois). - Aliás, o Rafael Greca abriu uma clareira para que alguém desse continuidade ao seu trabalho, quando no comando da Casa Romário Martins, editando um pequeno livro sobre as figuras populares, entre as quais a Maria Sete Bundas. - Com o calote, governo levou à demissão de 18% da massa de trabalho das empreiteiras, isso de outubro de 98 a fevereiro deste ano. - Ontem, em segredo de justiça, duas questões delicadas de magistrados sob processo, examinadas no Órgão Especial do Tribunal de Justiça.
FOLCLORE Maria do Cavaquinho e Esmaga vão ficar frustrados: como foram para o céu, segundo a versão da Boca Maldita, não poderão mexer com políticos que ficam no andar de baixo. Bem de baixo.
CROMO ‘‘Morta,// sobrevoei a cidade// e até entrei na faculdade.// Não adiantou// Nada!// Ninguém lembrava// mais de mim...//’’ Adalice Araujo.
AFORÍSTICO Responda depressa: quem quebrou o Estado? Aquele que finge que nada tem a ver com isso é quase sempre o culpado.

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