Traíras e escorpiões
Repercutiu mal no Palácio Iguaçu a decla ração do sena dor Alvaro Dias de que o seu partido, o PSDB, não no meou sequer um ‘‘boy’’ no governo e com ele não tem qualquer compromisso. Ah! É? E o Spada, da Defesa do Consumidor, o que é? E toda a sua malha (seria produtiva?) de assessores e aspones?
No segundo turno da eleição em Londrina, uma força-tarefa, comandada por Gerson Guelmann, ocupou a cidade, tomou conta dos espaços e elegeu Belinati. Pouco depois de eleito, ele começou a fazer cobranças genéricas sobre as carências do interior e o viés metropolitano da administração, martelando num tema quase sempre nutrido a ressentimentos e com um mínimo de racionalidade.
Foi, por isso, que deram o apelido, meio pesado, de ‘‘Escorpião’’ para Antonio Belinati, que ainda tem a mulher, Dona Emília, na vice e no PTB, e o filho no PSB, partido cada vez inautêntico, enquanto se distancia do modelo original do velho João Mangabeira.
Não estranha, pois, a atitude de Alvaro Dias. Como o acordo eleitoral, espécie de pacto de não-agressão, denominado de ‘‘branco’’ porque se tratava de um acerto em cima de omissões (Alvaro não fala bem de Lerner, este deixa a coisa correr para não atrapalhar a vitória do seu adversário de primeiro mandato para o Senado). Um finge que não tem nada a ver com o outro.
Os governantes, de seu lado, na tradição brasileira, agem como se fossem ficar permanentemente no poder, tal qual César e Hitler, que o imitou. Alvaro deve sua eleição a governador em parte a Richa, a quem não poupou em seu primário marketing de moralismo com investidas sobre os cisnes negros, dados de presente, no Banco del Parana. Requião deve a sua carreira no Executivo a Richa, que o carregou nas costas em 85 e que depois, quando se enfrentaram, foi moído com as certidões de aposentadoria. Isso é o normal da política, arte em que não há lugar para lealdades duradouras e hostilidades incontornáveis.
Assim, pois, o escorpião e a traíra de hoje serão a pomba da paz de amanhã; o ladrão do erário de agora se fará no estadista maior e assim por diante. Dá para percebê-lo quando Requião e Orestes Quércia trocam abraços pelos superiores interesses da nacionalidade, e Lerner dissimula sobriedade ao receber bola preta do PSDB.



BIZARRICE
Informa a Secretaria de Segurança que o Paraná sai na frente na unificação das Polícias. Aqui é um caso de unificção, como seu viu na reportagem da TV Globo, aquela dos PMs malhando delegados, como se esses fossem o cidadão comum que diariamente chamam de ‘‘elemento’’, e ontem, 13 delegados, coincidentemente, pedindo afastamento de cargos

AXIOMA Muita gente não se apercebe do lado positivo que há, neste momento, na baixa taxa de credibilidade de FHC. Ela é reveladora, enquanto assim persistir, de que o povo brasileiro, com isso, supera uma de suas fixações das mais reacionárias: a do homem providencial, como o foram Getúlio, Juscelino, Jânio e tentaram alguns tantos como o Fernando Collor, por exemplo.
GLOSA A secretária da Administração, Maria Elisa, está com um plano rigoroso de austeridade no qual há demissões voluntárias, afastamento temporário com ganho menor. Imaginem o Lerner, com sua notória coragem, assumindo uma proposta dessas!
LAMENTO ‘‘O mundo não acabou porque ainda não recebi minha restituição do Imposto de Renda’’. Elísio Marques, anarquista, contando os seus trocados de juiz aposentado. Outra dele, esta irreverentíssima, mexendo com brocardos jurídicos em latim ao perguntar se ‘‘ad maxima cautelam’’ é o cara praticar o ato solitário com o Joca encamisado e vestindo luvas cirúrgicas.
SPRAY Paraná virou cobaia da União em todos os aspectos: previdência, reforma agrária e agora unificação das Polícias. A sugestão do Ministério da Justiça acabou acolhida pelo governador que a regulou. - Como era de esperar-se, houve reações, mesmo que se trate de medida isolada e experimental, com rumores de demissões de até de 13 delegados. - Nas medidas de implantação (afinal, Curitiba é a usina de lançamentos, como Lerner acredita, ao lado de todos os marqueteiros que são mil no mundo e 980 em nossa cidade, tal qual positivistas, como diz Dalton Trevisan) três coronéis e três delegados, núcleo paritário, se incumbirão do processo. - 350 PMs que foram dar cobertura à Copa América até agora não viram a cor das diárias a que têm direito. Pobre quando vai a Foz só pode ser a serviço, e quando vai ver as Cataratas é porque se dirige ao oculista. - O governador, se fosse interessado em defender a integridade do funcionalismo, faria como Richa que acabou com uma ‘‘penada’’ com os empréstimos a bancos e agiotas diversos autorizados, via descontos em folha, operação garantida para eles e deletéria para os explorados. Uma barbárie, a não ser que baixassem juros pela metade, como Lerner fez com o pedágio. - Caminhões-caçamba, que andavam pela Graciosa, pertencem a um deputado federal e que é proprietário de pedreira. - Agora é que vão chamar o Taniguchi, que está em Fortaleza, de ‘‘Cassioníqueis’’ com o reajuste dos coletivos, a partir de amanhã, para R$ 0,90 centavos.
FOLCLORE Em pleno furor revolucionário, os boatos levavam à paranóia. Dizia-se que alguém fôra visto no SNI e isso já o ‘‘isolava’’. Numa manhã, estávamos eu e o Orlando Carlini falando de pescarias e olhando um desses mapinhas rudes indicando o poço dos lambaris amarelos. Na medida em que interpretávamos os gráficos, notamos que um desses agentes afrontava a lei da gravidade e fazia contorcionismos para ouvir o que falávamos. O humor do Orlando não aguentou: puxou o cara pela gola e o fez desabar.
CROMO Uma rosa vermelha num copo dágua, homenagem a Maria Bueno, que perde, como mito, pelo menos em Ibope, do Lerner e do Boitatá.
AFORÍSTICO Só faltava essa: o João Pedro Stédile na praça para reafirmar que o ‘‘after day’’ é sempre pior. Depois da bonança pode vir mais tempestade.

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