Luiz Geraldo Mazza
O tutor tutelado e refém
Parece incrível que o prefeito Cassio Tanigu chi não exerça o mínimo esforço para buscar espaços de auto nomia. Pode se tratar de leal dade, insumo raro no cotidiano da política, ou ainda de uma questão de estilo pessoal. Nesse aspecto é exatamente o anverso de Rafael Greca, que mostrou independência desde a campanha na intimidade do partido, então o PDT, já que era visível a opção de Lerner por Taniguchi desde aquele momento.
Mas se Taniguchi tem essa gratidão de origem, hoje já não se justifica um vínculo de irmão siamês e em acelerado desgaste por suas hesitações, ausência de coragem e determinação e que acabam afetando, diretamente, o âmbito municipal. As concessões feitas a Aníbal Khury, hoje transformado, de forma claramente artificial, em locutor privilegiado nas questões curitibanas, e que favorece a série de especulações e factóides em candidatos embriões, revela que Cassio Taniguchi não precisa agir também como um tutelado de Lerner, como se ainda hoje, depois de razoavelmente testado no poder com um desempenho de bom para excelente, enquanto o do Palácio Iguaçu é nulo, fosse tão dependente.
A tal reunião do Coração Curitibano, cafonice publicitária que já perdeu o sentido (lembre-se, aliás, que foi entronizada justamente quando da derrota para Requião em 1985), mas cultivada com ardor pelo Gerson Guelmann, o homem da peixada que baixou a bola da cólera em Paranaguá, mostra o quanto o grupo - está por fora da atualidade, ainda mais prevendo um momento de deslanche para o governo num instante em que consegue a façanha de atrasar o pagamento do funcionalismo estadual, sinal inequívoco do vermelho nas contas.
Pelo noticiário da imprensa, a imagem que fica é a de que Jaime Lerner segue com o bastão de patriarca do clã. Só que não está assim tão bem para sugerir que ampara Cassio Taniguchi como se estivesse mais nas suas mãos do que na do prefeito de Curitiba o destino de sua reeleição. O tutelado querendo posar de tutor.
AXIOMA
Militantes políticos, radicais especialmente, lembram em muito os extremistas religiosos, fanatizados: idealizam tanto os possíveis feitos de uma nova ordem comandada pelo partido, que imaginam um futuro sem hemorróidas, angústia ou verminoses
BIZARRICE O mau humor do jornalista José Trajano é permanente, faz o tipo que toma vinagre ao desjejum, seja no Cartão Verde ou nas mesas-redondas da ESPN. Anteontem, ele atribuiu a Rafael Greca o mau desempenho no Pan, o que é um absurdo, porque até aqui pelo menos tudo corre dentro do nosso potencial e que superará disputas anteriores, e a condição atlética independe de um ministro recente porque é estabelecida ao longo do tempo. Alguém deu a explicação: ele torce para o Ameriquinha do Rio.
GLOSA Num muro da Universidade Federal: O marxismo não morreu, só foi mal interpretado. Anos passados, na parede do Círculo Militar: Deus morreu, Marx também e eu não estou me sentindo nada bem.
AUTOGESTÃO O ideal anarquista, aquele que encontrou o seu grande momento nas barricadas de 1968 na França, parece ter renascido com toda força no agito caminhoneiro. Ocorre que o Movimento União Brasil Caminhoneiro é alternativo ao sindicalismo e talvez por isso mesmo, sem as amarras burocráticas a que leva o legalismo, deu o tom da novidade e da força.
O que qualquer liderança deve saber é o momento de abrandar e recuar. Aliás, não houve isso, embora crescesse entre os paredistas a revolta dos que queriam retornar ao trabalho. Quem abrandou (nem ousou chamar o Exército) foi o governo e que recuou também de forma drástica, o que poderá animar outros movimentos de desafio à autoridade.
Um detalhe: o líder do Movimento, Nélio Botelho, tem um programa diário na Rádio Globo do Rio de Janeiro. Isso seria impensável, tempos atrás, embora a Globo, como organização, seja um reduto muito forte de esquerdistas.
SPRAY O PMDB, ao marcar o seu encontro em Londrina tenta fortalecer-se numa das áreas em que se deu mal na última eleição. - Busca igualmente reforçar a imagem de Roberto Requião ao lado de figuras nacionais como Itamar Franco, e explora o desgaste tanto de FHC, quanto de Lerner. - Outro empenho será o de aprofundar os desgastes do governador do Paraná por seu comprometimento com o pedágio, cujos contratos deverão ser revistos inteiramente em função do acordado entre os caminhoneiros e o governo. - De um modo geral, Lerner resiste às licitações e como se esta administração fosse continuidade da anterior, no aspecto jurídico e técnico, prorroga os contratos em várias áreas, como fez com a propaganda e também em consultorias da área educacional. - No último dia 28, a Secretaria de Educação contratou consultores para o Proem, como Luiz Kulcheski, a R$ 13,8 mil, e Marcos Elias Traad a R$ 11,5 mil, sob a alegação da notória especialidade e portanto sem licitação. - Também o contrato desse absurdo, que é a locação de veículos, foi prorrogado. Detalhe: figuram na relação de contribuintes de campanha eleitoral. - A imagem do Del Paraná, sempre deteriorada pelos próprios governantes (exemplo: Alvaro Dias contra José Richa, Mário Pereira contra Roberto Requião), está dificultando o interesse no leilão por parte de outras organizações que pudessem eventualmente adquirí-lo. Houve, também, novas descobertas de irregularidades e relatos rocambolescos de assaltos em suas agências. - Vem um dossiê aí da pesada em torno de aspectos ligados à chegada de empresas ao Paraná.
AFORÍSTICO Quem é mais forte: caminhoneiro fechando estrada, operário da Ford em greve, ou o FMI que tudo observa e dá as ordens? Aumento das tarifas públicas, por exemplo, é uma das imposições de doutrina do FMI. Revogação dos aumentos para o diesel e o pedágio vão jogar o FMI contra o governo. É divertido porque talvez seja o único jeito de devolver o brio a FHC.





