As amargas, não
Numa festa de despedida de solteiro para o amigo Gebran, que se casaria no dia seguinte, fo mos além da conta nas bebi das e um dos mais entusiastas já se animou a ir até Paranaguá na zona da boemia. O carro era do Milton Estrela, estudante permanente (três anos de Medicina, dois de Engenharia, mais três de Direito), acanhadíssimo para os cinco passageiros. Temendo mancada e até a perda do horário do casamento, quando o carro se dirigia à rota antiga da Graciosa, lembrei que iríamos passar pelo pinheiro, sob cuja sombra descansara D. Pedro. Imediatamente o Antonio Daquino Borges, jornalista, entusiasmado e, vertendo civismo paranista, pediu que o Milton parasse o carro para a contemplação.
Daquino parecia ter incorporado o Dicesar Plaisant e fez um discurso cheio de emoção. A cena era cinematográfica: a neblina, devassada pelo farol do carro, dava um tom surrealista ao cenário de sombras afiladas, góticas. Com o sereno na cuca, recuperamos a lucidez e salvamos o casamento, voltando a Curitiba e entregando a domicílio o noivo afetivamente sequestrado ao som de Noel Rosa e do batuque de uma caixa de fósforos. Só que o orvalho que vinha caindo não molhou o chapéu de ninguém, mas felizmente a cabeça de todos, e não sumiram, apesar de tudo, as estrelas lá do céu.



O GUARDA-COSTA
Um dos seguranças de Munhoz da Rocha era o Chico Gato, o Francisco de Castro. Ficava de olho em nossas conversas de estudantes de Direito na Travessa Oliveira Belo, em Curitiba, todos conspiradores, e devia nos achar perigosíssimos em função da Guerra Fria que decolava. Ele jamais imaginaria que eu iria, um dia, ter acesso ao Palácio: como redator do serviço público, fui chamado para cobrir uma audiência de Munhoz da Rocha, o governador, com o senador Ivo de Aquino. Atrasado, entrei meio na corrida no Palácio São Francisco e o Chico Gato me olhando ansioso. Dirigi-me a uma sala reservada onde o governador conversava com o senador. O Miló Fogiatto, o fotógrafo, tinha o hábito de passar os lábios na lâmpada do flash para dar ‘‘liga’’. Assim que o acionou, houve uma pequena explosão que ecoou no recinto. A porta é aberta rapidamente pelo segurança, o olhar espantado e eu apenas lembrei que agora cabia recolher estilhaços de uma lâmpada e não de políticos relevantes.

CURITIBANICE Há quem ache o curitibano sem senso de humor. Não é verdade: essa estória, por exemplo, de ‘‘quebrar’’ as pessoas, isto é, chamá-las pelo nome, às vezes apenas repetindo as sílabas finais, é um desses tiques. Um dia, o ex-premier de Portugal, o jurista Marcelo Caetano, que havia caído com a Revolução dos Cravos e veio ao Brasil para dar aulas de Direito Civil, estava na porta do Braz Hotel, em Curitiba, e eu e o Anfrísio Siqueira resolvemos ‘‘quebrá-lo’’ de lugares diferentes para confundi-lo, com um gritando o nome e outro o prenome. Quase o derrubamos de novo.
AS MISSES Numa certa época fui destacado no ‘‘Diário do Paranᒒ para promover concursos de miss. Todas, é claro, citavam ‘‘O Pequeno Príncipe’’ como ficção ou ainda ‘‘A Moreninha’’, de Joaquim Manuel de Macedo. Um dia pintou uma das mais bonitas e sensíveis misses, Ângela Vasconcellos, que lia não só Exupery e dando explicações bonitas sobre a figura poética - o inconformismo de encontrar as rosas que não eram iguais às que cultuara no planetinha porque não as regara e protegera dos insetos na campânula de cristal, o que era um exemplo, como ela dizia graciosamente, de subjetividade na arte - e sua visão do mundo. Mas Ângela gostava também de Franz Kafka e justamente o de ‘‘A Metamorfose’’ em que Gregório Samsa desperta de um sono, vendo o seu corpo transfigurar-se numa barata. Uma ponte pênsil entre Exupery e Kafka.
SHAKESPEAREANA 1 Ninguém aguentava mais, na ‘‘Gazeta do Povo’’, a soberba do jornalista e historiador Dicesar Plaisant, retórico ao extremo, no seu patrulhamento gramatical. Entre outros, Reinaldo Dacheux Pereira, secretário de Redação, resolveu aprontar-lhe uma cilada e pediu que escrevesse nota de bodas de ouro de um casal de Santa Felicidade, Romeu Montecchio e Julieta Capuleto. Não percebendo a perfídia, Dicesar escreveu notícia repleta de adjetivos e enaltecendo o itinerário de uma família que festejaria com filhos, noras, genros e netos o meio século de amor e dedicação entre os parreirais de Santa Felicidade. Empolgado em dar uma lição de Português castiço, ele não percebeu que o casal levava o nome da dupla trágica de Verona.
SHAKESPEAREANA 2 Vou ao Pequeno Auditório do Guaíra assistir a peça ‘‘Otelo’’ pela companhia de Tônia Carrero, Adolfo Celli e Paulo Autran. No meio do primeiro ato, o tipo bem popular, Alvino Cruz, o Esmaga, da poltrona de trás, ao entrar em cena o Felipe Wagner (Yago), diz em voz baixa: ‘‘Esse cara é mais intrigante que o Anfrísio Siqueira e vai botar na cabeça do negro que a loira lhe bota chifre.’’ Peço ao Esmaga que não encha o saco e ele desaparece. Quando minado pelas intrigas de Yago, Otelo (Autran) mata Desdêmona (Tônia), reaparece ali, ao lado, com a carantonha sem dentes segurando a cortina de saída do teatro e sentencia como se fosse profeta: ‘‘Eu não disse?’’
Por causa dessas aprontações, o Esmaga, que era funcionário do teatro, foi transferido, praticamente exilado em Morretes. Naquele tempo, a passagem era obrigatória, via Graciosa, com parada para café no Bar Barril. Como o Esmaga conhecia todas as autoridades e com elas tomava intimidades, os morreteanos passaram a olhá-lo como um espião do governo e só suspiraram quando houve ordem para voltar a Curitiba. O Esmaga era cem vezes pior do que o lendário Yago e se metia na vida de todo mundo.

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