Haja melodrama
As razões ale gadas pelo sol dado Antônio Cláudio Car doso de Meira para dar as fi tas das desocu pações à im prensa são de uma imaturi dade inaceitá vel num adulto e em alguém com 14 anos de Polícia Militar. Se fosse verossímil seria o caso de a corporação revisar em profundidade os seus procedimentos relativos ao recrutamento e seleção, principalmente no que diz respeito à avaliação sob o ponto de vista da estrutura psicológica dos seus comandados.
Não é crível que, mesmo sendo um soldado de atuação burocrática, tenha sido levado à comoção diante de uma criança espantada com o despejo e com ela sofrera tanto ao ponto de dispor-se a colocar-se à favor da causa dos sem-terra. É de um ridículo monumental o grau da catarse sofrida, quase próxima da experiência de Saulo na estrada de Damasco, que adere aos cristãos que combatia porque a manifestação da graça teria produzido a luz que quase o cegara.
Dias passados abordei aqui essa componente da nossa cultura, baseada no mais acendrado dos melodramas, como se fosse por aí, por uma via sentimental, quase próxima da pieguice, que se chegasse da emoção à razão. O uso das crianças no acampamento sem-terra é uma forma de mexer com esses sentimentos. Se de um lado exibe a família unida, mostra que há manipulação das crianças como uma espécie de escudo. O episódio da morte do menino Gabriel, um anjo com nome de arcanjo, expôs claramente o problema dos riscos a que estão sujeitos os velhos e as crianças, especialmente quando descompensados na saúde e vivendo num ambiente insalubre.
Dezenas de telefonemas ontem na Rádio CBN condenaram asperamente o MST pela morte de Gabriel, porque essas pessoas não viam sentido em colocar uma criança com menos de nove meses num ambiente nada favorável à sua saúde. Mas foi uma criança, segundo o testemunho do soldado Antônio Cláudio, que o comoveu e o levou ao ato de justiceiro de entregar as fitas aos meios de comunicação.
A PM correria o risco, se o paradigma fosse verdadeiro, conforme entrevista dada a esta ‘‘Folha’’, de vermos os soldados e oficiais chorando de forma incontrolável diante de cada criança abandonada e sofrendo em nossas ruas ou também dos pobres de um modo geral. E se convencidos fossem de que na raiz do crime há uma causa social, se deixariam também matar ante os criminosos porque teriam sido levados a essa condição por causa das estruturas sociais.



BIZARRICE
Faz tanto tempo que o Coritiba não ganha um título que estão estocados no Alto da Glória engradados de Cerveja Original e Adriática e dos refrigerantes ‘‘Crush’’ e ‘‘Bidu Cola’’ para as comemorações.

AXIOMA Pegaram, em Curitiba, um ladrão de farmácias que se especializou em roubar Viagra. Trata-se de um paradoxo: alguém furtar Viagra sob o fundamento de que está duro.
GLOSA Lerner foi escolhido por Haroldo Leon Perez para a Prefeitura da Capital e nela permaneceu, mesmo depois que aquele que o nomeara se viu obrigado a renunciar por tentativa de corrupção. Vejam como mudam as coisas: o cara caiu por uma tentativa não consumada.
SPRAY Tudo é normal neste governo: agências de propaganda, investigadas pelo Ministério Público, tiveram seus contratos com o Palácio Iguaçu renovados.- De nada adianta puxão de orelha do Tribunal de Contas e muito menos o fato de o público sentir-se escandalizado, numa época de crise, com gastos de mais de R$ 400 milhões.- A gravação em que Aníbal Khury confessa ter ouvido de Lerner que este preferiria morrer a vender a Copel, já tem mais de mil cópias. Declaração feita num programa de TV (Exclusiva) para Sílvio Sebastiani e Enéas Faria.- A Associação de Defesa dos Direitos dos Policiais Militares e Pensionistas, a Amai, decidiu em assembléia, anteontem, entrar com várias ações contra o governo por causa das inovações previdenciárias e da que alterou o regime de capitalização dos quinquênios. Se há algo neste governo que conseguiu uma forma de unanimidade é a bronca generalizada contra o traço confiscatório da ParanaPrevidência.- No Km 30 da rodovia Alexandra-Matinhos, desde ontem, uma nova atração: Momento Bar e Restaurante. E em Paranaguá o empresário José Luiz Boabaid lança com sucesso o Hotel Pousadas das Palmeiras Residence, ao lado Iate Clube. Num momento em que se fala em atrofia no litoral, essas novidades significam que nem tudo vai mal, ainda em áreas tão competitivas.- Londrina vai pegar fogo politicamente: dona Fernanda Janene poderia ser a vice de Belinati na chapa reeleitoral. Em compensação, Alex Canziani pula para o PSDB.- E mais ainda de Londrina: a agência de propaganda ‘‘Engenho’’ não concorda e vai a juízo contestar a entrega da conta da Prefeitura à Get de Curitiba. Ela não se enquadraria numa das disposições contratuais por tratar-se de empresa nova.- O golpe que o pessoal do Requião deu nas filiações de Gustavo Fruet pode ter desdobramentos desagradáveis: o PSDB (leia-se Álvaro) tenta seduzir a melhor figura da Câmara Federal da bancada paranaense em termos intelectuais.-
FOLCLORE Não bastasse o acampamento dos sem-terra, teremos hoje a manifestação do sindicato e federação de transportadores no Centro Cívico, contra o governo, por causa da alta anunciada do pedágio. Pelo jeito, quem vai pagar um pedágio pesado por estar oprimindo a população será o governador. Graças a ele, o Centro Cívico está se tornando pequeno para os descontentes.
AFORÍSTICO O herói que não morre vira uma curiosidade histórica, arqueológica, como se viu na passagem de Fidel Castro no Brasil: o proselitismo é nulo e se transfigura em alegoria como a guerra entre mouros e cristãos, hoje vertida no auto popular das Cavalhadas, ou o ‘‘break’’ que dramatiza lutas do Bronx.

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