Luiz Geraldo Mazza
A última bravata
Pagamos um tributo dolorido ao populismo, cultura impregnada em nossas práticas políticas, e um deles está na nostalgia do passado, sebastianismo visível nessa badalação pela volta de Collor. Mas outro que quer voltar é o vice, o Itamar Franco, que ameaça desviar curso de rio para inviabilizar a privatização de Furnas, algo tão possível como se Lerner, tomado pelo espírito quixotesco, buscasse desviar o Rio Paraná para anular hidrelétricas, quando não consegue cumprir promessa antiga de domesticar o Rio Belém, de Curitiba, desde as suas cabeceiras para despoluí-lo e colocá-lo à disposição dos lambaris.
O ritual das movimentações de tropa a milícia estadual, é claro e dos vôos sobre a bacia hidrográfica de Minas sugere predisposição de luta (de Itamar) que vai além do discurso e que sugere ação militar. Colocando no liquidificador psicossocial referências a Tiradentes, que também era miliciano, à mineiridade (os vultos de ontem e de hoje como Tancredo, JK e até os generais Guedes e Olímpio Mourão Filho, que embasaram a atuação de Magalhães Pinto no golpe de 64) dá para nutrir o imaginário e mexer com esse combustível de terror, o nacionalismo.
Como a figura presidencial está fraca na opinião pública, isso pode dar mais efeitos do que as sublevações de motoqueiros da Aeronáutica no tempo de Juscelino com Jacareacanga e Aragarças, que se frustraram, sobretudo, porque suas bases logísticas eram precários e nenhum tinha apoio popular. JK transmitia euforia à população e proclamações guerrilheiras do gênero eram brochantes.
Mas a sociedade brasileira evoluiu em relação à democracia o suficiente para não alimentar o golpismo larvar, que volta a vicejar com esse estilo Itamar e, mais grave ainda, na pregação do Brizola e dos partidos nanicos para anular uma recente decisão do povo brasileiro relativamente a FHC.
A convocação às mobilizações de rua como passeatas em Brasília, que se sucederão a essa da chantagem ruralista, tenta reproduzir ao desespero o quadro das Diretas-já, traduzido no golpe agora, e procuram restabelecer, como em 1968, na França, o mito das barricadas. Alguns começam a abandonar o barco: Alvaro Dias por oportunismo; Arthur da Távola por motivos ideológicos, estes, sim, respeitáveis.
AXIOMA
Eu não tenho nada pra dizer; também não tenho nada pra fazer... Estribilho do sucesso musical atual do Ultraje a Rigor, adotado como lema pelo desgoverno de FHC e de outros assemelhados
BIZARRICE Coletiva dos basistas ontem no plenarinho da Assembléia: Narciso Pires, que entende como ninguém, de araponguices, pede aos cinegrafistas que se identifiquem. Um deles, declarando-se frila, dá o nome João da Silva e sai correndo do recinto. A maioria aposta que foi em direção ao Palácio Iguaçu. Consta que Lerner estaria contratando o inspetor Clouseau. Quem sabe ele resolva o caso do atentado contra o secretário de Segurança.
GLOSA Adauto de Oliveira, delegado exemplar, recusa-se a que paire sobre a categoria a paz dos cemitérios desejada pelos políticos, e vai falar. O tom necessário, para que não se dissimule, é o do padre Vieira. Não confundí-lo (e isso seria herético) com o chefe da Casa Militar.
PESSOAL Ontem o Rotary Curitiba Leste, de Curitiba, concedeu-me o Troféu Vanderley Dias como jornalista. Em 1998, a honraria coube ao jornalista Francisco Cunha Pereira. Na condição de palestrante, falei sobre a necessidade de não se olhar conceitos como os de globalização e economia de mercado como fundamentalismo, e da diferença entre a base doutrinária que existia sob o governo Richa em torno do modismo da época (tecnologia apropriada e a exaltação da pequena escala) e a de agora, na qual desperdiçamos talento e energia, a despeito da importância da ruptura de dependência econômica diante de São Paulo.
SPRAY Trombadas entre policiais civis e militares são normais ao longo da história das duas corporações. No fim dos anos 50, sob o comando do delegado Paulo Sottomaior Lagos, houve a REDE (Ronda Erradicadora da Delinquência), embrião de unificação civil-militar. - Agora, com a agressão dos PMs aos delegados e mais o provimento da Corregedoria, rigorosamente legal, afloram os conflitos internos e incluisive uma apropriada interpretação de Bassan Júnior sobre a ilegalidade do grampo feito para atingir os sem-terra. - Nesta semana tivemos o Perhappiness Paulo Leminski e na outra haverá o Perhappiness Getúlio Vargas. Vai ser duro suportar o Martinez fazendo discurso emocionado, seja em São Borja ou na Praça Tiradentes. - A propósito de 54 e do suicídio de Vargas, é interessante recordar que é daí em diante que o Paraná começa a ter espaços no ministério, e isso se dava mais pelo prestígio pessoal de Munhoz da Rocha, como ocorreria mais tarde com Ney, e da sua condição de compadre do presidente João Café Filho do que pela força da unidade federada. Como se vê, ao lado da expressão econômica, é indispensável o líder à maneira carlyleana. - A nossa historiadora da arte Adalice Araujo, que escreve um dicionário das artes visuais do Paraná, lança dia 2 de setembro um livro de poemas, Cantos do Desamor, com ilustrações belíssimas de Heliana Grudzien. A mestra Maria Lúcia Victor Barbosa revela sua medida de ficcionista em Contos da Meia Noite. Animador. - Desde anteontem o Emílio Pita, ator paranaense, está aparecendo na novela Suave Veneno. Seu desempenho na base da contenção e da distância estava muito bom.
FOLCLORE O QI do governo Lerner na área de segurança é tão ruim que os serviços de inteligência parecem coisas de patetas. Só falta agora o reportariado entregar caras estranhos em coberturas de incidentes. Aí vai ser a hora de apanhar daqueles que normalmente surram.
CROMO Quem contempla um colibri e vê um morcego é incurável.
AFORÍSTICO Um chato poliglota é, antes de tudo, um chato plural.
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