Consciência crítica da cidade
Apesar da sua rusticidade, o Esmaga (Alvino Cruz Guima rães) tinha, tal vez por intuição, uma espécie de consciência crí tica da Curitiba: irreverente apenas no hábito de ‘‘morder’’ as pessoas na base da agressão, mas tão conservador quanto o time da classe alta. Dias passados, o jornalista José Roberto da Silva lembrou parcialmente uma cena havida entre eu e o Esmaga. O Lerner, com sua ânsia de inovações, trouxe um trio elétrico baiano para tirar nossa gente da hostilidade às expansões carvalescas. Quando a equipagem passava pela Praça Zacarias, ruidosa e contagiante, eu me animei a dançar e, pondo a mão no ombro do Esmaga, dei os primeiros passos. O Alvino, com um duro olhar de censura, fez a indagação: ‘‘Será que fica bem para nós entrar numa dessas?’ Um inibidor clássico, daqueles que ajudam a matar a festa na Capital.
Aliás, dizem que o Abelardo Barbosa, o Chacrinha, em apresentação no Ginásio do Tarumã, tentava mexer com o público com os seus ‘‘roda, roda’’ ou o clamor à ‘‘Teresinha’’. O povão olhava sério para o animador e não estava nem aí.
Consta que o Chacrinha, por trás do pano do palco, olhava, deslumbrado, tentando decifrar a Esfinge representada pela multidão inerte. Há quem diga que o curitibano faz isso por exercício de psicanálise.



AFORISMA
Do Fernadinho Batuqueiro - hoje mais calmo - ex-proprietário do Bar Sem Nome, no Juvevê, que deitava, à maneira do Conde Drácula, num caixão de defunto, a frase genial sobre seu itinerário: ‘‘Todo o mundo carrega a sua cruz. A minha é a Cruz Machado.’’ A Rua Cruz Machado é uma das barras pesadas da vida noturna de malandros, boêmios, caftens, prostitutas, gays de Curitiba

ANARQUISMO Historiadores costumam dividir-se em relação ao fato de ter sido relevante o movimento anarquista em Curitiba. Sete anos antes da Colônia Cecília havia, em 1883, um grupo com afinidades ideológicas anarcosindicais denominado ‘‘nihilistas do Averno’’ bem melhores do que o PC do B, que se acredita ramal do socialismo científico e que apontava a Albânia, um país atrasadíssimo, como farol do Universo
Um agitador internacional do anarquismo, Gigi Damiani, citado até em obra de brazilianist, o Foster Dulles, andou por aqui e numa das escaramuças com a Polícia diante do ‘‘Diário da Tarde’’, o audaz agitador pintou uma bola de bocha como se fosse uma bomba, com pavio e tudo, o que obrigou os milicianos ao recuo.
Na greve de 1917, ano da Revolução Soviética que passou os mencheviques para trás, em Curitiba houve um fato curioso: a Companhia Ervateira Americana, do coronel David Carneiro, o patriarca, pai do historiador e avô do Vivi, mestre e genitor da nossa coleguinha Elisa Marilia, foi dispensada porque seus estatutos eram bem mais avançados do que as metas da ‘‘parede’’, superando, de cara, a questão da jornada de oito horas. Fundamentos da aposentadoria, o que fez do coronel o pioneiro da previdência, lá estavam ao lado de salário móvel, assistência médica e rudimentos da co-gestão.
O urbenauta Eduardo Fenianos, que costuma fazer o flash-back da história de Curitiba pela Rádio CBN, falou dessa greve e mostrou que as reuniões eram na Sociedade Protetora dos Operários (nome assistencial demais para anarquistas), que em tempos recentes se transformou no panteão dos travestis e gays, daqui e de outros pontos do País, no Carnaval.
ÓPERA-RIO 1 Para fugir à vigilância das mulheres, os homens, naqueles tempos machistas, é que predominavam nos bailes do Operário, e a ele se referiam em código como Ópera Rio. Eram comuns com o tempo e a evolução dos costumes as presenças de esposas e de noivas - obviamente de máscaras para não serem identificadas, nos concursos de travestis - e aí ocorriam as situações as mais estapafúrdias. Numa dessas ocasiões, o cara foi com a esposa e lá encontrou o amigo de farra com uma imensa mulata com a qual estava abraçado. A esposa, excitadíssima, queria chegar mais perto e quando o outro a viu, puxou-a pelo braço, dizendo ao espantado amigo: ‘‘Nós sempre dividimos as mulheres, agora é a minha vez de ficar com a melhor.’
Esclarecer a situação foi um pepino. Hoje, com a mulher pós-Globo, ela firmaria o pé só pra dar uma lição no marido, que teria a testa latejando.
ÓPERA-RIO 2 Outra situação constrangedora e coletiva se deu num concurso: um dos travestis, inconformado com a decisão dos jurados que não o listara para as finais, tirou o material que escondia o seu órgão masculino e passou a rodá-lo com movimentos do corpo, como se fosse uma hélice. O tamanho da peça levou muitas mulheres a olharem os respectivos maridos como deficientes, anormais, minimalistas.
MURAL Lá pelos anos 40, era comum os jornais exibirem no mural, à porta de entrada, as matérias da edição. Um dedo humano encontrado no interior de uma linguiça lá estava pendurado num fio à porta do ‘‘Diário da Tarde’’. Outra vez foi uma garrafa de leite, na qual se via nitidamente um peixe barrigudinho nadando de um lado para outro, prova de batismo do produto em água de riacho ou até mesmo de valeta.
Quando o ‘‘Diário do Paranᒒ veio, uma de suas inovações foi a de fazer soar uma sirene anunciando o ‘‘furo’’ e, quem sabe, uma edição extra. Quando caiu o avião com os catarinenses Nereu Ramos, senador, Leoberto Leal, deputado federal, mais o parnanguara Jorge Lacerda, governador, o DP fez várias edições durante mais de dois dias. Ayrton Baptista, secretário de Redação, ficou todo esse tempo no comando da equipe, sem dormir. Éramos assim, não havia cura.
PERFUME Só jornais de prestígio, nos anos 50, tiveram a honra de produzir o primeiro anúncio perfumado da imprensa brasileira. Lembro que o nome do produto era ‘‘Dana’’. Um ritual precedeu a impressão: homens de guardapó, lembrando cientistas atômicos, chegaram ao jornal com a substância que seria misturada à tinta do jornal para o reclame colorido. O odor penetrava a narina de todos e dava dor de cabeça na Redação, nas oficinas e na diretoria administrativa. Pelo jeito, havia fixador demais.

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