Luiz Geraldo Mazza
Crise e criatividade
Num dos textos de Leonardo Boff, quando se empenhava como continua dor da doutrina de Joseph Com blin, a Teologia da Libertação, há uma colocação semântica em cima da palavra crise, a qual é associada ao conceito de crisol, aquele cadinho em que se processa a fundição de metais ou ainda aquilo em que se apura os sentimentos.
Costuma-se dizer que Lerner estava habituado a gerir com sobras de recursos nos seus três períodos de prefeitura. Transformado em garoto-propaganda do regime militar por seus feitos urbanísticos, era prestigiado com uma avalanche de recursos, boa parte deles a fundo perdido. A maioria dos que votaram nele acreditava que, embora atuando num módulo maior, e de máxima complexidade, se sairia bem por sua proclamada criatividade. Só que o seu staff calculou mal em cima do cenário de moeda estável e que retirara a inflação, fator de correção de fluxo de caixa.
O mais grave é que abusou nas ideações, algumas idiotas como a dos Jogos Mundiais da Natureza, típica de sua cabeça não conformada a números e a custos financeiros; outras temerárias como a dos Anéis de Integração, na verdade apenas de entregação para cupidez de um setor insaciável e que vai lhe exigir o absurdo em termos de atrasados. Um mínimo aí de R$ 46 milhões, bem vitaminado para haver sobras na campanha eleitoral no ano que vem. Mostrou um entusiasmo juvenil pelos novos investimentos, de R$ 16 bilhões, que não irrigaram a economia e o mercado de trabalho, ao menos conforme a expectativa criada na propaganda triunfalista e irresponsável.
Lerner voltou da viagem a Argentina e já se refugiou no Chapéu Pensador para ouvir a óbvia sentença de que o Estado quebrou, razão pela qual viaja hoje a Brasília para ver se a União deixa de tratar o Paraná como enjeitado, o que tornaria dramático o fechamento da folha do funcionalismo de julho.
Ora, é justamente na crise que se testa a criatividade: aqui a gastança teve continuidade como se não houvesse soado o alarme. Como as pessoas que mais ouve são os pragmáticos, para usar expressão educada, os conselhos são os mais terríveis como o da venda já, sem mais tardança, da Copel e Sanepar, mesmo com o mercado em baixa. Não fosse tão festiva a equipe governamental, o caso seria de fazer analogia com peças shakespeareanas como Rei Lear ou Tímon de Atenas. É que o traço bufo afasta a linha densa da tragédia.
BIZARRICE
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AXIOMA Em termos de presidenciáveis, não dá para comparar a performance de Mário Covas (SP) com Lerner. Covas pegou o Estado quebrado, Lerner não. Em pouco mais de quatro anos, Covas pagou R$ 1,5 bi de precatórios. Nos oito anos anteriores, SP pagou apenas R$ 1 bi. Lerner botou o PR em pacau de bico.
GLOSA Aníbal Khury, em apenas um dia de governo, assinou promoções na área de segurança, que é dele há muito tempo, abrangendo policiais civis e militares. Dá para imaginar o que fará se completar o mandato de Lerner. O Legislativo poderia ser tocado por 400 servidores e tem 8 mil.
EPIGRAMA Se a palavra já contém ágio, imaginem como será o pedágio a ser anunciado por estes dias.
SPRAY Com a Medida Provisória 1.858, FHC põe em risco o sistema cooperativista do País ao impor a revogação da isenção do Cofins e PIS. - O modelo paranaense de cooperativismo, dos mais competentes do País, deve sofrer um duro golpe, o que terá efeitos danosos ao conjunto da economia paranaense. - País que é dirigido e monitorado de fora, via FMI, abre mão de todas as autonomias. Se com incentivos o setor sofre com o cerco das multinacionais (caso da Batavo é bem ilustrativo), dá para imaginar como se tornará vulnerável sem benefícios. - Com a situação como está, há crise no setor, bastando dizer que a Coamo, a maior cooperativa do País, aparecia em terceiro lugar no ranking empresarial em 97 e em 98 caia para oitavo lugar. - O Paraná está por baixo mesmo: todos abusam e rolam suas dívidas (o último foi Santa Catarina que teve sua dívida previdenciária de quase R$ 700 milhões federalizada) e nós nada conseguimos. Vejam a representação dos outros, mesmo a de catarinenses com o senador Bornhausen e um governador duro de combate, e a nossa e teremos explicação. - Hoje, por exemplo, o governador vai a Brasília tentar algo. Nem parece que FHC esteve tantas vezes por aqui para inaugurar Vila Rural, montadora e também a Usina de Salto Caxias. Pressionar é preciso: bota o Carvalhinho pegando no pé do governo federal que vem a solução. - O primeiro governador que esteve no Hotel Fazenda Quintas de Bocaiúva e almoçou no Restaurante Sabores do Campo, do jornalista Cícero Catani, foi Aníbal Khury, acompanhado de Dona Niva. A primeira vez que ele esteve lá foi como presidente do Legislativo e levou presentes como alguns carneiros e um saco de pinhão. - Alegria de pobre é ficar feliz com a desventura dos ricos e remediados: ontem, em Curitiba, falava-se na intimação de um empresário pela Polícia Federal e a prisão preventiva de outro. A segunda era fria. Mas a torcida prosseguia.
FOLCLORE Quando saiu a notícia de que a Secretaria de Administração iria cadastrar o funcionalismo estadual, o clima era de tal ordem e pânico que se pensou que a intenção era castrar. Um barnabé, meio filósofo, disse: Olha, depois do que já nos fizeram isso seria chover no molhado.
CROMO E dessa secretária do Lerner que se alimenta de pétalas de rosas, quando tensa e nervosa, o que dizer? Seria apropriado cortejá-la com flores que na sua boca, sob mastigação delicada; não deixaria de ter efeito decorativo.
AFORÍSTICO A primeira constituição (Carta Magna), de 1215, foi do rei João Sem-Terra, da Inglaterra. Sem-terra apenas no nome porque reinava.





