No Brasil a social democracia tem funcionado, sistematicamente, como engodo, diversionismo da elite conservadora e está longe de conter na prática a raiz do discurso europeu. Justamente quem dela mais se aproxima é aquele que a não enuncia, o PT, enriquecido pela fermentação das tendências internas.
A social democracia, imposta como alternativa civilizada, ao avanço social sem o sacrifício da liberdade, foi lembrada na montagem do partido de sustentação de Getúlio Vargas, o PSD, Partido Social Democrático, que cuidava de um país dominantemente rural e criou na sua contramão, aparente é claro, o PTB para representar o nascente proletariado urbano. Está inscrita na origem essa dissimulação que reaparece no populismo de Brizola e no ‘‘socialismo moreno’’ e de uma forma agora mais refinada no PSDB.
A existência de um programa de conteúdo social democrata, que até militares tentaram manter com o PDS, o da democracia social, clone da Arena, não significa nada. O próprio PRN, por força do trabalho do Merquior, no governo Collor tentou simbioses para dar um conteúdo social ao liberalismo, empenho também do PFL (imaginem só) que, por ações de Marco Maciel, procurou retomar o conceito de ‘‘liberal socialismo’’, contemporâneo do Manifesto Comunista na Alemanha. Nos esforços de consolidação doutrinária do PMDB há a contribuição
do cientista Roberto Mangabeira Unger, depois transferido para coordenar os fundamentos do discurso brizolista no PDT.
Elites sempre agiram assim - discurso refinado, prática populista - para se mostrarem sensíveis e sintonizadas com o drama das maiorias. Graças a isso construíram esse modelo de perversão social que é o Brasil, explorando os feitos ocasionais de políticas de estabilização, como se deu numa fase do Plano Cruzado (quando Sarney acusou o surgimento de mais de 30 milhões de consumidores) e agora com o frango e o iugurte nas duas etapas do Plano Real de FHC para anestesiar as massas.
O fato novo que pintou no horizonte político não se originou nem dos partidos e muito menos do sindicalismo do ABCD, tido como avançado. Surgiu do basismo agrário, do Movimento Sem Terra, um interlocutor que veio para ficar e abre a perspectiva de uma luta, em nome dos destituídos e da pobreza, no legítimo ‘‘front’’ da informalidade, instância na qual o governo é desafiado e na qual pode tudo, menos valer-se da repressão, pelo menos enquanto os sem terra fizerem do pacifismo o fundamento das ocupações que, como todos sabem, vão continuar. O próximo passo do MST, já agendado, é a marcha a São Paulo dos liderados de Rainha do Pontal do Paranapanema em julho. É a hora de Covas, outro atleta do discurso social, suar e um pouco mais do que em Diadema.
BIZARRICE Quem leva a culpa do incêndio do Detran: a cuia, a bomba ou a chaleira? A pergunta é do advogado, ex juiz e anarquista Elísio Marques.
SPRAY Uma pesquisa do InformEstado, do ‘‘Estadão’’, é arrasadora para os que pretendiam faturar a CPI dos títulos públicos. 88% dos consultados afirma que os senadores agiram em função de interesses políticos imediatos. - Constatação mais forte é a de que perdeu a finalidade, já que apenas 39% a acompanham com algum interesse. - Outra revelação: 71% acham que a CPI se enrolou e que os seus componentes não se entendem. - O lado policial e truculento, no entanto, marcou o espírito dos pesquisados que acham em 59% que a função de uma CPI é investigar, julgar e punir, algo, pois, como um Tribunal do Santo Ofício. - Apenas 10% dos pesquisados acreditam que haverá punição para todos, 20% acham que os políticos se safam, 70% frisam que se livram todos. - Embora a sondagem tenha sido feita em São Paulo ela parece traduzir a frustração geral com os excessos de teatro burlesco da instituição senatorial. - Uma das decisões que decepcionaram o público foi a de não quebrar o sigilo de governadores e prefeitos: 77% discordaram dessa orientação. - O relator Roberto Requião tenta agora, e diz que colocará isso no documento final, embora tal assunto não diga respeito aos títulos estaduais, comprometer o governo ao apontar o Banco del Paraná como a segunda lavanderia de dólares do Paraguai.- O braço paraguaio do Banestado sempre foi alvo de denúncias: Álvaro Dias falou dos cisnes negros do tempo de Richa e Mário Pereira lembrou do caso paradigmático de um dono de carrinho de cachorro quente em Ponta Porã em cujo nome se faziam operações diárias de R$ 1 milhão. Presidia o Banestado o primo irmão do governador, Heitor Wallace de Mello e Silva. - Se tudo o que se disse do Banco del Parana for verdadeiro deve ser fechado por medida sanitária. Ou, então, os políticos são todos farsantes e beneficiários, diretos ou indiretos, dessas patologias. - A goleada mais prevista de ontem não era a do jogo entre Atlético e Corinthians, mas a do diretório regional do PSDB em favor de Jaime Lerner. - Novos juízes de Direito entram em exercício dia 29 de abril e em maio serão nomeados mais 16 juízes substitutos, remanescentes do último concurso. -
FOLCLORE FHC, ao cair de nariz no chão numa de suas viagens ao norte, acabou repetindo o truque de um candidato de Umuarama que estava bebum e em cima de um caminhão e que ao perder o equilíbrio e tombar da carroceria teve grande presença de espírito. Limpou a roupa e retomou o discurso: ‘‘ Em primeiro lugar beijo a terra querida e depois saúdo o seu grande povo’’.
AFORÍSTICO O índio pataxó dormia e sonhava no chão de todos os brasileiros e foi queimado pelos civilizados. O folguedo dos jovens de Brasília, apesar de todo o horror que provocou, vai mostrar, outra vez, que uns são mais iguais do que os outros. Quando se banaliza a violência, é inútil esperar justiça.

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