A omissão missionária
Lerner queria reformatar o Estado e, para não sofrer os ônus daí decor rentes, tentou passar a respon sabilidade ao Legislativo: seu líder, Valdir Rossoni, chegou a anunciar o enxugamento das secretarias com a redução de pelo menos a metade delas. Quando percebeu que a coisa fermentava, Lerner, ao desembarcar em Londrina, desautorizou o deputado que orientara.
Adepto do morde e assopra, o governador tinha identificado a necessidade de fazer um corte radical no funcionalismo. Essa tarefa estaria embutida também na tal reforma do Estado, mas quando pensou nos efeitos políticos, hesitou e deu ordens em sentido contrário.
Por suas omissões, o MST teve crescimento artificial no Paraná, animado com as invasões no Noroeste, que se tornavam cada vez mais frequentes, enquanto ele, governador, opunha-se a cumprir as decisões judiciais com medo de criar mártires e assumir as consequências políticas do gesto. Tentou fugir à responsabilidade da questão, já decidida, do aumento do pedágio, esperando da Justiça um pronunciamento do Tribunal Regional que, de qualquer forma, aparentasse eximí-lo das responsabilidades, quando foi o autor do corte linear de 50% para evitar o desgaste eleitoral inevitável.
Quando apareceu a sua trigésima viagem ao exterior, sabendo da decisão de Aníbal Khury, que o substituiria, de desocupar o Centro Cívico dos sem-terra, caso contasse com decisão judicial apropriada, Lerner dissimulou contrariedade com a determinação do presidente do Legislativo, que entende como desmoralizante a manutenção do acampamento, ainda mais com as construções de madeira. Pendular como todo hesitante, sem determinação, Lerner esperava que acontecesse algo em sua ausência para também eximir-se de responsabilidades. É um missionário de todas as omissões e, caso procedida a desocupação do Centro Cívico, não teria outra saída, em termos de honorabilidade pessoal, que não fosse a renúncia.
Incapaz de governar na crise (porque fazê-lo em quadra sem riscos, como se deu quando estava na prefeitura da capital e havia recursos de sobra, também a fundo perdido, é facílimo), o governador não sabe o rumo a tomar: seu plano de emprego com os investimentos externos deu em nada, o Estado quebrou em suas mãos e seu último empenho é ‘‘queimar’’, além do Banestado, a Copel e a Sanepar.



GLOSA
Se viajar na maionese desse salmonelose, alguns dos nossos políticos estariam perdidos.

BIZARRICE O governo, embora esteja em novo mandato e portanto nada tenha a ver com o anterior, decidiu prorrogar os contratos de propaganda da licitação anterior. Só que como limpou os cofres, vai esperar a compreensão daqueles que foram beneficiários do festival de prodigalidade.
AXIOMA Desde sábado passado falava-se na desocupação do acampamento sem-terra. Eis que no final da semana, pela manhã, apareceram unidades do Exército e que iam ali para preparatório físico de corridas. Um sustinho. Ontem à tarde, em hora imprópria, pois faltava menos de uma hora para as 6 (prazo fatal para cumprimento de ordens judiciais), veio a determimação da Justiça para a pronta desocupação da praça.
SPRAY Apesar da decisão do juiz Rui Portugal Bacelar, em pedido do Estado e do município para que os sem-terra deixassem o Centro Cívico, o governador Aníbal Khury (em exercício) fez suspense, negociou com os lavradores a sua permanência no local até o dia 22, quando o ministro Jungman virá a Curitiba. - Com isso, já que existe decisão judicial, passa a ‘‘batata quente’’ outra vez para Lerner em troca do compromisso do MST de não dar caráter permanente ao acampamento. - Aníbal também não tem esse perfil de durão: numa das greves de professores, a de 1988, permitiu, como secretário da Assembléia e com o apoio do presidente Antonio Anibelli, a invasão do Legislativo pelos grevistas que lá permaneceram por mais de uma semana. - Como se vê por aí, não é tão leonino quanto prometia certamente para mexer com os brios do governador e fazer média com o MST, como fez anteriormente com o pessoal da CUT na parede do magistério. - Recebi fax com nota fiscal de exportação de gasolina da unidade de Araucária para o Paraguai ao incrível preço de R$ 0,247282. - Liminares contra a CPMF caem todas no Tribunal Regional de Porto Alegre. Mas na semana passada, um escritório de Paranaguá (Carvalho, Elias & Leandro Advogados Associados) obteve liminar do juiz federal Guy Vanderley Marcuzzo, da 2ª Vara Federal, em favor do próprio escritório. O advogado Fabiano Vicente Venete Elias, filho do ex-prefeito de Paranaguá, é o autor da ação. - O pedágio (aumento de 80% para caminhões e de 100% para veículos de passeio) vai ser o empurrão final de Jaime Lerner no tobogã do descrédito. - Se esse não é o signo de Antonio Belinati, por que insistem tanto em chamá-lo de ‘‘Escorpião’’? - Mais de 10 mil pessoas estiveram na 9ª Festa Nacional do Carneiro no Buraco em Campo Mourão. - Uma secretária do governo, quando fica tensa e nervosa, sabem o que ela mastiga? É isso aí: pétalas de rosa. Sem tempero. Uma flor comendo outra.
FOLCLORE No Rio Grande do Sul, entre as muitas lendas políticas, há uma saborosa e que exalta o amor à forma, ao linguajar técnico. Ascensoristas do Legislativo não conseguiam aumento e eram até desprezados. Foi quando um gênio ‘‘sacou’’a saída: deu novo ‘‘status’’ à categoria, denominando-a de ‘‘operadores do transporte vertical’’, como se fossem quase astronautas.
CROMO Ninguém estaria mais feliz com a conquista do Coritiba do que minha irmã, Alba, torcedora-símbolo, se estivesse viva. A fantasia do futebol lhe dava asas em sua cadeira de rodas.
AFORÍSTICO Aníbal deu mais um tombo na dupla Lerner e Cassio, com essa estória dos sem-terra e do seu acampamento. Jogador de sinuca sabe o que faz.

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