Luiz Geraldo Mazza
Partidos e pessoas
Um dos maiores temas da ciência política é a avaliação entre o governo das leis, que a todos deveria obrigar, e o governo dos homens. Embora o rigor da divisão, é possível matizar a precedência do primeiro com alguns valores do segundo que não podem e nem devem ser subestimados. Esse divisor se dá numa perspectiva mais flagrante: a do fato de as pessoas serem mais relevantes do que os partidos.
O esforço do setor moderado do PT para evitar a já consumada saída de Cheida é uma amostra da predominância do personalismo sobre a doutrina. Há, é claro, chefes que personificam a doutrina: Getúlio Vargas relativamente ao populismo trabalhista ou com Plínio Salgado diante da Ação Integralista. Mas agora fica difícil desvelar esse tipo de identificação, até porque fora o PT não há o que discutir e até essa agremiação mantém seu vínculo inseparável com o Lula antigo, o metalúrgico e militante sindical, e não o atual, também um político profissional como Alvaro Dias, Roberto Requião, José Richa etc.
O homem clânico, o que agrega, como se dava com Ney Braga e não acontece com nenhum dos personagens do cenário político do Paraná, era o fator-chave. Tanto que Ney era, praticamente sozinho como expressão eleitoral, o PDC, e em 1958 obteve o segundo lugar, perdendo apenas de Jânio Quadros, para deputado federal, escala que o levaria ao governo estadual. As adesões aos líderes atuais não guardam aquela densidade e se baseiam em fatores circunstanciais, o que não significa que não agreguem. Dá para ver a acumulação de energia que se dá, neste momento, em favor de Alvaro Dias pelo fato de os eleitores terem percebido que o grupo no poder dificilmente se sustenta após o desastre atual da gestão de Lerner, mal compensada pelo desempenho razoável de Taniguchi.
De todos os personagens com força eleitoral, Requião é o que permanece no mesmo PMDB, já que nunca foi membro do MDB, o tal velho de guerra. Mas não tem flexibilidade de comando ao ponto de pretender colocar os irmãos como seus representantes, a grife familiar, como candidato à prefeitura da capital, ao mesmo tempo em que seus seguidores criam obstáculos às filiações de Fruet.
Como os partidos são provisórios, o culto à personalidade passa a ser imposição da conjuntura como se fosse um fator permanente.
BIZARRICE
Um argumento forte a favor dos sem-terra seria, na ocupação do Palácio Iguaçu, seria alegar que se tratava de uma área improdutiva
AXIOMA Depois da privatização no Brasil, telefonia é um caso de telepatia.
GLOSA O governo do Paraná se tornou insolvente sob Lerner: De uma receita orçada em R$ 7,770 bilhões, o efetivamente arrecadado chegou somente a R$ 4,849 milhões. Um exercício em que o governo estava autorizado a gastar mais de R$ 7 bilhões, gastou mais de R$ 5 bilhões e, ainda assim, as contas estão deficitárias. Do relatório das contas entregue ontem ao governo.
EPIGRAMA Todos sabem que os sem-terra são abusivos, mas há pessoas em comando de postos oficiais que desejariam que os lavradores, para acampar, virassem sócios do Camping Club do Brasil, exigência semelhante à feita para ciganos.
ANTIECONÔMICO Há quem diga que até viver é antieconômico. Mas levantamentos feitos sobre o acampamento dos sem-terra, neste primeiro mês de duração, mostra que a prefeitura da capital está despendendo muitos recursos: nada menos de 474 consultas médicas foram feitas, inclusive exames como o de tomografia têm sido feitos: uma ambulância atende 24 horas apoiada por uma enfermeira e uma ajudante de enfermagem. A prefeitura montou 18 banheiros, cuja desinfecção química exige contrato de especializada com gastos de R$ 35,55 mil. Afora isso há ainda fornecimento de material de variada ordem.
Se o acampamento demorar como embargo cubano, a prefeitura, que está um pouco melhor do que o Estado em matéria financeira, também quebra.
FILIGRANA Nossos corsários imobiliários são terríveis: querem agora liberação de área de preservação permanente, a dos mananciais, para condomínios do tipo do Alphaville, existente em São Paulo. No futuro virarão Bostaville.
SPRAY Ontem, à tarde, o governador ficou vários momentos refletindo sobre o que responder a Aníbal Khury que o acusou, e com toda razão, de não ter pulso ao permitir os abusos dos sem-terra. - Teria dito mais Aníbal: que se tivesse uma ordem judicial para desocupação da praça pública a atenderia imediatamente. - Vamos raciocinar: se isso, de fato, ocorresse na interinidade da gestão do presidente da Assembléia Legislativa, a Lerner não restaria outra saída digna que não fosse a da renúncia pura e simples. - As edificações dos sem-terra são um monumento à omissão do governo, sua falta de autoridade e coragem, algo muito próximo da pusilanimidade. Nem o movimento dos jovens ecologistas do Japão contra o funcionamento do Aeroporto de Narita demorou tanto e eles chegaram a construir uma torre para impedir vôos e aterrissagens. - Se o Paraná perder a sediação do Banco Central é melhor tirar o time: a referência sob o ponto de vista logístico (geopolítico) relativamente ao Mercosul desaparece.
FOLCLORE Esperidião Amin fez o gênero mocinho da CPI dos Títulos Públicos e agora acertou as dívidas de Santa Catarina, inclusive a do seu instituto de previdência. Lerner, que apareceu como vilão, pressionado inclusive por Amin na Comissão de Assuntos Econômicos (a CAE que só nos derruba), nada consegue. É azar, somado a muita incompetência.
CROMO Pedaço de asa nu em que me perco, país de imóveis gaivotas. Assim era, mais ou menos, um poema de Rogério Chatagnier, de rememoração lírica, em que fala do espanto infantil diante das formigas e na fixação táctil na sutileza das laranjas.





