Cicatrização, urgente

Primeiro foi a decisão impensada do governador em atender uma pretensão do deputado Aníbal Khury na destituição do coronel Honório Bortolini do Comando do Policiamento da Capital. Em seguida, a hesitação da hierarquia militar na administração do evento e o manifesto duro das três entidades ligadas ao segmento e presididas por oficiais da reserva. Houve extrapolação geral de todos os lados: tanto do Aníbal, na rapidez com que pretendia impor decisão que não lhe cabia; do governador Jaime Lerner, em cima de uma viagem baixar o ato em função das pressões recebidas (ainda que se alegue que não se tratava de indicação sua); e dos oficiais, pela linguagem excessivamente candente do manifesto.
Criado o problema, urge depurá-lo com a maior rapidez e habilidade possível. Se há razões - e de sobra - para a defesa do coronel Honório é preciso evitar constrangimento também para o seu substituto, coronel Sérgio Tippa, como se fosse uma espécie de Barrabás, aquele que tomou o lugar do crucificado.
Despolitizar a Polícia Militar é uma necessidade porque ela deve tão somente, além da lealdade ao governo, a obediência às suas normas deontológicas e às de caráter operacional. A PM foi disciplinada em aceitar a solução dada pelo governo de suas demandas salariais em 13 parcelas, equiparando postos e graduações aos correspondentes à Polícia Civil, equiparando-se o coronel com o delegado de 1ª classe, o soldado de 1ª classe com o investigador de 5ª classe e assim por diante. Com a queda do redutor, já decidida na Justiça em favor dos procuradores e dos delegados, haverá um novo ajuste.
Mas se há a lamentar os termos duros da manifestação - ‘‘extrema insensibilidade e particular inabilidade’’ e fica clara ‘‘a submissão do governador aos interesses político-eleitoreiros de correligionário, sobreposto aos interesses maiores da sociedade’’ - e a ausência de firmeza na mediação do assunto, por parte do comandante da PM e da Casa Militar, não se pode deixar de reconhecer que o governo pisou na bola.
Reconhecida a partilha de erros, resta que haja agora mais gente disposta a unir do que a lançar gasolina na fogueira. Cicatrizar as feridas, o quanto antes, é o caminho da lucidez, ainda mais quando há compensação de culpas.
BIZARRICE - No meio do quebra-pau do concurso de Miss Paraná, um sujeito com sotaque parecido com o do Geremias Berdinazzi fez o trocadilho incrível para um momento de tanta tensão e bolachada: ‘‘Il signore Tramontini ha perdutto la tramontana’’. Tramontini, pai da Miss de Francisco Beltrão, foi o maior ativista da resistência contra os jurados. A Miss Brasil atual, Maria Joana, é de Francisco Beltrão. Pelo jeito, queriam o bi.
AXIOMA - ‘‘Finalmente, denunciamos ao povo do Paraná que a submissão irrestrita aos interesses político-eleitoreiros, na maior parte das vezes, desatende aos critérios de racionalidade administrativa, quebra a autonomia relativa dos gestores dos recursos públicos e enfraquece o exercício da autoridade. Primados estes que, se não estiverem presentes nas decisões, retiram dos profissionais de segurança pública as condições mínimas de trabalho e a tranquilidade necessária ao exercício da atividade com dignidade.’’
Esses são os ‘finalmente’, como dizia o coronel Paraguaçu, do manifesto de oficiais da PM. Achar que tira isso de letra ou que não tem importância é virar avestruz.
Os ‘considerando’ todos sabem a origem: se o estrilo de um deputado-repórter, encampado por Aníbal Khury, é suficiente para mudar um comando, vamos muito mal.
GLOSA - Frase do juiz aposentado, ex-oficial PM e advogado anarquista Elísio Marques sobre o episódio: ‘‘Em briga de infantes, cavalariano não se mete’’.
Elísio é oficial da reserva não remunerada da arma da cavalaria.
SPRAY - Por falar em Polícia Militar, há um problema no Comando da Capital relativo à terceirização de serviços, alvo de denúncia. - Percebe-se na crise militar a existência de núcleos de liderança mais ousados em disputa por espaços. - Alguns oficiais da reserva reclamam o fato de não terem sido consultados para o manifesto que afinal abrange as três entidades. - No 1º Congresso de Magistrados do Mercosul, em Florianópolis, semana passada, a delegação do Paraná, liderada pelo juiz Guilherme Gomes, presidente da AMP, fez aprovar a sediação do segundo conclave em Foz do Iguaçu, outro de 97. - Na solenidade de abertura, compuseram a mesa entre outros o presidente da Corte Suprema da Argentina e os presidentes do tribunais de Justiça do Tocantins e do Amapá. - Um dos maiores feitos do governo atual na Polícia Militar foi a ampliação do seu efetivo, primeiro com o retorno daqueles que faziam policiamento patrimonial (1.600 homens) e de mais 2.293 incorporados. - Advogados do PSDB não se limitam a cassar mandato de Requião. Querem fazê-lo também com Cássio Taniguchi, Rafael Greca e Jaime Lerner. Um dos alvos é a prestação de contas de Taniguchi, que não previu reserva para segundo turno e não incluiu entre as despesas o que foi gasto com ‘‘paliteiros’’.
FOLCLORE - Margarita Sansone publicou em sua coluna que Jane Seymour, uma das muitas mulheres de Henrique VIII, rei da Inglaterra, tinha sido decapitada. Um leitor corrigiu: a cabeça cortada foi a de apenas uma, Ana Bolena, acusada de adultério com o próprio irmão. Havia, de fato, perdido a cabeça antes de ser executada.
CROMO - O caracol percorre, obstinado, o jardim e deixa o seu visgo na passagem, as antenas eretas marcam seu senso de direção. Quando mudar de canteiro, a reforma agrária sai. Se não na realidade, pelo menos na televisão.

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