Luiz Geraldo Mazza
As linguagens figuradas
Anteontem, uma notinha da co luna sobre um dado humano e curioso da greve com a presença de garotas de programa nos piquetes de ca minhoneiros vendendo o seu peixe deu margem a uma gozação de um leitor que, dizendo-se da Federação das Peixarias extravasou indignação ante o literal merchandising feito por V.S. à atividade de pessoas não registradas em nosso meio.
Seguem os motivos do repúdio à nota: 1) Não há garotas de programa filiadas à entidade; 2) Somente peixarias, firmas devidamente autorizadas, podem vender peixe; 3) A venda de peixe sem alvará ou registro implica em ato ilícito em detrimento dos que atuam regularmente; 4) Vender peixe a céu aberto é crime à saúde pública porque a exposição do produto ao sol e às intempéries em geral, principalmente sem embalagens ou condicionadores adequados, pode deteriorá-lo; peixe estragado, além de ruim ao paladar e fazer mal à saúde, exala terrível mau cheiro e, finalmente, caminhoneiro que compra peixe qualquer pode pegar doença que não quer.
E no final, depois de sugerir que estou a serviço das vendedoras de peixes, a entidade lembra que posso receber em Paranaguá o apelido de Peixetônico por não saber distinguir perna de moça de bacalhau.
DE SURPRESA
Às vezes, quando menos se espera, a linguagem figurada é levada ao pé da letra
PÔR-DO-SOLAnos passados fui procurado por dois jornalistas, um do Le Monde e outro do Wall Street Journal, por indicação do Cláudio Lacchini, diretor da Gazeta Mercantil, em que este me recomendava como uma pessoa crítica em relação ao prefeito Jaime Lerner. Matérias imensas, laudatórias, até porque detectaram méritos nos feitos urbanísticos, foram produzidas nos dois jornais.
De tudo que falei (duas horas de papo) ambos se ligaram numa frase quando - fiz uma blague com a mitologia lerneriana ao dizer que depois dele o pôr-do-sol em Curitiba não era o mesmo. Uma redatora da Associação Comercial, empolgada com a divulgação dos feitos lernerianos em escala internacional, não percebeu o sentido nada sutil da crítica e colocou a minha frase como um testemunho de que o pôr-do-sol tinha efetivamente melhorado por obras e artes do arquiteto, que melhora as criações daquele seu primeiro e mais remoto colega.
A DOS CARTÓRIOS Outra, não propriamente de linguagem figurada, mas de indevida interpretação poderia levar um jornalista novo, e não veterano como eu, até a abandonar a profissão. Havia um jornal no Canal 6, então OM, no qual eu e o ator teatral Sale Wolokita fazíamos comentários das notícias que eram dadas pelo âncora, o saudoso Nuevo Baby. Uma das notícias com que fui premiado era a do desembargador-pai que nomeou o filho para um cartório, algo rotineiro na vida do Judiciário. Falei do cartorialismo brasileiro, tradição patriarcal, o nepotismo desde a Carta de Caminha, a estrutura de poder desde as capitanias, governos gerais e depois de mostrar que se nomes familiares iguais fossem zerados pelo computador no Judiciário, tanto de funcionários como de magistrados, estaríamos diante de algo como o bug da passagem do milênio, razão pela qual, concluindo ironicamente, nada via de anormal num pai nomear o filho.
À tarde entra em minha sala na Redação do jornal o assessor do presidente do tribunal, que trazia a emoção nos olhos, dizendo da alegria com que o desembargador ouvira a culta e judiciosa interpretação feita por mim e me agradecendo. O assessor, quando encarna o assessorado, é mais convincente que um médium: ele assume, visceralmente, a alegria ou tristeza do chefe, e foi por essa razão que, à sua saída, quase fui ao psicanalista, pois eu tinha chegado à sublimidade (sublime idade, diriam os poetas concretos) da anticomunicação.
OS MITOS Pior, ainda, do que a má interpretação de atitudes ou de frases é quando se mitificam, folclorizam-se situações. Uma dessas, terrível, deu-se na greve dos jornalistas de 1963, meses antes do golpe, deflagrada por proposta minha em assembléia unitária com os gráficos: inventaram que quando o carro imenso dos bombeiros tentava dissolver nosso piquete e já havia alguns com o corpo dobrado sob as rodas, teria aparecido por lá o Walmor Marcelino com uma bandeira soviética enorme ao que eu teria observado: Essa, não. Traga a antiga mesmo!. Para aquela época, uma brincadeira de mau gosto, já que a Guerra Fria é que tudo condicionava, e que poderia gerar mais poblemas tanto para mim como para o Walmor, já que respondíamos a mais de um inquérito. Uma situação que não existiu, uma frase que não disse e teríamos aí condimentos suficientes para inflar a cólera dos inquisidores.
OS CHATOS Existe ainda outro risco de interpretação: o de que quando você reclama cautela de alguém temerário, o cretino olha em sua direção como se estivesse diante de um pusilânime. Tinha um chato vendedor (eis aí uma redundância) que frequentava a nossa roda e oferecia livros clandestinos. Um idiota: não enxergava nada do que estava ocorrendo e fazia os oferecimentos para nós, em maioria fichados, indiciados, todos sempre atraindo olheiros da DOPS, SNI e outras siglas.
- Que tal o Guerra de Guerrilhas do Regis Debray, cupincha do Guevara?
O livro à mão, em plena Avenida Luis Xavier, era a mercadoria que oferecia.
Puxei o cara do lado e alertei-o de que aquilo não era cenário apropriado por motivos óbvios. Ele me olhou espantado e sacou:
- Pelo jeito você está frouxando o garrão!
Aí não aguentei, e aos berros comecei a perguntar em voz altíssima: o que é que você tem do Mao-Tse-Tung? Assustado, ele recuou, pedindo que eu baixasse a voz. Daí, passei a correr atrás dele e indicando outros autores. O vendedor, assustado, atravessou a rua e sumiu pela galeria do Edifício Tijucas. Cada vez que ele voltava, nos dias subsequentes, eu ameaçava a mesma cena. O cara sumiu da Boca Maldita, espalhando que o Mazza era mais louco do que comunista.





