Pangloss e Hipoglos
Há uma diferença fundamental entre Pangloss e Hipoglos, embora ambos produzam uma sensação de bem-estar: o primeiro é um personagem da ficção universal, do talento de Voltaire e presente no livro ‘‘Cândido’’, e o segundo é uma pomada que livra a bundinha do nenê da malvada acidez. Pangloss, o otimista, que vivia no melhor dos mundos, parece ter virado na referência-chave do governador Jaime Lerner, que acha que está tudo bem, que sente isso no contato com o povo no interior e que é preciso manter o pensamento positivo e ligar-se na auto-estima. Esses conselhos foram dados por Lerner num jantar com a equipe que, como sempre, mostrou-se entusiasmada com a motivação do chefe.
Mas o que tem esse delírio a ver com a realidade do Paraná quebrado, da falta de luz no fim do túnel, da sensação de desesperança? Ainda ontem o governador percorria ministérios atrás de plasma e oxigênio para tentar levar alento, um máximo de terapia visando recuperar o Estado que ele próprio quebrou por absoluta ausência de previsão. Tanto que anda ainda cultuando a mega-bobagem dos Jogos Mundiais da Natureza, dos quais ainda há credores atrás de haveres.
Não explicaram para o governador até hoje - e o desempenho do seu governo dá a entender precisamente isso - a diferença modular entre Curitiba e o Paraná. Por não ter percebido a diferença de escala, é que ele vive empenhado na cruzada autofágica de leiloar nossos ativos de maior valor para deixar em funcionamento a máquina pública, irracional e com elefantíase e que ele nada faz para enxugar. Como queimou bilhões, como permitiu que o Banestado afundasse nas mãos de irresponsáveis, ele se empenha agora em levantar ‘‘grana’’, com a venda das estatais, para calafetar o barco que detonou. Essa operação de caráter absurdo, um ‘‘non sense’’ radical, vai garantir moratória para que a embarcação flutue.
Curitiba tem bem dimensionados os seus serviços, e com uma arrecadação superior a US$ 1 bi pode ter um desempenho acima do razoável. Mas o Paraná acumula carências gravíssimas e, o que é pior, sua arrecadação é consumida pelas despesas de custeio. Ao nomear mais de meio milhar de comissionados, logo que assumiu o Palácio Iguaçu, Lerner mostrou não ter a mínima noção do tamanho da crise financeira que passaria a enfrentar. O pior é que acaba transmitindo a todos uma falta de determinação, uma apatia, chocantes, e dessa forma não se consegue levantar o moral de uma tropa que se mostra derrotada antes de começar a luta.



BIZARRICE
Desgraça de uns, alegria de outros, a greve caminhoneira levou garotas de programa até os pontos de concentração para vender o seu peixe

AXIOMA Laranja madura na beira da estrada é normal em Cerro Azul. Lá ela não tem preço e nem escoamento por falta de estrada e, portanto, não precisa estar bichada ou ter marimbondo no pé para assim se apresentar.
GLOSA O governador Esperidião Amin, de Santa Catarina, que se notabilizou no Senado na CPI dos Precatórios, segundo os sindicalistas do Judiciário, vai usar o dinheiro dos títulos estaduais para pagar contas.
A CRISE Se o governo federal não estivesse tão desacreditado teria moral para negociar, com maior desenvoltura, a questão da greve carreteira. O nível está a um ponto tão baixo que os caminhoneiros não deram a mínima para a ameaça de o Exército intervir. É a anomia que tende a generalizar-se e criar cenários bem parecidos com os da França em 68 só dissolvida com um discurso à direita, pesadíssimo, do generalíssimo De Gaulle. Aqui, se o presidente fizesse o mesmo repetiria o outro Fernando, o Collor, que convocou a patuléia para ir às ruas de verde e amarelo e ela foi de preto e cara pintada.
As perdas acumuladas na questão dos fretes chegam a 35%, razão pela qual o desespero garantiu o sucesso da mobilização.
EPIGRAMA Para os ‘‘bagrinhos’’ do sistema de transportes de cargas, quase todo o dia há uma repetição daquele monólogo de Hamlet, ‘‘o ser ou não ser’’, pois cada um tem que resolver uma pendência: ou paga o frete ou come.
SPRAY A greve carreteira é bem menos intensa do que a ocorrida na Argentina e que só retrocedeu com o recuo do governo relativamente a novos tributos. - Por sinal que estava no disparo outro aumento do óleo diesel bem como das tarifas de pedágio no Brasil. - Sindicatos patronais não têm poder de persuasão porque são vistos como aliados tradicionais do governo (estadual, federal) e assim as federações e confederações. - Esse movimento é da base mesmo, mais disposta e afirmativa do que a direção, bastante ligada ao Poder Público. - Lerner, em Brasília, buscava acertar a troca de ações da Copel por adiantamentos do BNDES. Soube que o governo federal pretende pagar em 240 meses a indenização em vista do sistema único por causa dos celetistas feitos estatutários. Assim diluída, essa verba não refresca. - Os homens do pedágio, além do ódio geral, têm agora um problema adicional: a destruição de todas as árvores de porte pela Rodonorte (Curitiba-Ponta Grossa) irrita a todos. Pelo jeito o Lerner abandonou a causa ambientalista, tal o absurdo ali cometido.
FOLCLORE Ontem dei uma barrigada ao falar na relação do oxigênio por milímetro de água quando queria referir-me a mililitro. Antes havia a desculpa do erro da revisão, como numa ocasião em que repeti metáfora de Mao-Tse-Tung em que se referia à uma eclosão de movimento multiplicador, revolucionário: ‘‘Uma faísca na pradaria’’. E o jornal tascava ‘‘uma faísca na padaria’’.
CROMO ‘‘O êxtase// é um oceano// depois ficamos frouxos// feito bonecos de pano//’’. Do Nelson Capucho em ‘‘Beira Mar’’.
AFORÍSTICO Governo quer derrubar Janene do PPB: como seus aliados são como Aníbal Khury, não há critérios possíveis de fidelidade.

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