Curitiba, um campanário
Sob o ponto de vista político, a nossa capital é um campanário. Em União
da Vitória, base originária de Aníbal Khury, o guru não tem a liberdade de movimentos que aqui desenvolve em aberto desrespeito à autonomia da cidade. Devemos, porém, essa facilidade de movimentos, ainda que insólita, antes de tudo, à deserção do eleitor-mor, Jaime Lerner. Mais a ele do que a Cassio Taniguchi, que, pelo menos, de vez em quando, breca o autoritarismo e os caprichos do presidente da Assembléia, como no caso da anistia das multas.
Agora, depois de conseguir, pela fragilidade tanto do governador quanto do prefeito, que o deputado Marcos Isfer deixasse o legislativo para assumir um posto na Câmara Municipal, Aníbal começa a dar palpites sobre a mecânica das secretarias do município. A frequência com que comete esses seguidos absurdos decorre da incapacidade do agir político dos governantes da cidade e do Paraná, como se não tivessem um mínimo de personalidade.
Política se faz com dignidade, e esse tipo de afronta sequencial (a prisão dos guardas da Diretran é um episódio desmoralizante para todos e que talvez explique a falta de respeito concedida ao Paraná) tem um lado bom porque testa dois eleitos de primeiro turno com votação maciça e, de certa forma, prova que os escolhidos não estão à altura da delegação recebida. Nem a amenidade de Richa assimilaria isso, apesar da amizade com o deputado, mas seria também inimaginável que se fizesse isso com Ney Braga, Paulo Pimentel, Munhoz da Rocha, Álvaro Dias e Roberto Requião.
Vamos aguardar a chuva de água benta que nos redimirá e que alcance os dois moradores ilustres do Centro Cívico, cercados pelos sem-terra e pelos que abusam do voto recebido.



BIZARRICE
Maluf condenado, em segunda instância, em São Paulo: vai ter que ressarcir a Prefeitura pela emissão de um milhão de cartas e perde os direitos políticos por três anos. E os outros, que praticaram delitos semelhantes com fins de proselitismo, como ficam?


AXIOMA Uma beleza, ontem, o Centro Cívico: diante do Palácio os sem-terra, na frente do Tribunal de Justiça os funcionários do Judiciário fazendo pressão, na frente da Prefeitura lavradores pedindo mais coisas para o acampamento. Na Assembléia Legislativa os deputados, como sempre, atrás de jeton.
GLOSA O governo cobra 2% de cada funcionário por um Fundo de Saúde inexistente e a maior das ironias é que se o segurado submeter-se a uma cirurgia já sabe que não terá anestesista (sete meses de atraso no IPE). Aí pelo menos o governo se mostra com sua verdadeira face e não dissimula a dor que provoca.
ANALOGIA O PDT quer cassar o presidente FHC, quando passou raspando na cláusula de desempenho para a reforma político-partidária. A exigência era no sentido de que tivesse mais do que 5% dos votos. Chegou a 5,67% contra 5,66% do PTB. Por sinal que o PDT brigava, através de Brizola, pelo domínio do PTB, mas a ditadura, apoiando Golbery do Couto e Silva, entregou o espólio a Ivete Vargas e, mesmo se elegendo duas vezes governador do Rio e tendo sido candidato a presidente por duas vezes, não melhorou muito o desempenho do partido.
SPRAY A Pastoral da Terra está inadimplente com prestações de contas no Incra em torno de ações desenvolvidas no Paraná, em convênio. Em 98 havia uma verba de R$ 100.210,00, da qual a Pastoral recebeu R$ 79.990,00 e o restante está para ser liberado com a apresentação do programa de aplicação.- E o governo federal permanece inadimplente não fornecendo recursos ao governo estadual para novos assentamentos dos sem-terra.- O parecer do Ministério Público, solicitado pelo presidente do Tribunal de Justiça, sobre o ParanaPrevidência, não hostiliza o projeto como as liminares até agora concedidas. É estranho que isso tenha se dado porque a categoria, em assembléia, decidiu partir para ações judiciais.- Um dos pontos enfocados como inconstitucional é a variação das alíquotas em cobrança não proporcional, mas progressiva.- A questão de direitos adquiridos é outro ponto vulnerável, pois os inativos se aposentaram sob regime de repartição e agora ficam obrigados a participar sob regime de capitalização.- Mas um detalhe que ampliou ontem a revolta do funcionalismo: mesmo os que ganharam liminares tiveram o desprazer de verificar em seus contracheques que os descontos persistiam. Governo que não fomenta o fisco (aliás, esse também está com liminares ganhas) apela para o confisco.- A ocupação da Reitoria da Federal, anteontem, por funcionários do Hospital de Clínicas, cabos eleitorais da dupla vitoriosa na eleição direta, é bem a expressão condominial do cenário. Não havendo recursos, o HC se vendo obrigado a apelar à comunidade para obter verbas, não há como dar certo uma demanda do gênero.- Enquanto, porém, Antonio Carlos Magalhães, na Bahia, consegue subverter o regime automotivo em favor do seu Estado, e ainda por cima obter mais de R$ 1 bi para o pólo de Aratu, abrangendo aí as empresas satélites, os governantes do Paraná nada obtêm no sentido de dar ao HC no mínimo o que ocorre com os demais hospitais-escolas que têm a folha de pessoal paga pelo Ministério da Educação.-
É uma cobrança que cabe a Lerner, menos decidido que qualquer dos seus antecessores, mas que abrange também o período anterior e o da fase militar, onde emplacamos ministros nas áreas de educação e saúde.
EPIGRAMA Quando Mao-Tse-Tung disse que o capitalismo era um tigre de papel, estava identificando a essência de sua natureza: a velocidade do capital volátil, que parecia preocupar, pelo menos no discurso, líderes da Cimeira.

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