Cumplicidade e bobeira
Aníbal Khury, presidente da Assembléia Legislativa e que está para assumir o governo na ausência de Lerner, já declarou que, se tiver uma decisão judicial que o autorize, remove o acampamento sem-terra do Centro Cívico. E disse mais: quando a tolerância é excessiva, o que se dá neste caso de vandalismo no centro do poder, ela se aproxima da ‘‘bobeira’’. Mesmo pessoas que defendem a reforma agrária como imposição social acham inaceitável a manifestação selvagem e apóiam a remoção urgente dos manifestantes por seu tom desmoralizante e provocativo.
Pois se Aníbal Khury remover o acampamento, a Jaime Lerner não há outra saída que não a da renúncia. Se é desmoralizante a presença dos sem-terra que se nutriram da omissão do governo, especialmente no Noroeste, na exibição circense diante dos três poderes constituídos, maior ainda será uma atitude da parte do governante interino que em poucos minutos decide uma pendência que se arrasta há meses, pela cumplicidade do chefe de Estado. Uma imposição de honra obrigaria Jaime Lerner a renunciar.
Acontece que as coisas não são singelas assim. O pacto político-empresarial que elegeu Lerner tem um cronograma denso pela frente com a liquidação do Banestado e a privatização da Copel e Sanepar, um chuva torrencial de recursos que não pode ser minimizada. Além do mais, tirando o delírio presidencial em que ninguém acredita, a não ser os áulicos e os anedoteiros, o destino do PFL, que busca se consolidar em escala regional, dependeria de Lerner, tanto que ontem o governador se viu obrigado a servir de padrinho da conversão de Antonio Belinati em Londrina ao novo e fisiológico credo.
Foram razões dessa ordem que levaram intermediários a pedir, pelo amor de Deus, que Aníbal Khury não cumprisse o que está prometendo. Intervenientes teriam feito o apelo em nome do próprio governador que diz ter razões muito sérias para não agir e dessa forma não atrapalhar também o diálogo de FHC, de anteontem, com o MST, e no qual houve apreciáveis avanços. Segundo o raciocínio, as decisões presidenciais, já acordadas, teriam efeitos práticos expressivos no Paraná sem necessidade de desgastes políticos.
Há coisas que são inegociáveis: o abuso das construções de madeira no Centro Cívico é uma delas e que a tintura ideológica e fundamentalista não consegue dissimular como um simples ato de vandalismo, dos mais primários, como o dos quebradores de orelhões, de arborização e de lâmpadas. Dignos das gangues e das torcidas organizadas do futebol.



AXIOMA
O jornalista Gonzaga de Mattos sacou uma excelente: um decalque no carro de Lerner com os dizeres ‘‘Como estou dirigindo?’’. Só falta acrescentar a resposta: ‘‘O carro, mais ou menos’’

BIZARRICE ‘‘O Paraná tem talento’’, diz a campanha institucional. Só que um dos anúncios da Prefeitura de Curitiba, na questão do trânsito, tem um testemunhal narrado por uma repórter de São Paulo. Aliás, os anúncios da melhor fase do Bamerindus eram feitos, também, por criadores paulistas, ainda que assinados pela ‘‘house’’ Umuarama.
GLOSA No retorno da Argentina, onde vai representar o presidente FHC, Lerner finalmente vai tomar posse do governo, depois de quatro anos e meio de intensa (e mais do que nervosa) hesitação, o que é humanamente compreensível.
PARADOXO O vereador Dino Almeida tem projeto que cria a Casa dos Meninos de Rua. Por enquanto ficaremos assistindo os meninos de rua sem casa.
SPRAY Vai ser criada mais uma associação, a dos credores do governo. Terá mais sócios do que a Associação Comercial. - A impotência do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) no caso das construções irregulares no Alagados (Ponta Grossa) tem sua razão de ser: gente grossa de todos os poderes possui casas por lá, e há até um funcionário que tem uma garagem de barco. - Por falar nisso, o IAP não se mexe contra os abusos de propriedades nas margens do Rio Iguaçu. Em Fluviópolis, um proprietário fechou a área impedindo o trânsito ‘‘servidão de passagem’’ dos pescadores, o que só traz prejuízos à região. Em Vila Palmira, também está havendo coisa parecida, mas pelo menos preservaram a circulação nas margens. - Tortura em Campo Largo: urge lembrar aos secretários de Segurança e de Justiça, ambos advogados, que isso é crime irremissível na Carta de 88. Não apenas para a tortura com charme (a política exercida contra resistentes e os sem-terra, por exemplo), mas também abrangendo a usada como rotina contra os pés-de-chinelo. - O governo caloteiro, o do Paraná, claro, comprou 350 ambulâncias da Brasil Trading da marca Kia e pagou com repasse federal de R$ 9 milhões e deixou um saldo que com correção e juros subiu para R$ 2 milhões. Vai pagar em quatro prestações de quinhentão. - O escritor Jamil Snege, hoje com 60 anos, autografa na Livraria Milenium seus livros ‘‘Como eu se fiz por si mesmo’’ (sugeriram que era uma autobiografia do Tony Garcia, a quem assessorou politicamente com extremo sucesso) e ‘‘Viver é prejudicial à saúde’’. - O tráfico de influência é fogo: Secretaria do Meio Ambiente tinha desistido de derrubar árvore (plantada pelo gênio da educação, o sábio Erasmo Piloto) do jardim da casa do escritor Roberto Gomes. Pois alguém influente nesses canais anulou a decisão e vão derrubar a tipuana. A agressão é à memória de uma das figuras mais importantes da nossa história cultural. Com isso perdem o direito de exigir respeito dos sem-terra em seu acampamento.
FOLCLORE Dizia o Rubinho Ferreira: carreira de políticos como Belinati e Lerner lembra um rio, cuja cabeceira o define melhor do que a foz. Voltam de onde vieram, da Arena e do PDS, enfim ao leito comum.
CROMO À noite estrelas e vagalumes, que cintilam, se tornam iguais, ao menos aos olhos espantados das crianças.
AFORÍSTICO A praça não é mais do povo como o céu já foi do condor. É dos sem-terra e a maioria da população se transforma em os ‘‘sem-praça’’.

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