As ocorrências de ontem em Brasília têm plena acolhida no primeiro artigo da Carta Cidadã de 1988. Ela define a República Federativa na coesão de estados e municípios (sempre ameaçada pela hipertrofia do Executivo, como se vê no caso específico da prorrogação do Fundo de Estabilização Fiscal) e constitui-se em Estado de Direito Democrático que se fundamenta na soberania, na cidadania, na dignidade da pessoa humana, nos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e no pluralismo político.
Na verdade não apenas um, mas toda essa gama de valores está ameaçada pelo pragmatismo de um governo que do Brasil só enxerga a Bélgica e nunca a Índia, como se colocou no ideograma do Edmar Bacha, da Belíndia, ontem reafirmada num documento do IPEA que mostrava que hoje mais de 23% da força de trabalho do chamado setor terciário é constituída de camelôs, consequência da recessão e do subemprego, algo próximo de uma Bombaim. Pois o presidente FHC acha que a Bélgica é maior que a Índia e parece acreditar que a primeira pode contaminar a segunda por osmose, já que pouco empreende para corrigir a defasagem.
Mesmo descontados os exageros do espetáculo e o oportunismo de políticos e de outras categorias que foram surfar na mobilização dos sem terra é de concluir-se que esses atores falam em nome não só dos excluídos de agora como também dos de amanhã, já que não existe esperança de reversão nas taxas de desemprego e formas gerais de descarte humano. O clamor, pois, é não de excluídos inermes que aceitam a fatalidade, mas de gente disposta a mudar o fluxo de uma história que tende, cada vez mais, à desumanidade.
Dos fundamentos desse Artigo 1º, o da soberania é um dos que serve de constante chacota por parte dos ‘‘realistas’’ que parecem levar ao extremo a basbaquice do ‘‘fim da história’’ de Fukuyama, alegando que a sociedade militarmente hegemônica teria removido esse fundamento como não houvesse diferença entre um Estado tutelado e outro livre. Nega-se relevância, por extensão, aos ‘‘interesses nacionais’’ como se estes, numa ordem cosmopolita, tivessem desaparecido. E aí entra o desprezo ao caso da Vale do Rio Doce, justamente colocado no ‘‘mix’’ reivindicatório de ontem.
Da mesma forma não se pode falar em cidadania, em dignidade da pessoa humana e pluralismo político numa ordem hipertrofiada, hostil aos valores do trabalho e da livre iniciativa, como a brasileira e mormente a das Medidas Provisórias. Mas é, sobretudo, o parágrafo único desse Artigo 1º que está presente nesse altar cívico em que se transformou Brasília: ‘‘Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.’’ É a junção da democracia representativa com a direta, uma busca de conciliação com a ágora dos gregos. Como a democracia representativa é traduzida pela avalanche do que pretende é indispensável enxergar que há uma oposição mais forte do que a traduzida na correlação de forças do parlamento e que se identifica na mobilização dos organismos intermediários entre o estado e o indivíduo que são os sindicatos, as empresas, a igreja, enfim as formas de tradução da sociedade organizada de um clamor que o despotismo não esclarecido finge não ouvir.
BIZARRICE Ontem na CBN, hora das chamadas, Fernando Mendonça dizia que nestes dias daria para ver no horizonte o cometa Hale-Bopp. Entrei na sequência e dei o meu destaque: ‘‘o cometa aparece, mas o governador Jaime Lerner está cada vez mais difícil de ver.’’
CHAPA BRANCA O governo perdeu o senso do pudor relativamente à area de comunicação social. Uma revista luxuosa, de badalação, com 114 páginas, chamada ‘‘Direção’’ e ‘‘dirigida’’ (declara uma tiragem de 150 mil exemplares), dominada por matérias oficiais e de grupos ligados ao sistema, e que coloca entre os seus colaboradores no expediente a Singular Agência de Notícias, circula por aí. É muito mais do que metalinguagem. Só falta exaltar a economia de mercado, velho hábito da elite hipócrita. Haja oficialismo.
SPRAY Lerner mostrou habilidade incrível para driblar a imprensa ontem. É de causar inveja a outro coxa-branca, o Alex, o meia que vai para o Parma. - E está pensando em evitar até eventos promocionais para não ser perguntado sobre a sua ida ao PSDB que é considerada por Hélio Duque como infiltração de chupim no ninho tucano. - Uma notícia triste: o falecimento de Luiz Isfer, um dos construtores da antiga rodoviária na gestão Ney Braga em Curitiba. Quem sofre muito é o filho, Marcos Isfer, que perdeu a mãe no ano passado. - O governo paranaense deveria estudar, com maior amplitude, o posicionamento relativo à extinção do BRDE desejada pelos gaúchos. Se pretendemos até ser a sede do Mercosul, como deseja o jornalista Cunha Pereira, dono da ‘‘Gazeta do Povo’’ e da Rede Globo no Paraná, urge refletir melhor sobre o papel que esse banco de fomento regional pode desempenhar em favor das três unidades federativas. -
FOLCLORE Se Álvaro Dias for mesmo para a Telepar aparentemente estará seguro contra grampos, como teria ocorrido anteriormente.
CROMO Brasília, estuário de insatisfações e de encenações, o megacomício fortalece o Príncipe. Ou melhor Luis XIV em versão sociológica.
AFORÍSTICO Lerner pensava em chegar oculto ao Paraná e cuidar de minar bases do PSDB. Cadeira de rodas e muletas dificultam a dissimulação: provocam ruidos e levam seus adversários à rapidez dos atletas para barrá-lo.

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