Luiz Geraldo Mazza
Rompida a inércia
Pelo jeito a Polícia vai intervir com maior firmeza: o ocorrido sábado na Boca Maldita e ontem nas imediações da Copel, em Curitiba, com a remoção dos comerciantes que pedem indenização pelo término de suas atividades, dá a entender que daqui para a frente teremos repressão. Primeiro o governo praticamente estimulou a insubordinação civil com a sua crônica indiferença com a escalada do crime de um modo geral e o fair play irresponsável na questão dos sem-terra e agora, como se despertasse do sonambulismo, parte para as ações violentas.
O caso da Boca Maldita tem uma agravante: todos sabem que aquele local, do qual o governador tem comenda como cavaleiro, é um suposto território livre, uma adaptação tortuosa do Hyde Park londrino, local dos comícios clássicos, desde o de 1950, o maior de todos, de Getúlio Vargas, passando pelos das Diretas-Já e também das últimas campanhas. Quem deve decidir o que fazer com manifestações não é a autoridade formal, mas o próprio frequentador da rua.
Ao agir atabalhoadamente contra o pessoal do PMDB que coletava assinaturas para um projeto legislativo para derrubar as multas (o que faz do partido histórico uma linha auxiliar de Aníbal Khury e de todos os infratores das regras de trânsito) da Diretran, a PM só conseguiu encher a bola da cruzada oportunista, demagógica e populista.
Por que os sem-terra teriam mais direitos do que os sem clientes que perderam seus compradores com o esvaziamento demográfico da área inundada pela Hidrelétrica de Salto Caxias? Afinal, são pequenos empresários e que seguem uma tendência da moda como a dos pescadores de Guaíra, que reclamam indenizações por causa do desaparecimento do cascudo preto em função das explosões das rochas submersas no lago de Itaipu. E teriam menos direitos do que os que mantêm, em que pese a decisão judicial em contrário, em tráfego a Estrada do Colono no Parque Nacional do Iguaçu, e ainda por cima cobrando pedágio?
Estamos numa época reivindicatória. No mundo e no Brasil. Urge que diante disso haja isonomia, tratamento igualitário: se a Polícia vai em cima do pessoal que pede o fim das multas por que permitem que o Aníbal Khury chegue ao extremo de prender guardas da Diretran que multavam veículos estacionados irregularmente no pátio da Assembléia? E se agem com extrema tolerância com os sem-terra, mesmo quando praticam vandalismo no Centro Cívico, por que reprimem com força os comerciantes de Salto Caxias, que pedem indenização? Dentro em pouco teremos a generosidade com os consórcios do pedágio, o que vai completar um quadro que reclama, cada vez mais, a resistência civil.
BIZARRICE
O PT é estepe do PMDB. O PMDB é estepe de Aníbal Khury. Logo, deveriam eleger Aníbal prefeito sem mais delongas. Entre a malta e a multa, pessoalmente ficarei sempre com as multas
AXIOMA Façamos um exercício de silogística: se a imprensa do Paraná fica mais livre quando o governo não paga, a inadimplência seria cívica e não cínica.
GLOSA Fazer da luta contra as multas uma bandeira política não é falta clara de imaginação e, também, de discernimento?
SPRAY Ontem saiu a projeção do Ipardes/IBGE para 2020 no Paraná: seremos 11 milhões 365 mil e 404 habitantes, dos quais 5 milhões e 530 mil homens e 5 milhões e 835 mil mulheres. - Não é, certamente, um projeção fajuta como a que a Copel (graças ao seu poder hegemônico) fez para o Censo de 80: ela calculava 10 milhões, cifra ainda não atingida, quando deu apenas 7 milhões e 650 mil. - Já nessa ocasião, o respeito às normas clássicas levou o Ipardes a aproximações razoáveis com os indicadores do IBGE. - Infelizmente estão esvaziando o Ipardes, especialmente num governo fascistóide que acredita mais no marketing do que no planejamento, e que tem horror a números, daí estar enfrentando a maior debacle da história no setor financeiro. - De nada adianta num governo, que sobrepõe o mito sobre a realidade, saber que a taxa de urbanização chega hoje a 80%, embora não se possa negar méritos a algumas das iniciativas da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e em habitação que ajuda a manter a população no interior. - Ainda agora, com os proclamados R$ 17 bilhões em investimentos, percebe-se que há mais dispensas do que contratações no setor mais estimulado, que é o industrial. - O informe de que a escolarização melhora não surpreende, mas o desafio persiste nas taxas de evasão e são incomparáveis com os de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. - O advogado Paulo Moser, ainda inconformado com as injúrias da propaganda do trânsito, com o uso de animais a pretexto de educar o homem, acha que está na hora do Ministério Público pronunciar-se sobre esse malsinado método de reeducar motoristas. - Passei o fim-de-semana em Santa Catarina: como lá a Globo é da RBS, os eventos locais são mais prestigiados. Tanto que o jogo Avaí x Figueirense desbancou, com a maior naturalidade, o Faustão. Isso se repete no Rio Grande do Sul e vale como tema para sustentar a identidade regional. Está aí algo que leva a comunidade à superação das contingências. Bom tema para O Paraná tem talento.
FOLCLORE Conversa amena na Boca Maldita: um peemedebista, contristado, diz a Roberto Requião que o Luiz Cláudio Romanelli tem um irmão gêmeo univitelino e que isso deixara cada um dos dois com um só rim. Requião cortou o papo com uma de suas piadas distanciadas de afeto ou amizade, dizendo que o pior se dera na parte cerebral, já que o mano do deputado ficara com três quartos.
CROMO Primeiro acreditei que teus olhos fossem verdejantes como as marés do Nordeste e depois apurei que cambiavam e, conforme a luz, eram azulejantes. Como ambos os tons são tidos como tranquilizantes, por que estou assim meio abismado a confundir as matas com o firmamento?
AFORÍSTICO O atrito na Boca Maldita não significa que o PMDB aderiu à linha das barricadas. Está mais para as barrigadas, sejam as do Aníbal ou do Lerner, as primeiras para fazer o tempo e outras para prorrogá-lo.





