Luiz Geraldo Mazza
Democracia e democratismo
O Brasil é sabidamente um país de vocação autoritária (patriarcado rural, pacto governo-empresariado), capaz até de aceitar um dos fundamentos da democracia, o da liberdade, mas ferozmente hostil à igualdade, em qualquer dos seus parâmetros. A cada represamento das liberdades (Estado Novo que só veio a cair por causa do fim da 2ª Guerra e o pós-64) se seguiu um momento de excesso nas práticas de cidadania. Daí o fato de ter surgido a Constituição de 1946, um dos monumentos ao equilíbrio - entre o econômico e o social, rasgada, de forma nada discreta, com a cassação dos mandatos parlamentares dos comunistas, que decorria da instalação da guerra fria, desde a partilha dos despojos dos derrotados, estabelecendo uma geopolítica de risco.
A esquerda tentou emplacar avanços como o do voto aos analfabetos e aos soldados e praças de pré (a ilusão insurreicional de uma rebelião de sargentos vai aparecer em 64) e o fim do Senado como câmara revisora. De sua pressão, no entanto, como a participação nos lucros, vieram a intervenção do Estado na economia (a lei anti-truste, que daria origem ao Cade, de Agamenon Magalhães) e o trato da questão agrária e na posse da terra com o usucapião pro-labore, que permitia a outorga da escritura com dez anos de uso manso e pacífico da propriedade com morada e cultura.
Tirando esse aspecto sombrio da cassação dos comunistas, combatida com fervor pelo liberal Munhoz da Rocha, a nossa maior figura parlamentar, havia um bom nível de liberdade e de mecânica institucional. Essa UNE, que está aí hoje, primaríssima, não é nem pálida lembrança daquela que atuava no processo e nos seus congressos palpitava a geopolítica bipolar internacional.
Depois de exaurido o processo de 64, já com o funcionamento das organizações intermediárias (a sociedade organizada, como se diz), caímos no extremo do assembleísmo e democratismo. Haja plenária para discutir as coisas mais elementares, invasões de prédios (é histórica a derrubada dos muros do Palácio dos Bandeirantes no governo de Franco Montoro) e acampamento de sem-terra no Centro Cívico juntamente com professores em greve. O PT, o melhor produto desse processo, ainda se rende muito a essas deformações que lembram aquilo que se dizia, entre os teóricos clássicos, do esquerdismo, doença infantil do comunismo.
São, a meu ver, dores do parto de uma democracia que remove algumas das raízes desse autoritarismo. Em que pese a necessidade de o MST, por exemplo, manter o governo sob pressão, suas ações lembram autoritarismo e muito daquilo que as brigadas fascistas praticavam como regra.
AXIOMA Do PT do Paraná não se pode dizer, como se fazia no passado, que tenha origem nas estepes russas. É que hoje, aqui ao menos, é um estepe do PMDB.
GLOSA Lerner pediu para o seu líder no Legislativo que iniciasse a pregação da reforma estrutural do Estado (redução de secretrarias) e enxugamento dos quadros funcionais. Bom soldado, Rossoni deitou falação e à tarde, anteontem, em Londrina, Lerner o desautorizou. JL é abreviatura de Jerry Lewis.
SPRAY Segundo consta, já está atuando nas instalações da Hidrelétrica de Segredo uma consultoria norte-americana (acertada, sem licitação) para definir a modelagem do processo de venda da Copel. - O silêncio daqueles que têm posição contrária à privatização facilita as ações do governo pródigo que quebrou o Estado. Mas vai haver reações no âmbito judicial e denúncias na área política. - Há um dossiê mostrando que os riscos são de descapitalização interna porque a estatal francesa, por exemplo, que capitaneou o consórcio que ficou com a Light do Rio, determinou que equipamentos fossem importados da matriz, quando existem no Brasil e importou profissionais, dispensando os brasileiros. - Noite dessas uma autoridade estava tão alegrinha no Bar da Brahma que parecia comemorar, como se fosse parte, a fusão com a Antarctica. - Tese do dirigente do HSBC querendo horário nos bancos das 8 às 18 horas restabeleceu polêmica. Para os bancários, profissão em extinção, é uma boa pela circunstância de que teríamos mais vagas para uma segunda jornada. - Maçonaria: Jaudê Ricardo Loures Rocha foi reeleito para o comando do Grande Oriente do Paraná. - Depois dos golpes que tem recebido (amanhã o secretário Giovani Gionédis, da Fazenda, que não é do ramo, vai tentar renegociar a nossa dívida em Brasília) o Paraná está ameaçado de levar outro: a perda da representação do Banco Central. - Levando em conta que a União é madrasta e com os atos de proteção à Bahia no caso do Pólo Automotivo e mais esses, FHC manda para o espaço o pacto federativo. Isso vai dar argumentos para os fascistóides que brigam contra o Nordeste com o slogan O Sul é o meu País. - Melancolia é constatar que as empresas paranaenses estão indo pelo ralo: a Todeschini se viu obrigada, anteontem, a leiloar 20 toneladas de massas para pagar uma dívida trabalhista. - Acampamento sem-terra reavivou a tese de que é preciso cercar os palácios, o que afronta a prática atual, já que aqueles espaços são usados pelas crianças em skate e patins e no gramado um pouco de pelada.
FOLCLORE Lerner se irritou com um repórter que lhe perguntou se ia ajudar o time de basquete de Londrina (Grêmio) argumentando que já se referira três vezes ao assunto e que buscaria apoio na iniciativa privada. Para o time de basquete feminino da Hortência ele dava R$ 100 mil e para o Grêmio R$ 20 mil.
Cinco vezes mais para São José dos Pinhais, onde a Renault poderia ter ajudado.
CROMO Uma cadeira vazia no bar: o arquiteto Sola, de Cambé, se foi e com ele as emoções com a arte, seus vídeos e músicas. Tão só e nos deixa.





