Luiz Geraldo Mazza
Ainda o triunfalismo
A crise atual, que ao atingir fundamente o Estado - o regional e o nacional - mostra a vulnerabilidade de uma economia dependente de um setor público dinâmico, deveria servir de reflexão para a basbaquice dos que falam em chavões da moda como economia globalizada, por exemplo. O feito em maio da indústria paranaense, como o maior do Brasil em confronto com o ano passado, deveu-se basicamente ao setor químico, no qual o que pesa mesmo é a Refinaria Getúlio Vargas, de Araucária, estatal portanto. Por essa referência se tem uma idéia de quanto um setor público forte como o nosso irriga o conjunto da economia.
Outra fonte de equívoco é visível nessa atitude do Paraná em copiar São Paulo, no caso do Simples e da imposição de que apenas 20% das mercadorias podem ser buscadas em outras praças. A posição do Paraná é meramente política, carece de fundamento técnico, pois o nosso coeficiente de abertura não recomenda o emprego da providência radical que implicaria, isso sim, em estrangulamento de toda a rede de estabelecimentos. O mal é que não temos estudos sistemáticos, como se fazia em passado recente, em várias dependências de governo, inclusive a Secretaria da Fazenda. Como partiu do seu titular, a iniciativa é a prova de que se trata da menos informada.
Fazia-se, como rotina, na área fazendária, o acompanhamento do comércio interestadual, varejo e atacado. Pois essa avaliação pode ser feita com clareza nas gôndolas de supermercados: pelos itens constantes dá para perceber os do mercado interno e os de fora. Santa Catarina, nesse aspecto, tem maior raio de autonomia, apesar das aproximações de estilo, no respeitante ao perfil agroindustrial, com os paranaenses.
Se a medida de São Paulo lembra um pouco da escola romântica da economia, aquela que fundamentou barreiras alfandegárias, e contrasta com o proclamado cosmopolitismo da abertura de Collor e FHC, ela deve estar centrada em razões sérias, devidamente avaliadas. Se aquele Estado, o mais agigantado do País, acaba se rendendo a uma razão de mercado interno (e valor agregado em escala) é porque o blefe ideológico da globalização deve ser olhado com salvaguardas.
E o Paraná deve acautelar-se com o açodamento dos vendilhões que querem queimar os nossos ativos mais importantes (Copel e Sanepar) a preço de banana para resolver um problema de caixa que o próprio governo criou com a volúpia com que se atirou aos recursos públicos. O Banestado já dançou, comido pela cupidez da clientela inadimplente e dos políticos aliados.
Os coveiros do Estado estão excitados, talvez sob a influência da virada do milênio e dos mitos que ela libera sinalizando o fim dos tempos. Quando há triunfalismo num momento desses é de desconfiar.
BIZARRICE
Por que será que só os amigos do peito
levam a melhor no governo?
AXIOMA Destaca-se que a obra maior que Lerner inaugurou foi a Arena do Atlético Paranaense.
GLOSA Para a propaganda não houve licitação, mas renovação contratual. Para a Copel (contrato para a formatação do modelo de venda) também houve dispensa da concorrência.
SEMÂNTICA Quando se diz governicho nem sempre quer significar pejorativo, mas sim governo ligado a um nicho de pessoas e empresários.
SPRAY Quando houve aquela história dos contratos de Pelé e Elba Ramalho no Diário Oficial da União, Jorge Carlos Sade, ex-galerista e 1º tenente reformado do Exército lembrou que políticos são useiros e vezeiros em plantio de decretos. E lembrou da sua reforma, feita com assinatura falsa de Café Filho, então presidente da República. - Ele vem pleiteando, desde 1954, o esclarecimento de tudo em que acusa um grupo de militares médicos de ter urdido o processo. - Faz uma pergunta singela: Por que não fazem a perícia grafotécnica na assinatura de João Café Filho e calam a minha boca? Ela narra que esteve junto com o advogado Sobral Pinto em audiência com Café Filho, e este disse que nada assinara. - O assunto volta a esquentar, pois como o habeas-data foi insuficiente para clarear a questão, a advogada Sheila Bierrenbach entrou com mandado de segurança contra o presidente FHC e que foi distribuído ao ministro Néri da Silveira. - O processo da reforma é datado de 15 de dezembro de 1954 (seria publicado no dia 20) e no dia 19 teve reencontro com Café Filho (a quem conhecera como vice de Getúlio), no baile inaugural do Palácio Iguaçu, e o presidente não o trataria com tal distinção se não estivesse por fora de um ato assinado quatro dias antes. Esses motivos levaram Sade à denúncia da trama e à busca de reparo ante a injustiça sofrida. - Fusão nem sempre é bom negócio, seja em futebol ou em empresa. A havida entre a Auto Viação Catarinense e a Nossa Senhora da Penha redundou em prejuízos aos usuários. Ônibus velhos, desconfortáveis, da Penha, estão sendo empregados. - Funcionários da Prefeitura de Curitiba estão denunciando privilégios a um laboratório e que estaria atendendo, embora não credenciado, ao Programa Mulher Gestante em troca da dívida do ISS. O fato é que o município tem o seu Laboratório Geral da Vila Parolin e que no caso não é usado.
ALEGORIA Como proclamava o Robson, meia-direita do Fluminense: Eu já fui preto e sei o quanto é duro! Queria dizer pobre é claro. A propósito a Seleção atual, a que está jogando, só tem um branco, o Antonio Carlos. É bom lembrar disso, embora as cobranças do politicamente correto, porque anteontem houve o quadragésimo nono ano da derrota para o Uruguai, quando se acusou Barbosa, o goleiro, e Bigode, o lateral esquerdo, de terem sido os culpados. Os dois, negros.
CROMO Ler Werher de Goethe era buscar o suicídio na certa e entrar em baixo-astral fácil com Schopenhauer, Nietzsche e Vargas Vila, como ouvir a música Ramona era tragédia: o carro virava, a casa desabava. E nada de mastigar a hóstia na comunhão que a boca sangrava. E nos dizíamos iluministas.
AFORÍSTICO Raúl Cubas, presidente deposto do Paraguai, vai ser vizinho do presidente da Assembléia Legislativa, Aníbal Khury, este com experiência de deposição, mas não de asilo.





