Luiz Geraldo Mazza
Lerner decidiu não prolongar a sua estada no exterior. Quando retornar, o que deve acontecer hoje, não cantará certamente o Voltei para ficar porque aqui, aqui, é meu lugar do Roberto Carlos porque estará em dúvidas quanto ao grau de hostilidade e de sofrimento que padecerá por permanecer no posto. Alguns dos seus áulicos, diante da carga dos últimos dias, querendo expressar solidariedade, chegaram a mostrar compreensão pela renúncia de Jânio Quadros em 1961.
Mas também não exageremos: o governo inerme, parado administrativamente, e frágil e indeciso politicamente, incapaz de criar algo que não esteja ligado ao passado de urbanista ou de decantar outra coisa que não seja a chegada de investimentos externos no momento em que as empresas da terra quebram ou são absorvidas, ainda tem quase dois anos de mandato, o que poderia abrir espaço para a reversão.
Se ficar no PDT, será pressionado por Brizola a acomodar-se na oposição junto às esquerdas e contra FHC que tem tudo para ganhar fácil a reeleição. Se sair do PDT já sabe que tem a porta fechada do PSDB. Não bastasse tudo isso ainda vai ter que dar resposta ao ultimato dos líderes (Aníbal à frente) de sua base parlamentar que pedem reforma do secretariado, mexida no Banestado e derrubada dos biombos que bloqueiam o acesso parlamentar.
No front interno ainda tem, afora os casos da Leasing Banestado muito mal explicados, essa trombada entre o secretário de Educação, Ramiro Wahrhaftig, e o grupo que toca o projeto de educação avançada na Universidade do Professor, o desmantelamento da área de segurança (a ação dos vândalos pós-futebol revela a impotência do setor já revelada na ascendente taxa de criminalidade), a derrota no caso da subestação da Renault diante de singela ameaça do Tribunal de Contas. Enfim é fermentação demais para um governo sem determinação e incapaz de conter-se na volúpia do gol contra.
BIZARRICE Bastou haver a greve dos gráficos, semana passada, na França, contra a redução das verbas oficiais aos veículos para que alguns apressados tentassem estabelecer analogias com as nossas práticas. Lá a relação é madura e não de conveniência e conivência. Aqui, dos nossos meios de comunicação se pode dizer tudo menos que praticassem subversão. Aqui há mais subvenção.
SPRAY Toma cá, dá lá funciona a todo o vapor na CPI dos precatórios. Outro dia Kleinubing e Espiridião Amin negaram andamento a um pedido da CPI de Santa Catarina de documentos sobre o assunto. A presidente da CPI estadual, que é do PT, sugere que tanto Espiridião como sua esposa Ângela, nas campanhas para o governo e a prefeitura de Florianópolis, podem aparecer entre beneficiários. - O pleito do senador Suplicy para que se ouça governadores, como convidados, e os prefeitos que emitiram títulos esbarra em parte nessas acomodações. Daí as dificuldades ontem captadas na hora em que se discutiu essa convocação. Outra notória acomodação, inclusive da imprensa, é a proteção concedida a Miguel Arraes, um dos visados e envolvidos na questão dos precatórios. - Um ponto de convergência dos que defendem o espírito da federação contra os riscos de restabelecimento da República Unitária (e a avidez do governo FHC nesse sentido é notória) é a luta contra a prorrogação do Fundo de Estabilização Fiscal. Estados e municípios lembram neste momento as figuras dramáticas dos flagelos da fome na Etiópia e no Zaire. Ainda assim o governo federal quer mamar mais para equilibrar as contas que ele próprio descontrola. - A idéia de transferir clássicos de futebol de Curitiba para o interior foi proposta no sentido de abrandar a violência dos vândalos. A fórmula deu certo em São Paulo, mas aqui isso não aconteceria, pois não temos clubes com imagem nacional e muito regional em caráter abrangente. O trio de ferro daqui não atrairia ninguém no estádio do Café ou no de Maringá e Paranavaí e muito menos no oeste-sudoeste. Responsabilize-se a polícia e pronto. Ela que cumpra o seu papel mínimo tanto na prevenção quanto na repressão. Nesta pode ser enérgica sem reprisar a síndrome de Diadema. - O extra-teto caiu, mas isso não garante a aprovação da reforma administrativa. Fisiológicos acham que foram usados para que o presidente salvasse a sua imagem. - Transferência da Convenção de Supermercados de Foz do Iguaçu para Curitiba está sendo explorada politicamente no oeste e contra Lerner como se ele fosse o culpado da crise que atinge a indústria hoteleira. Prova de que não tem lideranças da região para defendê-lo.
PARADOXO O governo Lerner vai para a história como aquele que abriu mais o Paraná para a economia internacional. Em contrapartida será aquele em que mais empresas paranaenses terão desaparecido ou sido absorvidas.
FOLCLORE O PPB está anunciando uma aliança branca com o PTB num momento em que Aníbal Khury ameaça esvaziar o partido, dele saindo e levando o resto da bancada estadual para o PFL. O oportunismo e a fisiologia tudo explicam. Só que Maluf depois da CPI dos precatórios volta a ser aquele de antes da depuração de sua passagem na prefeitura de São Paulo. Não se pode falar em farinha do mesmo saco porque a caracterização atingiria a quase totalidade dos demais partidos.
CROMO Na busca do cometa o mergulho abissal das estrelas cadentes.
AFORÍSTICO O símbolo do 21 de abril valeu para inaugurar Brasília e marcar a morte de Tancredo. O que vão aprontar agora pode ser imaginado amanhã. É um maxi-comício dos sem terra, da CNBB, da CUT, contra o governo e que pode dar em nada.





