Luiz Geraldo Mazza
Além das sabinadas e balaiadas, de um ou outro episódio mais sangrento como a revolução federalista e a insurgência da Coluna Prestes, o que normalmente acontece no Brasil é o molho de tomate substituir o sangue. O que ocorre agora em Brasília é a maior prova disso: nem os sem-terra ignoram que inexistem recursos para assentar 500 mil famílias, nem o governo se dispõe a avançar na direção da reforma agrária pela simples circunstância de que os seus retornos não satisfazem qualquer perspectiva econômica de médio prazo nem para atender esses interessados e muito menos, numa visão mais ampla, o Brasil.
E é o horror ao arcaísmo da pobreza, ainda mais para um governo que só vê a modernidade nas privatizações e na internacionalização da economia, que leva FHC a subestimar a força do carisma do MST, a única e verdadeira oposição organizada no país, na qual a CUT, o PT e outros menos votados tentam surfar. E no interior desse, que é o maior movimento social das Américas, em que pese a sua coloração primária, decorrente de sua informalidade não clandestina, há a linha dominante da Igreja, da CNBB, e curiosamente de uma ala indesejada e até combatida, a da Teologia da Libertação, o que lhe aumenta o heroísmo e lhe concede a dimensão do martírio.
A forma como se dá o processo de ocupação de terras no país, além de legitimar a informalidade (não a revolução e nem a clandestinidade porque o processo se dá por gravidade com o público se colocando a favor dos pobres, o que decorre também do nosso cacoete melodramático, e a própria justiça se batendo na interpretação das lesões a direitos patrimoniais), está, como tenho dito, mais próxima de uma gincana do que de luta focal, como militares de 64 olhariam a questão. Como não há meios de atender o que se pretende, e é colocado ruidosamente nas palavras de ordem dessa marcha, ela não terá a força pretendida equivalente ao do movimento das diretas já que também, não esqueçamos disso, foi gloriosamente derrotado no parlamento, ainda que desse a base para a vitória no Colégio Eleitoral de Tancredo sobre Maluf, candidatura alternativa do sistema, pois o postulante dos militares era Andreazza.
Se o público é favorável aos sem-terra, embora contra invasões, é também muito claro que não se ajusta à oposição a Fernando Henrique. E esse é o nó da questão: como valorizar a luta no campo informal sem ferir as regras do jogo democrático e do Estado de Direito?
Isso, que pode parecer um avanço, na verdade consagra o imobilismo: há limites na capacidade de intervir nos acontecimentos, tanto do governo quanto dos sem-terra. Agito, auê, discurseira, cenas de espetáculo nem sempre mudam a realidade. Aqui no Paraná, em 1961, o prefeito general Iberê Mattos armou o povo e fez milícias para garantir a posse de Jango. Meses depois, a despeito de ter sido aqui um simulacro de Brizola, que berrava na rádio e mobilizava até o IIIº Exército, foi candidato a deputado estadual e ficou na oitava suplência do PTB.
BIZARRICE Do advogado e anarquista Elísio Marques: Brasília, nessa semana, está em clima de Tomada da Bastilha (Danton já foi entronizado no STF).
SPRAY Rafael Greca é um Requião com pós graduação na incontinência verbal: no contacto em Brasília com a bancada federal, em jantar no Francisco, deu algumas cutucadas em Cássio Taniguchi e prometeu ser candidato contra ele no ano 2.000. Deve ter consultado não a bola, mas uma bôlha de cristal. - No mais se saiu bem quanto a aspectos de responsabilidade técnica no assessoramento à bancada por uma agência de acompanhamento com mais massa crítica. - Consta que a APP-Sindicato teria enviado 22 ônibus para o auê contra as reformas (assunto-chave é a estabilidade que dificilmente deixará de cair) em Brasília. - A ideologização do noticiário é um fato: a morte dos dois sem terra de Pinhal Ralo por bebedeira não saiu nos jornais. O que tem charme é conflito entre proprietário e invasor e entre polícia e sem terra. Quando das mortes de crianças na área invadida e que levaram o Ministério Público a cobrar dos pais a responsabilidade pelo abandono das vítimas o fato veio a público mais pela reação da autoridade do que pelo fato em sí, também relevante. - Sai no Diário Oficial de hoje a promoção de 14 juízes substitutos para comarcas de entrância inicial: Suzana Massako Hirama, de Iporã para Tomazina; Marcos Schiebel, de Colombo para Tibagi; Marília Yoshida, de Assis Chateaubriand para Grandes Rios; Gisele Lara Ribeiro, de Castro para Catanduvas; José Orlando Cerqueira Bremer, de Cruzeiro do Oeste para Andirá; Cláudio Camargo dos Santos, de Toledo para Centenário do Sul; Décio do Rosário, de Cornélio Procópio para Quedas do Iguaçu e Adriana Ayres Ferreira, de Guaíra para Altônia; Ana Paula Accioly Rodrigues da Costa, de Telêmaco Borba para Matelândia; Everton Correa, de Wenceslau Braz para Chopinzinho; Álvaro Rodrigues Júnior, de Bela Vista do Paraíso para Palotina; Priscila Araújo, de Campo Largo para Santa Helena; Antonio Carlos Schiebel Filho, de Laranjeiras do Sul para Capitão Leônidas Marques; Fabiana Silveira Karam, de Campo Mourão para Barracão.





