Luiz Geraldo Mazza
A árvore e a floresta
Por uma imposi ção didática, volta e meia nos vemos obrigados àquele diálogo da esquerda clássica de não confundir a ár vore com a flo resta, isto é, de não se equivocar na avaliação do todo e da parte, do genérico e do específico. A crise do governo Lerner não é a árvore, mas a floresta, por haver ganho uma tal capilaridade que afeta a totalidade dos setores.
Além da anunciada descarga de laranjas de Cerro Azul no Centro Cívico, temos as manifestações dos transportadores contra o pedágio, dos funcionários ante o confisco da ParanaPrevidência, dos empreiteiros contra o DER e a Secretaria da Educação, dos comerciantes de Salto Caxias diante da Copel; enfim, a bronca é geral e irrestrita.
Como nenhum governo é tão ontologicamente ligado à propaganda e marketing como o de Lerner, dá para lembrar que um dos macetes da publicidade é o de mostrar a árvore como se fosse a floresta: um menino de rua é atendido numa instituição social e o reclame sugere que todos os meninos são atendidos; uma vila rural tenta formular a idéia de que a quase totalidade dos bóias-frias tem essa esperança - a de morar num ambiente de foto colorida de calendário, e vai por aí a fora exibindo uma sociedade com plenitude gástrica, emprego, alegria e, sobretudo, muita esperança.
Pois hoje é raro haver um campo fora da crise, razão pela qual a administração se empenha para evitar o atraso no pagamento do funcionalismo. Se isso ocorresse, seria o caos, o indicador tem componentes fortes na medida em que abrange mais de 200 mil pessoas, amostra que não pode ser desprezada e que já suporta um arrocho de quase cinco anos.
No mês passado isso ficou sob ameaça com o atraso de um dia: o governo, como sempre, apelou para o sofisma ao dizer que o dinheiro já estava à disposição do funcionalismo na noite do dia 30. Foi, de qualquer forma, a evidência de que as coisas poderiam ficar expostas. Não há como, pois, dissimular, fazer confusão ou sugerir que a crise é pontual, localizada, mas sim abrangente e generalizada. Só falta atrasar o funcionalismo porque prestadores de serviço, empreiteiros, toda clientela pública enfim, estão na via crucis do desespero.
BIZARRICE
Quando anunciaram que os produtores de Cerro Azul iriam fazer despejo de mimosas e poncãs diante do Palácio Iguaçu, o distraído observou: O ideal seria o despejo dos múltiplos laranjas deste governo.
AXIOMA Diante do Palácio Iguaçu, um carro com a seguinte frase: Errar é humano e repetir é Taniguchi. Essa frase e o acampamento dos sem-terra mostram a ausência de qualquer respeito pela autoridade do governador. Moleza igual nunca houve na história do Paraná. Não é preciso ser profeta para prever que logo-logo alguém chuta os fundilhos de um hierarca palaciano.
GLOSA Só falta agora o Movimento Sem Terra botar seus uniformes (boné, camisa) no Homem Nu da Praça 19 de Dezembro. Sábado vestiram-no com a camisa do Coxa. Se botarem nele a camisa do PFL ou do PSDB dá revolta.
EPIGRAMA A Copa América deu a Foz do Iguaçu e ao Paraná mil vezes mais efeitos positivos do que os sigilosos Jogos Mundiais da Natureza, que custaram muito mais e que ainda tem credores aguardando o bem bom. Consequência do futebol: a promoção do Pré-Olímpico que está por vir.
Nunca as Cataratas foram promovidas com tanta frequência como agora.
FÁBULA Armando Nogueira contou ontem na TV a cabo que nos Jogos dos Excepcionais um dos concorrentes na corrida escorregou e caiu. Competidores se voltaram para atender o atleta e todos, de mãos dadas, romperam juntos a linha de chegada. O estádio quase veio abaixo. É de arrepiar: é o anverso da natureza agonística (a luta pela vida), a negação da competição, a afirmação extrema da solidariedade e da doação. Para eles, os deficientes, que tanto nos surpreendem com suas lições, normalidade; para nós, o espanto.
SPRAY Pelotão de choque da PM desencadeia hoje operações de saturação em várias áreas da Grande Curitiba para combater as gangues juvenis. O curioso é que o setor de planejamento da Segurança tem, há muito tempo, o mapeamento onde atuam esses grupos de marginais. - Várias mortes, além daquela mais recente do torcedor do Coritiba (houve uma anterior na Fazendinha), estavam a exigir uma nova forma de encarar as gangues que têm sido combatidas apenas junto ao entorno das escolas. - O MST está decepcionado com o fato de que a vinda do ministro da Reforma Agrária era fria, não estava agendada, e pretende permanecer no acampamento por tempo indeterminado. Basta o governo deixar de dar assistência (tratar a pão de ló) e eles se mandam. Afinal a maioria dos presos foi libertada e esse era o principal objetivo. - Enquanto isso, no Oeste, em vários assentamentos, os sem-terra estão depredando o ambiente, devastando a mata, inclusive de araucária, com a mesma naturalidade com que agem os índios nesse particular, aqui ou na Floresta Amazônica. O pior é que a picaretagem reinante busca sugerir que é politicamente incorreto condená-los, como de resto se dá com invasores de áreas de preservação permanente, outra calhordice.
FOLCLORE Um lernerista se queixava da herança de um dia de governo do Aníbal Khury na promessa de que o ministro Jungmann viria aqui dia 22 e frustrou os sem-terra. Os lerneristas, de um modo geral, não enxergam a herança dos quatro anos e meio, dos quais são beneficiários.
CROMO Olho nos teus olhos e mergulho no abismo da hipnose.
AFORÍSTICO Cada povo tem o governo que merece. É o que dizem, e quase como afirmação científica. Ainda bem que o Paraná aí também é uma exceção.





