Alavancagem oportuna
Provocado pela decisão da Câmara Federal de admitir urgência para votação do substitutivo que assegura o calote na dívida dos ruralistas – e isso por uma diferença massacrante de 410 a favor, 11 contra e três abstenções – Fernando Henrique Cardoso se transfigurou em estadista ao anunciar que vetaria tal decisão por ser incompatível com o momento brasileiro; 50% dos bilhões devidos são de apenas de 1% dos devedores, mas estes, habilidosos, colocam exemplos dos mais pobres para valer-se da situação e dar-lhe relevância social.
Não espanta nesse episódio o destaque dessa figura retrógrada, Ronaldo Caiado, que quer fazer gol e embaixadas na área parlamentar, com a ligeireza do xará do Milan e a astúcia e molecagem do outro, o mais novo, do Grêmio. Há espíritos conspiratórios que enxergam em tudo que está ocorrendo em Brasília um jogo de cena para beneficiar FHC e retirá-lo do Ibope negativo em que se encontra em termos de credibilidade.
Mesmo que fosse uma simulação, valeria a pena porque se surpreenderiam os demagogos (inclusive essas figuras ridículas da esquerda brasileira que se abraçam a um direitista como Caiado, acreditando que esse é o empurrãozinho que falta para o golpe desejado da renúncia do presidente ou a declarada situação de ingovernabilidade), com a reação do povo, fato que constato diariamente na Rádio CBN em nossas consultas aos ouvintes, em favor da austeridade e contra as concessões obtidas à base da pressão. Os maliciosos não percebem que o povo está evoluindo nessa questão cívica e já não se alinha automaticamente aos que aparentam bajulá-lo ou assistí-lo.
Infelizmente, o populismo penetrou fundo nas nossas instituições, por tradição permeáveis à visão do assistencialismo – advinda do patriarcado rural e que se consolidaria no patrimonialismo e na exaltação de líderes demagogos e quase sempre messiânicos – e a remoção desses sedimentos só se obterá com muita e frequente prática democrática.



AXIOMA
‘‘Pois é, apesar da grita ruralista e das esquerdas, não caiu o Malan e sim o Bassan!’’. Elísio Marques ataca de novo

REELEIÇÃO Com apoio de 32 outros senadores, Requião propôs ontem emenda constitucional extinguindo a reeleição do presidente, governadores e prefeitos. Na justificativa, ele sugere que ‘‘muitos Estados tiveram suas finanças arruinadas e seu patrimônio público dilapidado para garantir a reeleição do governador em exercício’’. O foco da emenda, apesar de sua abrangência, é o Paraná e Curitiba, onde o seu partido tem tudo para sofrer a quarta derrota.
BIZARRICE Lembrávamos na Boca Maldita do arquiteto Sola, de Cambé, falecido há pouco tempo. Contava o seu colega Sérgio Todeschini Alves, que o Sola andava intrigado com um projeto de um poste em praça pública, Norte do Paraná, em especial para crianças. O Sola achava muito alto e impossível de ser escalado e apontava para um exemplo: ‘‘Qual guri’’ – dizia ele – ‘‘subiria no poste desta praça?’’ O Tozinho (Italo Conti Júnior), que estava no grupo, pediu uma cinta e, usando-a como apoio nos pés, com ela subiu no poste, como se fosse um baiano atrás dos cocos.
GLOSA Ao ver na televisão o primeiro gol do Mengo contra os Coxas, Arthurzinho - Teophilo de Castro observou: ‘‘Barreira de quatro não se faz nem na pelada do Burghel.’’ As duas peladas mais famosas de Curitiba são a do Kaminski e a do Burghel, a primeira no Colégio Militar, a segunda na Estrada do Encanamento.
PROVÉRBIO Segundo um áulico de Alvaro Dias, a maior preocupação de FHC, neste momento, não é nem a pressão ruralista, muito menos a passeata do dia 26, mas, única e exclusivamente, a declaração de rompimento do PSDB do Paraná.
Isso aí é uma leve ironia. No Paraná é preciso esclarecer essas coisas porque senão os alvaristas levam tudo ao pé da letra, acreditando que uma deserção como essa é um ato de caráter e não de rematado oportunismo.
UVAS VERDES A fábula da raposa e das uvas, em que ela tenta alcançar os cachos e não o conseguindo justifica que estão verdes, se repete: um cidadão olhava a última ‘‘Playboy’’ em que aparece nua a Deborah Secco, a ‘‘Marina’’ da novela das 8 e observou com sabedoria que a modelo não tem cintura. E não tem mesmo. A curiosidade é saber como, vendo tanta coisa, desvendou o detalhe.
SPRAY Júri é melodrama: não é a primeira vez que declara inocentes aqueles que para a maioria já estavam julgados como culpados. - Em Eldorado do Carajás, a PM foi bárbara, selvagem (um genocídio menor do que o do Carandiru em termos apenas estatísticos), mas a reação dos sem-terra, com a velha ilusão da massa de que tem o corpo fechado porque é justiceira, acuando os milicianos, com pau e pedras e também com tiros, explica a fúria subsequente, embora não sirva para justificá-la. Militares são despreparados para a humilhação que costumam infringir aos outros. Mereciam ser punidos porque se excederam na ‘‘defesa’’. - Se no evento há absolvição, imagine-se o que ocorrerá quando for julgado caso menor do Paraná, o de Campo Bonito, denunciado na OEA pela Pastoral da Terra, em que a PM perdeu três homens e os sem-terra o seu líder, Teixeirinha. - Inepar, pelo segundo ano consecutivo, é classificada como um dos melhores locais de trabalho, sob o ponto de vista da harmonia social, segundo a revista ‘‘Exame’’ de hoje. O esforço associativo é bem próximo da cogestão.
FOLCLORE Gonzaga de Mattos, jornalista, na Internet, diz que os deputados que queriam promover-se com a láurea a Chico Buarque ficaram como Pedro Pedreiro ‘‘esperando, esperando, esperando o sol, esperando o trem, esperando o aumento desde o ano passado para o mês que vem.’’ Justiça poética. O bom seria que ficassem aguardando uma reeleição que não atendesse a maioria esmagadora.
CROMO ‘‘Lá fora// há luz// há som,// há gente.// Aqui, silêncio...// estou eu,// está ninguém.//’’ Adalice Araújo em ‘‘Silêncio’’.
AFORÍSTICO O PMDB está sem bandeira: volta ao buzinaço contra as multas amanhã na Boca Maldita. Chega de intermediários: Aníbal Khury para prefeito. Daí teremos um novo nome pra cidade – Khurytiba. Muito Khury, pouco pinheiro.

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