O horror e a normalidade
Como a nossa normalidade já tem cota elevada de horror, na medida em que é banalizada, não espanta o fato de muita gente estar olhando o dia de hoje, uma sexta-feira 13 e, ainda por cima, de agosto, como uma pausa, quebra de inércia. É carga cumulativa para ninguém botar defeito.
Como já passamos o delírio do fim do mundo e das projeções de Nostradamus, enfrentar toda a carga de superstição e de maus augúrios se transforma em algo perfeitamente palatável. Espera-se que não seja um dia igual aos outros, mas bem diferenciado, porque o relevante é fugir da rotina acachapante.
Há algo, por exemplo, mais aterrador como mediocridade, do que avaliar o governo Lerner com sua fuga permanente à realidade, tentando, de forma desesperada, uma elástica, infinita, moratória para os problemas de Estado que ele próprio criou com a sua prodigalidade incontrolável? Isso está presente nessa marca testamentária dos R$ 400 milhões em propaganda, só isso, pelo confronto com o que São Paulo gastou, merecedor de enquadramento no mínimo moral e para efeito de julgamento político.
No momento em que a sociedade se diverte com os exercícios de oposição da sua fragílima base parlamentar, ameaçando até ouvir governantes anteriores, dentre os quais listariam o indesejado senador Roberto Requião, para apurar as causas da hecatombe do primeiro mandato, no qual se sinalizou claramente a quebra de todos os fundamentos do Estado, torna-se espantosa a insistência do governador em ‘‘queimar’’ o futuro em nome do presente, antecipando arrecadação em todos os fronts e fragilizando, patrimonialmente, o Estado para as gestões futuras.
Como o personagem que só pensa ‘‘naquilo’’ o governador e seu secretário da Fazenda, em especial, só cogitam de esvaziar o caixa do amanhã para o prometido esforço de recuperação da hora presente, a morte do futuro para sustentar o presente, respirando por aparelhos, numa UTI.
Uma espécie de tormentosa sexta-feira 13 de agosto parece acompanhar, na verdade, o nosso cotidiano.



AXIOMA
Agosto, mês aziago: suicídio de Getúlio Vargas 45 anos atrás, renúncia de Jânio em 1961, morte (ou seria um atentado?) de JK. Antes até os fatos sombrios eram épicos. Hoje só podemos esperar tédio e náusea. Esta não é aquela que se cura com Engov, mas a existencial, referida por Sartre

BIZARRICE ‘‘Quem mantém os velhos remédios estará exposto às velhas doenças, pois o tempo é inovador.’’ A frase de Francis Bacon fechou a palestra do Roberto Campos, ontem na ADVB. Pois para a encardida esquerda, quem não se renova é o conferencista, já que ela se agarra no nacionalismo, ao mesmo tempo uma velha doença e um velho remédio, e ele no capitalismo radical, também velhíssimo em sua perversidade intrínseca.
GLOSA Mais uma do anarquista Elísio Marques: ‘‘Vamos por zonas, como os cafetões. No Pinheirão são praticados preços da ‘‘Casa da Uda’’; no Alto da Glória, da antiga ‘‘Casa de Campo’’, no Parolin; e na Arena, da Baixada atleticana, a consumação é do padrão ‘‘Graceful’’. Piada para os que têm mais de 50 anos, já que há apenas dois bordéis e uma boate dos anos de ouro aí citados.
Depois de todas as observações, finaliza o ex-magistrado: ‘‘Importante é que o ‘‘futeborzinho’’ continua o mesmo!’’
PRENSA O senador Requião pretende, conforme Osmar Dias se referiu em sessão recente no Senado, ingressar na Justiça contra o Banco Central e contra o governador Jaime Lerner por desobediência a uma resolução senatorial que dava 30 de junho como data-limite para que o Banestado fosse saneado, caso contrário ou seria liquidado ou ‘‘federalizado’’ como no caso Banespa.
O senador pediu ontem o enquadramento de Armínio Fraga pelo desrespeito à resolução senatorial junto à Procuradoria da República. Ele quer o banco estadual federalizado, velha tese sua.
Requião obteve na Justiça Federal abertura de inquérito no caso Algaci Túlio e a empresa abrangida na notícia-crime e quebra de sigilo ao Banestado nessa questão específica de empréstimo irregular, bem acima das normas cadastrais.
SPRAY Volta à baila o caso das bruxarias de Guaratuba: sai o júri em São - José dos Pinhais dos demais indiciados (Marcineiro, Ferreira, Cristofolini, Bardeli) em setembro. - Já o recurso contra a absolvição pelo júri de Celina e Beatriz Abagge tem como relator o desembargador Gil Trotta Telles e deve ser apreciado pela Câmara Criminal ainda este ano. - O parecer de Luciano Branco Lacerda, do ‘‘colégio cardinalício do Ministério Público’’, pede a anulação por ofensa ao princípio do contraditório; reclama o julgamento das apeladas pelos crimes conexos e submetidas a novo julgamento, caso a Câmara chegue ao mérito da apelação. - Em meio a tantas guerras contra o governo paranaense, o senador Roberto Requião adotou uma favorável ao Paraná, juntamente com o senador Suplicy, ao pleitear que se estenda aos demais Estados o financiamento de dívidas com o INSS, decorrentes da adoção do regime jurídico único, em uma só parcela. Isso evita a sangria dos royalties e das ações da Copel. - No dia 14 de junho, empreiteiros dos ‘‘caminhos da educação’’ - leia-se Redram e Tucumann - receberam mais de R$ 921 mil. Não precisaram se acorrentar.
FOLCLORE Nada como uma polêmica para movimentar o jornalismo da aldeia: o Nego Pessoa (Gazeta do Povo) responde à sutileza de Mário Celso Petraglia de que é dado a ‘‘happy hour’’, afirmando que isso é mais saudável do que colo de analista. Divã, Nego, e não colo. Nada a ver com o Odivan, beque do escrete.
CROMO Curta como o viver da borboleta e quase tão frágil como bolha de sabão, a florescência dos ipês amarelos está aí para que a contemplemos.
AFORÍSTICO Ia me esquecendo: como é que posso falar de política se não soube hoje nenhuma, pelo menos nova, do Aníbal Khury?

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