O ‘‘vermelho’’ do caixa
Há exatamente 38 anos não acontecia isso: atraso do paga mento dos bar nabés. Pois neste ano, apesar dos sofismas oficiais, o funcionalismo recebeu com atraso de um dia e agora com quatro. Da mesma forma que o lambari é um bio-indicador por revelar os níveis de oxigênio por milímetro de água, nada há de mais claro para definir uma crise do que a mexida no pagamento do quadro de funcionários estaduais. Aliás, estava demorando para ocorrer, já que o Estado está, há muito tempo, seprocado por não cumprir prazos de pagamento junto à sua clientela. Atrasos de sete, oito e até dez meses são uma rotina.
O governo, cujo nariz aumenta a cada explicação, mente, dissimula, buscando minimizar a gravidade do fato e alega, por exemplo, que se trata de um ajuste de cronogramas, apenas isso. Ora, Lupion, em seu segundo governo, foi o último a atrasar pagamentos. Quando Ney Braga entrou e desfechou o programa de cunho revolucionário, que mudaria drasticamente o perfil da economia paranaense, ficou estabelecida a data-limite do dia 30 para o pagamento do pessoal. Isso não foi fixado empiricamente sem avaliações de fluxo de caixa, observância do ingresso de recursos fiscais e, consequentemente, das saídas para atendimento de fornecedores, prestadores de serviço e alugueres.
Se a quebra do Estado estava visualizada no afundamento do Banestado e nos atrasos sistemáticos de pagamentos, a mudança da data do ‘‘pay-day’’ (‘‘dia de pagamento’’, lê-se ‘‘pei dei’’, o que é apropriadíssimo), é sinal definitivo, tatuagem. Como há sinais de adoção do Plano de Demissão Voluntária, que viria depois de iniciativas mais suaves como a de negociar corte em salários para evitar dispensas (o PMDB denunciou ontem redução de salários numa indireta, a Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural, Emater), sem falar no confisco dos ganhos funcionais, ilegalíssimos, como se vê pelas liminares concedidas, das novas taxas previdenciárias.



BIZARRICE
O casamento da Brahma com a Antárctica vai ser comemorado com o consumo da Schincariol e da caninha Trivisan

AXIOMA Nos terreiros já não se fala em Tranca-Rua porque isso está inteiramente desatualizado, pois a modernidade criou o Tranca-Estrada.
GLOSA A deserção do governo Lerner é de tal ordem que Aníbal Khury, que nunca teve qualquer expressão eleitoral em Curitiba, virou audiência obrigatória em assuntos da Capital. E a coisa está crescendo tanto que a cidade pode mudar para Khurytiba.
EPIGRAMA O futebol paranaense de ‘‘caixinha de surpresas’’ se transformou numa ‘‘Arca de No钒: o Paraná Clube abre mão de Lúcio Flávio, de 20 aninhos, e ‘‘importa’’ Jorginho e Nélio cujas idades somadas ultrapassam os 70! A bronca é do ex-juiz e advogado anarquista Elíseo Marques.
FILIGRANA Que tal usar a Sula Miranda para dissolver os piquetes dos grevistas caminhoneiros? É uma boa, mas o ideal mesmo, para convencer manifestantes, seria levar São Cristóvão junto.
SPRAY Com a greve (na verdade locaute ou lock-out no caso de empresas) dos caminhoneiros ficou demonstrado, uma vez mais, que o País caminha na anomia, isto é, num perigoso terreno sem referências legais. - A pauta tem coisas boas como a melhora das rodovias e a baixa dos preços do pedágio, criminosos e abusivos, mas outras assistencialistas e à brasileira, como mexer em multas e criar restrições ao uso das balanças. - O pior é que tudo isso - o abuso em nome da liberdade - se dá num momento em que o governo está fragilizado por sua incompetência na condução do processo econômico e social e desmoralizado pelas formas endêmicas de corrupção. - Quem está minado por tantos fatores negativos carece de moral para intervir na questão dos abusos e redimensionar no limite da lei essa atoarda reivindicatória que alcança todas as áreas. - Há um setor atrasado do empresariado carreteiro que é manifestamente contra as balanças, o que já se constatou, desde Jânio Quadros que, com todo o seu autoritarismo, encontrou a máxima dificuldade em regular o assunto. - Do lado caminhoneiro há, no entanto, razão em falhas operacionais das balanças, como acontece aqui no Paraná, onde os registros divergem, o que é um absurdo, diante da existência de órgãos como o Ipem e o Inmetro. - Lerner foi alertado para a possibilidade de uma rebelião de caminhoneiros, parecida com essa de agora, caso se queira impor a tabela corsária do pedágio nos termos em que tem sido especulada. Ficou provado que numa estrada como a de Curitiba-Paranaguá, de pouco mais de 100 km e com duplicação já feita, vai-se pagar mais do que na Via Dutra (Rio-São Paulo), com mais de 400 km. - Lerner só aceitará a revisão tarifária quando houver compromisso de obras novas, entre as quais trechos duplicados, e depois de estabelecida a analogia com outras vias pedagiadas. Aqui tudo estava correndo no sentido da cumplicidade. - A inexistência de veículos nacionais como detêm os gaúchos com a ‘‘Zero Hora’’ seria um fator inibidor para afirmação de nossa identidade? Esse é um dos assuntos que pretendo enfocar no debate de hoje na Associação Comercial para tentar mostrar porque perdemos ‘‘punch’’ na área política, na cultural, na científica e na empresarial.
ANALOGIA Se Jaime Lerner fosse exigente com sua equipe como é o Bernardinho, técnico da seleção feminina de vôlei, as coisas não estariam assim.
FOLCLORE Houve uma certa paranóia quando o governo resolveu recadastrar seus funcionários. Houve quem confundisse o verbo cadastrar com castrar. Mas agora as medidas adotadas na Emater, onde se procura cortar salários a pretexto de salvar empregos, dá para entender que a castração vem aí.
CROMO Está aí: descobri que a hipnose pode vir com uma troca de olhar.
AFORÍSTICO Eles estão ali no Centro Cívico e acabam esquecidos. Mas isso não se dá apenas com os sem-terra. O governo está, em seus três poderes, e até parece que não existe.

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