Nada mais adequado, pelo que tem de melancólico e estupor, recitar, depois dos eventos de Brasília, importantíssimos para a democracia, o poema de Carlos Drummond de Andrade ‘‘E agora, José?’’ Que poderia ser dirigido não apenas a José Rainha, mas também ao sociólogo presidente. A festa acabou, a luz apagou: do cenário não se guarda sequer o eco do rumor das massas, embora todos nós queiramos acreditar que depois disso o Brasil não será o mesmo.
Assim pensamos também em várias situações como na resistência em favor de Jango Goulart depois da renúncia de Jânio. A imaginária batalha, que ardia no imaginário das pessoas, não aconteceu e a conciliação, o velho tema de José Honório Rodrigues, predominou. Na verdade quem recuou foi quem estava mais forte, ainda que sem razão, e não quis expor-se adiando para três anos o bote final que viria com a Redentora de 64.
A história brasileira, como na visão de Vico, se dá por espirais: as ações militares, desde especialmente a Coluna Prestes, parecem ter a sua matriz no tenentismo. Tanto que eles vão decidir os rumos do país em todas as etapas, passando pela guerra na Europa (que na verdade preparou a retomada do poder com a destituição de Vargas, a eleição de Dutra, a cassação dos comunistas e do partido, a criação da Escola Superior de Guerra e o fechamento do ciclo com o golpe de 64) com os mesmos personagens nas lideranças como Juarez Távora, Juraci Magalhães, Cordeiro de Farias, Nelson de Mello, especialmente Castelo Branco, tido como refinado intelectual.
Nessa fase de governos civis, com os militares isolados e não mais dispostos a serem seduzidos pelos falsos liberais para intervenções, o de Fernando Henrique é o que tende a ganhar mais consistência, mas em compensação aguçando em termos radicais as nossas contradições. Do dia seguinte dessas manifestações se espera demais de um lado e de outro: nem a reforma agrária será acelerada como no pleito do MST, nem o Brasil deixará de ser dual, muito menos o poder de FHC se reduzirá, em que pese a força da ação oposicionista e também a atuação parlamentar dos que contestam se verificará menos vital do que a processada na via informal das ocupações de terras, das marchas.
O romantismo de Antonio Conselheiro, decepcionado com a República, parece estar subjacente no aspecto voluntarista do MST. Com toda a carga mística que o animava, foi derrotado. A simulação à brasileira sugerirá mudanças que não virão e o conflito da sociedade dual permanecerá latejando: inconciliáveis os padrões e estilos do Brasil novo e do velho, em tensão dialética, até que haja o estouro da boiada seguido da acomodação conciliatória. É o fado e o fardo.
BIZARRICE A agência de notícias Singular teve o seu nome incluido na relação dos colaboradores da revista ‘‘Direção’’, nova publicação oficial da praça. E de fato colaborou, mas não era para sair o nome, daí haver solicitado que se o retirasse. São coisas nossas, como dizia a música popular, nas quais, como se sabe, não há qualquer singularidade. Afinal a imprensa paranaense, já em 1854, 1º de abril, dia da mentira, com o ‘‘Dezenove de Dezembro’’ nasceu oficial. É que publicava também os atos oficiais.
SPRAY Lerner deve mais às circunstâncias e à sorte do que a seus méritos e de sua equipe o encaminhamento de sua entrada no PSDB. Ao parar de falar e de agir, deixou de fazer gol contra. - Essa, no entanto, não é a versão dele e da equipe. E numa reunião de ‘‘brain’’ (secretários mais próximos, prefeito Cássio Taniguchi) achou que tudo está bem encadeado. - Carlos Nasser, ponte entre Maluf e Álvaro Dias, acha que Lerner não emplaca no PSDB e aceita apostas. Façam jogo, senhores. - Último resistente dos tucanos locais ainda é Hélio Duque e que promete sair se ele entrar. Disse que o partido não pode aceitar desonestos. Será que os tucanos pró-Lerner são honestos? - Irritação muito grande na Polícia Militar com a subversão da hierarquia para acomodar politicamente a gratificação: só se saíram bem de capitães para cima. Tenentes e sub-tenentes, aspirantes, sargentos e soldados ‘‘dançaram’’. Mais uma obra da arquitetura justiceira do governo que não deu um tostão para a massa funcional e acertou grupos privilegiados. - A preocupação de evitar repórteres chegou a tal ponto que a apresentação da frota de caminhões de lixo para a Região Metropolitana foi transferida, embora Lerner adore o assunto ecologia. Por sinal que 40% dos detritos metropolitanos são lançados nos mananciais. - Próxima reunião do Codesul vai examinar uma tese diametralmente oposta a do secretário Miguel Salomão, da Fazenda, quanto ao BRDE: a urgência de operar como um banco específico para os três estados relativamente ao Mercosul. - Nasceu Felipe, filho da jornalista Cila Schulman e do publicitário Geraldo de Souza. - O escritório de investigações policiais, contratado pelo Banestado para apurar casos como o das falsificações de guias de ICMS e da Leasing, contou com máximo apoio do presidente Murta Ramalho. -
FOLCLORE Como o STF não condenou a Farra do Boi e não foi mantida a decisão em Araucária de impedir um ‘‘Rodeio Crioulo’’, o advogado e anarquista Elísio Marques concluiu :‘‘ É o efeito vinculante no Reino da Bicharada’’.
CROMO ‘‘Ser sub vivo// ou Sub ser vivo? // Subversivo!’’ Poema de Brasília.
AFORÍSTICO O acaso não tem número às costas e nem veste camisa de clube, mas certamente decide muitos jogos de futebol. E os da política igualmente.

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