Luiz Geraldo Mazza
Razões de natureza geopolítica, abrangentes, se sobrepõe às de campanário, aliás frequentes em todo o mosaico federativo, na convocação de Lerner para o PSDB. Não se trata de um desejo pessoal apenas do presidente Fernando Henrique e sim de uma convicção de Estado Maior para o objetivo de médio prazo da reeleição e consolidação do partido: o governador paranaense, como o Ibope o demonstrou, está no mesmo nível de Itamar Franco, Ciro Gomes e Antonio Carlos Magalhães em intenções de voto para presidente. E esses números, Lerner os obtém justamente no extremo sul com fatia dominante, obviamente, no Paraná.
Procedido um levantamento criterioso e com rigor geográfico nos sete maiores colégios eleitorais do país, entre os quais figura o Paraná, desvenda-se que FHC terá dificuldades nos três maiores como São Paulo (Lula, o PT, possível dissidência do PMDB, PPB do Maluf que tentará vencer Covas regionalmente), no Rio de Janeiro (o caráter sensível do eleitor que vai no modismo num quadro de divisão rígida entre aliados como Marcelo Alencar e César Maia e no qual não se pode subestimar a força do populismo e da esquerda festiva) e em Minas Gerais (aí haverá dificuldades para o governador Eduardo Azeredo e em função também da ampla vitória das esquerdas na Grande Belo Horizonte, ainda mais se PT e PSB mais os nanicos se unirem).
É com extremo senso que se cuida dos demais colégios eleitorais para compensar possíveis desgastes, razão pela qual se confere importância à Bahia, onde as coisas parecem fáceis com o predomínio de Antonio Carlos Magalhães, no Rio Grande do Sul (aí o jogo é duro com o PT especialmente na Grande Porto Alegre e também com o PDT, especialmente se Brizola sair para o Senado, e não se pode minimizar a força do PMDB) e o Paraná. Nesse contexto é que o eleitor supra-regional, como a pesquisa Ibope dá a entender quanto a Lerner, surge como fator de correção de desequilíbrios eventuais por sua capacidade, é claro que até aqui hipotética, de contagiar vasos comunicantes.
Esse tipo de abordagem rejeita o passionalismo do entra não entrade tucanos de escassa plumagem como Álvaro Dias e alguns adultos como Hélio Duque de estilo inconformado e brigão como o demonstra com a representação que tocou contra o senador Roberto Requião e que pode cassar-lhe o mandato, como se viu na decisão do TRE em breve a ser examinada pelo TSE. Não bastassem essas razões imperiosas de traço estratégico, e que o próprio presidente FHC e seu brain político acabaram captando, há as de natureza local como o apoio esmagador de deputados estaduais, prefeitos e vereadores, o que confere uma capilaridade extrema a essa vantagem comparativa.
Política, no entanto, especialmente no Brasil, é feita de personalismo, haja vista para o próprio presidente da República como seu estilo imperial quando se queixa da demora vergonhosado Congresso na aprovação das reformas. E aí as vaidades feridas, os ressentimentos, passam a pesar de forma ponderável com o que se libera o espaço às expansões passionais. A ida à Polícia Federal e à justiça, se isso acontecer, apenas acentuarão o esperneio legítimo, mas inútil diante do fato consumado. Repete-se agora o que aconteceu quando Álvaro Dias entrou no partido e lhe conferiu, com seu profissionalismo e pragmatismo, uma fase de crescimento. Naquele instante Richa quase se afastou e trata-se também de nome de primeira linha e especialmente Euclides Scalco, cuja presença em Itaipu, embora não mais integrado ao partido, é expressão clara da amizade e do respeito que lhe devota o presidente FHC, interessado também no retorno de um homem de primeira linha na ação e na doutrina e que voltaria com o ingresso de Lerner no ninho tucano.
A maior instância do PSDB no Paraná é a convenção: a última vez que se reuniu foi para apoiar Lerner, retribuindo, aliás, o que então prefeito de Curitiba fez em favor de Richa e Scalco, levando-lhes o apoio do PDT. Historicamente, pois, não existem entraves sérios e a referência ao fato de que Lerner foi prefeito no regime militar é de um ridículo piramidal como se outros que o acusam estivessem em trincheiras ou com o corpo marcado pela tortura.
BIZARRICE Temas da futura campanha eleitoral: Covas está marcado por Diadema como Álvaro Dias pela repressão aos professores e Requião pelo episódio de Campo Bonito e da morte do líder sem terra Teixeirinha. Mas há os atingidos pela CPI dos precatórios se não terminar em pizza, claro. Suruagi, Arraes, Maluf, Pitta, Paulo Afonso estão na listagem. O desemprego será a alavanca de resistência a FHC e a imagem mais forte de oposição a concentração dos sem terra em Brasília. Segundo os otimistas as coisas ficam por aí. Para os pessimistas o apocalipse virá com os desempregados ocupando fábricas e repartições e os choques inevitáveis com a repressão. Além disso o deficit na balança comercial poderá, a qualquer momento, reprisar a síndrome do México.
PROVÃO Não se saíram mal as universidades do Paraná, incluindo as estaduais, no teste do provão. Mas um professor auxiliar em Londrina ganha R$ 295,22 por 20 horas semanais e R$ 5900,45 por 40 horas. Isso em carreira inicial. Um professor titular, em fim de carreira, recebe R$ 577,78 por 20 horas e R$ 1.155,57 por 40 horas. O Comitê de Cidadania contra a Fome recolhe na UEL contribuições para que funcionários possam se alimentar.





