Luiz Geraldo Mazza
Uma ordem fundamentalista
A ameaça de uma ordem teo crática não é li mitada àqueles países regidos por sistemas que não admitem a separação entre a religião e Estado. Convulsões como as do Irã ou da Índia, ou mesmo como as que puseram em risco a Argélia, sob ameaça de ser regida por uma falange muçulmana, mostram como situações institucionais, julgadas varridas da história, permanecem como desafio.
Dá para pensar novamente naqueles estudiosos como Vico, que buscaram definir em diagrama o rumo da evolução histórica. O anseio de racionalidade, para não negar que os ciclos históricos podem repetir-se, sugeriu que a figura justa, geometricamente aceitável, era a da espiral, por indicar que a aproximação de cenários não impedia a trajetória ascensional.
Talvez pior ainda do que a indevida associação religião-Estado é o estágio do sistema capitalista nos tempos de globalização e de outras verdades absolutas, como a tal economia de mercado numa ordem que nega a competição, apontada como fundamento liberal na teoria e inexistente na prática. A tendência, em função de uma sociedade militarmente hegemônica, que nega o contraste de sistemas, é - transformar, dentro em pouco, esses conceitos em valores eternos e mais do que isso, numa espécie de verdade revelada.
Como o desenvolvimento desse processo não pode nivelar estágios culturais e de civilização diferenciados aqueles países, como o Brasil, permeáveis às tais modernidades, revelam escassa capacidade de enfrentar essa onda ideológica, na qual embarcou inclusive um pensador por profissão como o presidente FHC. No plano micro, isso é, o relativo a região, a coisa se agrava e percebe-se que é extremamente débil a defesa que se deveria erguer em favor da Copel e de clara restrição à decisão mandamental de privatizá-la. Estranha-se que os quadros de ontem e de hoje da empresa se mostrem acomodados com o que olham como se fosse uma fatalidade, diante da qual, impotentes, nada podem fazer.
Há um documento de copelianos mostrando que os pragmáticos subestimam os efeitos desse neocolonialismo entronizado como única alternativa e que obviamente maltrata aquelas estruturas sociais com desníveis sérios como a brasileira, ou melhor a do chamado Terceiro Mundo, ou até mesmo dos pomposos, tidos como em desenvolvimento, vulnerabilíssimos, como se viu nos casos do México e dos domesticáveis tigres asiáticos. Basta lembrar um dado: a estatal francesa, capitânea do consórcio que ganhou o leilão da Light, campeã até agora de deficiências, deita e rola e ainda por cima impõe a aquisição de know how deles próprios e de equipamentos, sem desprezar um dado relevante na questão dos recursos humanos. O Brasil (e isso seria aplicável ao Paraná) não perde apenas o comando de um processo, mas passa a subordinar-se, como nos tempos coloniais, a imposições para as quais desenvolveu profissionais, técnicas e equipamentos. Um recuo monumental.
PRODIGALIDADE
Antes de Lerner havia mil comissionados, hoje há nada menos de 2.906. Não há Crafe que segure um crack desse porte.
BIZARRICE De Antonio Belinati, prefeito de Londrina, não se pode dizer que alguém lhe deva pedir penico, embora o governo estadual o faça com muita frequência. A ausência de sanitários na prefeitura levou os servidores à manifestação de bom humor do penicaço. O riso, como ensina MoliSre, castiga costumes.
AXIOMA Bom humor, o do Ciro Maria Sobrinho, médico do Tribunal de Justiça. Como no seu serviço a maioria é de coxas-brancas, ele, atleticano, resolveu presentear, prevenindo gozações, cada coritibano com uma faixa de campeão.
GLOSA Os sem-terra não merecem ser demonizados, mas também não podem ser santificados como uma cartilha primária sugere. Também matam e torturam (vide caso da Fazenda Borborema) e agridem o meio ambiente como fizeram no Oeste, derrubando pinheiros e os encaminhando à serraria. Selvageria humana se dá sempre em nome do capitalismo, mas também do socialismo. A coletivização forçada no campo sob Stalin, que matou milhões, é um desses exemplos.
EPIGRAMA Os serviços privatizados, como a telefonia por aqui e a água lá em Paranaguá, pioraram. As teles estão cobrando, como rotina, as ligações não completadas, uma super-safadeza. Um serviço não prestado, mas faturado. E a Analfatel não diz nada?
SPRAY Como estávamos no fundo do poço, a primeira queda do desemprego deste ano em São Paulo (caiu para 19,9%) nem foi notada.- No Paraná, isso em maio e pelo segundo mês consecutivo, houve crescimento do emprego formal de 0,96% o que implica em 12.858 postos de trabalho.- Negando, porém, o que os porta-vozes oficiais sugeriam, na área industrial houve défict, o que comprova que de pouco vale a massa de incentivos concedida como a que contemplou montadoras.- Curitiba ainda às voltas com o desemprego endêmico, que oscila entre 120 mil a 200 mil relativos ao contingente de lúmpens, de favelados, de pessoas de baixa escolaridade.- Informa-se, com insistência, pela cidade que a Rede Globo está com um excelente dossiê mostrando as relações de setores da polícia do Paraná com o crime. O caso de Almirante Tamandaré continua paradigmático, mas revelando na nomeação do delegado Padilha para Capitão Leônidas Marques que a área é tolerante demais e ainda por cima com aguda cobertura política.- Outro incêndio no Porto de Paranaguá, e que atingiu esteiras para carregamento de grãos, reduziu quase a metade a capacidade exportadora do terminal. Ali esses acontecimentos são comuns e nem sempre esclarecidos, como o do silão ao tempo de Requião.- Nos anos 40 houve um incêndio devastador, que durou mais de uma semana: lembro que eu via as labaredas do quintal da casa do meu avô, o Randolpho Veiga, figuraço que em tempo distante fazia serestas com Villa-Lobos, quando este morava na terra.
FOLCLORE Um hacker (corsário de computador, sem mão de gancho) invadiu a página eletrônica do PFL nacional e deixou um recado de homenagem ao Che Guevara. Mas o humor é tão azedo (aliás, é inimaginável uma pessoa bem humorada no PFL) que dá a impressão que o cara não leu a frase-clichê do guerrilheiro e que pede para endurecer, sem perder a ternura.
CROMO Não há peixe// os cardumes sumiram// prevalecem gaivotas e o azul// no anzol salsugem e hipocampos// musgo e águas vivas.
AFORÍSTICO Feliz é o eleitor que esquece em quem votou: afasta o remorso.





