Luiz Geraldo Mazza
O grupo dos 21
De repente, não mais que de re pente, um furor cívico atinge o Legislativo do Paraná com o mesmo vigor das endemias: desco briram que o go verno não funciona, que há muitos convênios descumpridos, obras paradas, funcionários e secretarias demais. O surpreendente é que a grita não vem da oposição, a quem cabe esse papel, mas da própria base aliada, aquela mesma que queria saber tudo sobre a operação, tida como irregular, entre Copel e Sercomtel e Banco Fonte-Cindam, e que depois deu marcha-a-ré e passou a tratar o assunto como proibido.
A democracia é, cada vez mais, a representação dos interesses. E nas sociedades, tidas como complexas, como é o caso da brasileira, esse conflito até ajuda a avançar. Por exemplo: em Paranaguá há a luta entre a estiva e a entidade encarregada de recrutar e gerir mão-de-obra como decorrente natural do esforço de desestatização nos portos, enxugamento da máquina, redução do poder de fogo dos cartórios e corporações.
Já no caso desses parlamentares, a alegação é de que todos correm riscos de perdas eleitorais com o mau desempenho do governo e sua inadimplência. Como são de convicções elásticas, tal qual se observou na denúncia candente da CPI da Sercomtel, que posteriormente revogaram num dos episódios mais clamorosos da história recente do Legislativo, não se tem certeza se confirmam todos os pontos das alegações feitas agora ou se arrependem e voltam às boas.
O Legislativo é quem mais contribui, como comprovam as pesquisas, para a taxa de baixa credibilidade da chamada classe política. Ela é abominada de norte a sul bem como as representações que ostenta no Senado, Câmara Federal, câmaras estaduais e municipais. Segunda-feira, o governador Jaime Lerner, especialista em desconversar e empurrar com a barriga (vide a desmoralização do caso dos sem-terra em seu acampamento crônico, e da retaliação de policiais militares contra os civis que apuram trutas dos colegas como na vergonheira do trânsito livre do vigarista Joni Rodrigues) concede audiência aos rebelados. E como ensina a saga garibaldina, faz-se a onda para que tudo fique exatamente como está.
BIZARRICE
A inserção de um novo animal na campanha do trânsito foi anunciada pelo prefeito Cássio Taniguchi para responder ironicamente ao buzinaço de anteontem: o cachorro louco. Qual dos oposicionistas, embora no caso estejam fazendo a linha auxiliar do Aníbal Khury, lembra o tal cão babante? Aliás, cão hidrófobo, diz a lenda, é comum em agosto
AXIOMA O nosso anarco-judicante Elísio Marques sugere, brincando, que a fusão das polícias Civil e Militar está próxima. Seria, segundo ele, a Polícia Unificada Transgênica e Acadêmica (Puta), com o seguinte uniforme: sandália havaiana, bermuda cáqui, colete preto e boina verde. É a griffe, segundo ele, Dan Mitrione. Mitrione foi o homem de ligação da CIA que andou até em Curitiba e que foi executado pelos tupamaros.
GLOSA O cubano naturalizado ianque Franco Vila, especialista em prevenção de sequestros e espionagem, dava palestra no Expocenter. Só faltou alguém perguntar o que fazer quando a Polícia Militar se vale de retaliação contra delegados de polícia que examinam desvios de conduta dos milicianos.
EXPLICAÇÃO O governo detectou bandalheira no contrato com a Paumer, que estava para ser instalada em Guaratuba, em função de ações policiais catarinenses que mostraram que a empresa havia se valido de notas fiscais irregulares. Como se vê, Guaratuba é foco de todos os males: bruxarias, a cratera (que o governo prometeu tapar) da Vila, desaparecimento de crianças e agora de uma indústria.
Mas é bom que o governo explique por que muitos investimentos não deram certo como o dos galpões industriais de Palmeira, por que a Tafisa invadiu uma área de mineração em Piên, por que a Sundow se mandou e deixou aquele esqueleto na estrada para Santa Catarina.
SPRAY Segue o processo de politização da PM, o que ajuda a criar situações de constrangimento como as vividas na agressão aos delegados. - Nada menos de três coronéis da ativa estão sem função, enquanto há os da reserva em posição de comando. - Há queixas genéricas contra a influência da política nos processos de promoção em aberta desobediência dos valores institucionais. - Politicagem acaba gerando atos de suspensão de passagem para a reserva e que explicam a disponibilidade desses três oficiais de último posto. - Se a ação contra os delegados foi de retaliação, como acreditam as vítimas, porque investigam as picaretagens de Joni Rodrigues com veículos e que deu prejuízos a centenas de pessoas, de certa forma escudado no tráfico de influência, ficará demonstrado que o governo não tem moral para fazer valer a autoridade. - Até hoje se espera que a Polícia Civil dê uma explicação também sobre a execução de um preso por parte de 20 encapuzados que o corregedor acredita pertencerem à corporação. - A Associação do Deficiente Motor Vivian Marçal expõe trabalhos no setor infantil da Biblioteca Pública e no Shopping Mueller de Curitiba. Hoje, no Calçadão da XV, diante da Loja C&A, das 10 ao meio-dia, alunos apresentam números artísticos.
FOLCLORE O sem-terra deu um recado a Lerner em torno da padaria inaugurada anteontem no acampamento do Centro Cívico: o cheirinho da broa caseira chegaria ao nariz do poder, lembrando da causa agrária. É uma ingenuidade: o Rio Belém também atinge, com seus miasmas, os narizes do governador e do prefeito e eles não estão nem aí.
CROMO Não vi a planta florescer, mas em compensação contemplei seu despertar.
AFORÍSTICO Deputado situacionista fazer cobrança do governo, como se fosse da oposição, não é tão ilógico assim ou que mereça comparação com os textos do realismo fantástico. Surpreendente mesmo é que haja quem acredite que tudo isso é feito com a maior sinceridade.





