Luiz Geraldo Mazza
A tragédia e a estatística
Stalin cunhou uma frase clás sica: A morte de uma ou al gumas pessoas é uma tragédia; a de milhões, um caso de estatística. E falava com do mínio da causa, porque morreram milhões de russos nos programas de coletivização rural. A morte de uma criança, dentre os acampados do MST, como tem ocorrido em outros pontos do País, é uma possibilidade pelas condições às vezes de insalubridade do lugar, do desconforto e de tudo aquilo que associado ao frio e à umidade pode colocar em riscos os organismos mais frágeis.
No filme A Classe Roceira, de Berenice Mendes, que faz uma espécie de anatomia das ocupações e dos acampamentos de sem-terra, sob lona preta, nas estradas, um detalhe menor, mas forte pelo seu realismo, é a sinfonia negra da tosse intermitente de velhos e crianças que dita o compasso do viver naquelas condições. E foi lembrando do estertor pulmonar que ontem, pela manhã, num dos meus comentários na rádio CBN, examinei a hipótese de que poderia haver mortes, especialmente dos mais frágeis, e que isso não poderia ser atribuído ao governo, como certamente gostariam de fazer aqueles que fazem da exploração do dado emocional a força do basismo.
Àquele momento não tinha qualquer informação sobre o que saberia mais tarde com a notícia da morte da pequena acampada. Segundo informes oficiais, os médicos que atendiam a criança aconselharam o seu internamento e, portanto, a sua retirada do acampamento, cujas condições de ambiente lhe poderiam ser fatais. Houve a negativa dos sem-terra, como de resto sempre se recusaram a ir para o Parque dos Tropeiros, onde há melhores condições de instalação, higiene, equipamentos para alimentação. Versão dos sem-terra assegura que a médica havia liberado a criança para atendimento em casa.
Ora, os sem-terra poderiam manter o acampamento na frente do Palácio, mas com uma parte do contingente no local indicado pela prefeitura. A alegoria dessa concentração tem significados políticos fortes e que expressam a unidade do movimento, como já se viu em duas vezes anteriormente. O fato é que qualquer jogada política que tentasse atribuir ao governo paranaense uma cota de responsabilidade no trágico episódio seria mais do que demagógica para configurar-se com algo selvagem e diabólico.
Até para o vitimalismo, velha deformação brasileira, há limites que a ética não admite transposições. Essa, sim, é a pior das invasões.
GLOSA
Nossos meios de comunicação estão ficando mais abertos, mais críticos, enquanto perdem verbas oficiais e nem recebem contratos anteriores. Ontem, na Transamérica, Álvaro Dias sugeria que o governo maquia os números da situação financeira, que seria dramática. E ele entende das duas coisas.
AXIOMA Perguntar não ofende: o Ministério Público vive defendendo a criança sob exposição a riscos e não consta que tenha feito qualquer observação sobre a presença delas no acampamento dos sem-terra. Se usar criança em propaganda (ninguém esquece de Hitler afagando a cabecinha loura de várias delas) é abominável, não menos o é empregá-las como escudo político.
BIZARRICE Cássio Taniguchi estava de sintaxe soltinha ontem, na posse do Marcos Isfer, ao dizer que a equipe agora estava com tesão. Ora a equipe, ele em particular, está sob tensão, já que parece receber ordens do outro lado da rua no Centro Cívico. Não se sabe se o caso é de tutela ou curatela.
Um dos tópicos de entrevista concedida pelo secretário Cândido Martins de Oliveira à Folha destaca essa estranheza.
EPIGRAMA Jocelito Canto, prefeito de Ponta Grossa, tem seus dias de rei, mas ontem teve o de réu. Havia um processo na 1ª Câmara Criminal do TJ, do qual se livrou por estar extinta a punibilidade.
SPRAY Lerner está de mau astral: além do problema da morte da criança sem-terra, ontem houve a representação na justiça do Tribunal de Contas contra a imunidade de controle concedida às autarquias como ParanaEducação, EcoParaná, ParanaCidade.- O conselheiro João Féder destacou em seu relatório o absurdo. Sugere-se que a própria ParanaPrevidência ficaria imune, já que estaria sob auditoria externa independente. Este governo destrói o Estado e pretende pelo jeito deixar sem função o Tribunal de Contas.- Pelo jeito dona Emília, a vice, está preocupada com imagem. Ela e sua assessora, Ruth Bolognese, almoçaram com Ernâni Buchmann e Sérgio Reis, da Get Propaganda.- Servidores públicos já elegeram representantes, ativos e inativos, para os conselhos da ParanaPrev: dois de Londrina, dois de Maringá, dois da Capital. Mesmo assim confiam (é claro que desconfiando) no sucesso das liminares já concedidas contra mais um esbulho do grupo que quebrou o Estado.- A Pastoral da Terra se valeu da cláusula nona do convênio com o Incra para obter prorrogação, até 30 de agosto, para a sua prestação de contas, que será feita em setembro. Ela foi concedida por Petrus Abib em fevereiro deste ano.- Magistrados fazem assembléia hoje no auditório do TJ para rever o sistema Jucimed de atendimento à saúde (4% dos proventos brutos são a ela destinados).
FOLCLORE Na audiência de FHC ao governador, em Brasília, juntamente com os bispos, tudo se encaminhava quando o chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, levantou-se e fez um apelo a Lerner para que não interrompesse o processo de desocupações no Paraná. No retorno, no avião, Lerner lamentava junto com assessores não ter recomendado tal observação ao Ministério da Justiça, que insiste em enquadrá-lo como infrator de direitos humanos a cada desocupação.
CROMO Bom aquele tempo do responso e em que se apelava para o Negrinho do Pastoreio atrás de coisas perdidas: não havia espaço para quem perdesse o juízo ou um amor.





