Luiz Geraldo Mazza
Estuário das insatisfações
Nos anos 50, quando Mu nhoz da Rocha construía o Centro Cívico, a crítica que se fazia, não ape nas àquela obra, mas ao conjunto das que eram erigi das pelo centenário da província, vinha no sentido da grandiloquência. O governador, que tinha um padrão raro de intelectual, assemelhado ao de FHC, dizia que no Paraná era preciso ter noção de escala e construir com a visão de futuro. Ele não imaginava que sob os governos, mais recentes, pós-golpe de 64, a praça monumental se tornaria pequena para a manifestação dos insatisfeitos.
E quem tornou o Centro Cívico acanhado demais para o povo se manifestar foi especialmente Jaime Lerner. Como é tido como um arquiteto criativo poderia, a essa altura, bolar uma reciclagem daquele espaço, quem sabe até, já que a Constituição de 88 estabeleceu a democracia direta, para resgatar a ágora, a praça maior dos gregos onde se tomavam as decisões coletivas.
De um lado há um aspecto positivo nisso: a população já não se mostra, como anteriormente, magnetizada por Lerner e isso desde a primeira vez quando Leon Perez o nomeou prefeito. O ativismo é positivo ao revelar que a sociedade organizada, de uma forma ou de outra, deseja participar e não aceita, de forma alguma, ser olhada como objeto do processo, mas sim como sujeito.
Como o governo tende a piorar, conforme o enunciado da Lei de Murphy, urge reorganizar a forma de ocupação daquele espaço, no qual, é claro, pelo traço urgentíssimo da reivindicação, o MST teria prioridade, dado o caráter permanente das suas demandas num país de estruturas fossilizadas. Como, porém, assimilar tantas e variadas manifestações quando há o impedimento não da lei dos homens, mas da física, que impede a ocupação do mesmo espaço por dois corpos? Ontem lá estavam os sem-terra e os transportadores, estes em sua bronca radical contra a expectativa de aumento do pedágio em 80%.
A ágora das frustrações, das queixas, está sendo erigida, graças às omissões e ações do governo Lerner. O desgoverno, no entanto, presta um serviço cívico: o de ativar a cidadania e motivá-la para os mais variados tipos de luta. Às vezes o opressor, quanto mais radical, acaba motivando o oprimido.
AXIOMA
Falam muito em solidão do poder, algo que parece não afetar Lerner, não só pelos anedoteiros que o assessoram, os áulicos que o bajulam e o povão, lá embaixo na praça pública, ululando contra seus atos e omissões.
FAMA Na Internet (Universo on Line) havia duas páginas e meia anteontem de denúncias contra Onaireves Moura, promovido a chefe da delegação brasileira na Copa América. O Paraná merece. Chegou aqui, ninguém exigiu folha corrida e logo a sociedade galinha deu a ele a presidência do Atlético.
BIZARRICE Aquele debate sobre motéis na Assembléia Legislativa, se levado ao programa do Ratinho, bateria todos os recordes de audiência. A idiotice, quanto mais caricatural, se sublima tanto que se aproxima do ato sábio.
GLOSA Tanto Lerner como Cassio Taniguchi não estão em bom astral. E isso é algo que preocupa os coxas-brancas, que podem ser campeões hoje ou partir para o penta vice-campeonato, uma vez que os dois políticos são coritibanos.
SPRAY No último jornal AMAI (Associação de Defesa dos Direitos dos Policiais Militares e Pensionistas), o deputado federal Abelardo Lupion revela que Lerner prometeu em campanha eleitoral acertar o reajuste dos praças e oficiais (até 1º tenente) e não cumpriu.- Lupion, deputado mais votado na PM, em decorrência de sua luta contra o fim das suas prerrogativas, acha que a questão da saúde dos milicianos se agravará com a Paranaprevidência e há uma tese no sentido de buscar um sistema de autogestão.- A situação de dificuldades dos PMs é de tal ordem que boa parte deles não pode pagar a importância de R$ 30 para a Meneghini Consultoria Jurídica, que age em nome da corporação, e o escritório se obrigado a renunciar ao atendimento dos inadimplentes se até o próximo dia 7 não regularizarem sua situação.- Dos sete mil contratantes apenas 30 a 40% haviam efetuado o pagamento dos R$ 30 per capita. Dá para imaginar, diante de tudo isso, o grau de insatisfação na tropa, agravado com a ação solerte do vigarista Joni Rodrigues, que aplicou estelionato em pelo menos 200 PMs e que tinha ampla liberdade de movimento junto à hierarquia.- Projeto para o turismo no Rio Paranapanema, entre as represas de Xavantes e Capivara, foi apresentado aos prefeitos da Costa Norte pelo secretário Ney Leprevost e amanhã ele e o iatista Lars Grael, diretor do Indesp, inauguram o projeto Pintando a Liberdade, em Campo Mourão (aquele que se vale da produção de material esportivo pelos detentos das penitenciárias).- Vários governos já prometeram, e obviamente não fizeram, a arborização das margens do Rio Paraná e afluentes com espécimes como a figueira, que serve de proteção do ambiente e de alimento aos peixes. Algo na base do mutirão como as ações de Álvaro Dias para a defesa do Rio Tibagi através de consórcio.-
FOLCLORE Alunos do Colégio Estadual agridem o professor de Latim nos nuros bem próximos à escola. O disciplinador Francisco Ribeiro, diretor do colégio, entra em nossa sala de aula (terceira do ginásio) e fez a exigência: se as críticas ao mestre não fossem removidas suspenderia todas as turmas por tempo indeterminado. Era duro e temido, tanto que ninguém se mexia quando falava. Mal fechou a porta, mostrando a sua irritação o Kit Abdala, debochado, anunciou: Acabamos de apresentar o leão da Metro.
CROMO O barquinho de papel navega a sarjeta e desaparece no ralo: o menino vê o sinal da morte, a perecibilidade das coisas. Sabedoria lúdica.
AFORÍSTICO Talvez no terceiro mandato, o Lerner diga ao que veio, se é que vai sobrar alguma coisa.





