Luiz Geraldo Mazza
Efeitos da ruptura
Ao partir para um novo perfil industrial, o governo paranaense rompeu uma dependência histórica relativamente a São Paulo, pois até então a nossa economia era de complementaridade àquela unidade federativa. Até agora ainda não pudemos perceber os efeitos fiscais e econômicos dessa opção, ainda que já tenhamos observado que na geração de empregos a resposta foi insatisfatória.
Os R$ 14 bilhões ou R$ 16 bilhões investidos terão evidenciado os seus efeitos multiplicadores dentro de pouco tempo e precisamos por causa dos incentivos concedidos. Não deixa, porém, de ser significativo o fato de São Paulo estar aprontando represálias duríssimas, como a da representação de Covas no STF contra o Paraná, por isentar de ICMS compras de máquinas e equipamentos, caso a compra seja feita no próprio Estado ou no exterior.
Já tivemos questões históricas recentes com Santa Catarina, como a da sediação da refinaria da Petrobrás, e num segundo momento a do gasoduto, e também o caso da localização dos poços de petróleo no oceano, para efeito de royalties. Pois o choque não é com o vizinho ao Sul, mas o do Norte. E isso não é de agora.
Ninguém esquece da impertinência do ex-secretário Emerson Kapaz, de São Paulo, que não aceitava essa ousadia de o Paraná pretender transformar-se num pólo automotivo. Mexemos com o gigante, cioso de sua hegemonia, beneficiário crônico da União desde os tempos em que se estabeleceram as bases de sua industrialização como subproduto da cafeicultura e posteriormente com o apoio que o presidente Juscelino Kubitschek deu no fim dos anos 50 com a implantação das indústrias automobilísticas.
Alega o governador paulista Mário Covas, com alguma razão, que 85% do parque de máquinas e equipamentos está em São Paulo. E que não seria do interesse nacional (olha a sutileza da reserva de mercado em plena globalização!) esse canto de sereia em favor do capital externo. Foi com a mesma truculência que São Paulo, na emenda de José Serra à Constituinte de 88, ficou livre da responsabilidade de pagar tributo pela energia que consome, o que vem em detrimento direto do produtor excepcional que é o Paraná. Nosso empresariado, mormente o industrial, em que pese o seu proclamado progressismo, é ligadíssimo num cartório e numa reserva.
Tenho insistido que a despeito da existência de quadros, o governador Jaime Lerner não se preocupou em fundar bases doutrinárias fortes para oferecer respaldo ao processo de desenvolvimento. Preferiu, como é do seu estilo, o triunfalismo pela via mais simples e conforme uma velha obsessão, através do marketing. E agora temos muita propaganda, mas nos falta o talento para argumentar e enfrentar a arrogância de um gigante.
AXIOMA
O grupo dos 21 tem como porta-voz, com aquele seu jeito de artista de cinema, o Tony Garcia, e o código 21 da telefonia tem a Ana Paula Arósio, bem mais interessante tanto no físico, quanto no intelectual
BIZARRICE Depois do problema havido com os PMs que agrediram delegados, corre por aí a piada de que há um cartaz em cada delegacia: Entre sem bater. A piada, esclareça-se, em sua origem mais remota, é do Barão do Itararé, Aparício Torelly, cujo jornal A Manhã volta e meia recebia as visitas indesejáveis dos brutamontes do Estado Novo de Getúlio Vargas. Ele colocou o aviso à porta com o que tirava sarro da ditadura, mostrando fair play.
GLOSA Santa Catarina nos dá lições em todos os campos: seus deputados instalaram uma CPI para apurar o rombo de R$ 819 milhões do Besc, um refresco perto do havido no Banestado.
PÂNICO Moradores da Vila Isabel, em Curitiba, estão intranquilos: aquilo que já haviam previsto acabou acontecendo com a fuga de 16 presos do minipresídio. A capacidade era para 96 detentos, quando havia nada menos de 138. Na mesma zona houve aquela invasão da Delegacia de Furtos de Automóveis por 20 encapuzados (da Polícia, segundo intuiu o corregedor, Anníbal Bassan) que executaram, como grupo de extermínio, um preso que havia assassinado um policial.
Da mesma forma que os encapuzados entram sem ser percebidos, também os detentos dão um jeito de se mandar. É o governo Lerner na área de Segurança.
SPRAY São Paulo sempre quis nos submeter: assim foi com o café, cuja expansão ao nosso território combateu (à exceção, é claro, dos paulistas que aqui se implantaram) e se dá agora com a industrialização. - No setor agrícola, foram os autores da empulhação de que não poderíamos ter pomares cítricos sob a alegação de que havia o cancro cítrico. Com isso, tiveram tempo de expandir seus pomares e lançar as bases industriais da produção do suco, hoje um dos grandes contribuintes da balança, o que só estamos, em escala muito reduzida, fazendo agora no Noroeste do Estado. - Nem sempre tivemos estadistas no governo para encarar, de igual para igual, as pretensões paulistas que conflitavam com os nossos interesses. - Lerner carece de base teórico-doutrinária para se bater com São Paulo: já o havia revelado na questão do ICMS para automóveis e mais recentemente no caso da reserva de mercado para o Simples. Quando tínhamos um estadista no governo, Munhoz da Rocha, ele enfrentou, já no Ministério da Agricultura, o poderio de São Paulo na Reforma Cambial e que acabou derrubando o ministro da Fazenda, o paulista José Maria Withaker. - Num governo vibrante (não é o caso do atual, apático, indeciso) é possível fazer a imediata mobilização da sociedade em defesa da causa. - O caso da reserva dos 80% do Simples foi resolvido com a revogação da medida pelo próprio Mário Covas, pressionado pelo próprio empresariado paulista. - Recadastramento do funcionalismo estadual prorrogado até depois de amanhã, sexta-feira.
FOLCLORE Outra coisa que Covas fez e Lerner é incapaz de fazer: inspecionar e descobrir os chunchos do pedágio e o fato de a maioria dos consórcios só ter faturado numa boa e ter feito muito pouco.
CROMO Já que estamos no fim do mundo, façamos da despedida um ato de amor.
AFORÍSTICO No mundo dos céticos, o Apocalipse é motivo forte de lucro.





