Luiz Geraldo Mazza
A grandiloquência inútil
Os partidos políticos confiam, antes de tudo, na falta de memória do povo e disso fazem a sua sustentação doutrinária. Esse encontro do PMDB havido em Londrina, pelo jeito vai funcionar como redundante caixa de ressonância de Requião e seu poder unipessoal e nada mais. Afinal, ele sempre esteve em linha de conflito com o governo federal, apoiado por figuras do padrão de Orestes Quércia e Itamar Franco, o mais radical dos arcaísmos, e ainda do Paes de Andrade.
O fato de dez diretórios regionais do PMDB terem assinado a Carta que prega o rompimento do partido com o governo federal também não garante a maioria na hipótese de a questão ser levada a uma convenção nacional para tratar do tema de forma específica. Essa pretensão sebastianista, centrada numa idealização exagerada do que era o MDB (aliás Requião, por exemplo, a ele não estava integrado, como explica o Sílvio Sebastiani em seu livro), não tem sentido: já tiveram a presidência da República nas mãos e a maioria dos governos estaduais e simplesmente nada fizeram, enquanto descontentes faziam do PSDB a dissidência maior.
O PMDB parou no tempo e parece incrível que adote o discurso da resistência (provavelmente contra ele mesmo, ambivalente que é) democrática quando o País nunca a praticou de forma tão escancarada, haja vista para a greve recente dos caminhoneiros com todos os ingredientes do mais radical anarco-sindicalismo. E parou no tempo com as pessoas que o integram, defensores de saídas autárquicas e nacionaleiras para a nossa economia. O primitivismo de Itamar Franco, que era vice de Collor, o que por si já o define, dá bem a idéia das lideranças que se apresentam como rebeladas, ainda mais se lembrarmos os resultados eleitorais do quercismo em São Paulo. De todos, talvez o senador Requião seja ainda o sinal da novidade, ainda que em acelerado desgaste, sem falar que defende a renúncia de FHC, o que não passa de golpe, bem ao gosto dessa página virada da história que é Leonel Brizola.
Mais relevante do que os possíveis e imagináveis efeitos do encontro de Londrina, foi a filiação de Luiz Eduardo Cheida. Como o PT no Paraná é uma sublegenda, um estepe do PMDB, vai acabar se encontrando com ex-colegas na mesma causa na primeira eleição majoritária, local ou regional.
AFORÍSTICO
A frouxidão de atos como esse da atenuação das penas do trânsito é, por incrível que pareça, uma forma invertida e tortuosa do pior autoritarismo
BIZARRICE Aí a ESPN perguntou para o goleiro Clemer, do Flamengo, se ele já tinha ouvido falar do Lucas, atacante do Atlético. Clemer esnobou como se estivessem falando de um ET. Na hora em que marcou o gol, explorando a bobeira do zagueiro Fabão, Lucas se dirigiu à primeira câmera de TV e disse em voz alta: Eu sou o Lucas. Os companheiros fizeram coral diante do vídeo, o apontavam e diziam: Ele é o Lucas.
AXIOMA O prefeito Cássio Taniguchi, acuado, recuou nas multas e deu três chances para os infratores. Com a absolvição concedida, coloca em risco todos os demais motoristas. Estamos na safra dos maus exemplos, seja o de Lerner na cumplicidade com o abuso das invasões de terras, o de FHC em relação à greve dos caminhoneiros.
GLOSA O PPB decidiu ontem manter o Janene na presidência do partido, congelando as disputas internas até setembro. O partido não está com essa bola que costuma ostentar para valorizar-se: sua principal liderança, Maluf, anda em baixo astral.
EPIGRAMA Khurytiba é a nova designação da Capital ante a subserviência da dupla Jaime Lerner-Cássio diante do presidente da Assembléia. A mexida nas multas tem jeito e estilo mais de coisa do Lerner, pela falta de coragem, do que do prefeito Taniguchi.
FARSA Desde a resistência do prefeito de Leônidas Marques contra a nomeação de um delegado envolvido nos episódios da delegacia de Almirante Tamandaré, era de se esperar o cumprimento rigoroso da resolução do secretário de Segurança que determina o afastamento de funcionários que tivessem cometido crimes ou estivessem indiciados. Só que torturadores de Campo Largo continuavam atuando na mesma delegacia, como foi verificado ontem.
O responsável pelo monitoramento dessas situações é o corregedor Anníbal Bassan, que já acumula outro caso não resolvido: o do assassinato por policiais encapuzados de um preso na Delegacia de Furtos de Veículos. Polícia que tem dificuldades para controlar seus próprios quadros não tem condições mínimas para combater a criminalidade.
ANALOGIA Greve caminhoneira, segundo esta Folha, custou R$ 7 milhões só à agricultura paranaense. Esse valor aí, para que ninguém se espante, é mais ou menos o que alguns partidos pedem, aqui, para certas causas eleitorais. O mistério é saber de onde os mágicos, ainda mais com essa crise, tiram essa grana toda. E vai sobrar bufunfa no ano que vem.
PESQUISA Pela sondagem de ontem na Rádio CBN de Curitiba em torno de como o público recebeu a notícia do adiamento das multas do trânsito, percebe-se que ao contrário do que acreditam os políticos primários e assistencialistas, a maioria é contra as concessões por julgá-las deseducadoras e demagógicas.
FOLCLORE Está marcada para 10 de agosto, às 9 horas, a solenidade do 145º aniversário da Polícia Militar na Praça Nossa Senhora de Salete no Centro Cívico. O traje dos militares será o apropriado, o dos civis o de passeio e o dos sem-terra, maioria naquele logradouro, o mesmo de sempre, com boné rubro. Só falta agora o governador mudar o local da festa para não assustar ou mesmo desagradar os sem-terra. Nós merecemos.
CROMO No Manekos Bar encontro versos do Sola, feitos menos de um mês antes de sua morte, com mensagem bem do seu estilo sob o título Verdade: A dor tem um limite// físico ou mental:// foi o que você fez em mim// A ausência do poeta e arquiteto pesa.





