Luiz Geraldo Mazza
Muito pior do que o risco da absolvição prévia dos comprometidos na questão dos precatórios, por força das arbitrariedades da CPI, e consequentemente o ônus de possíveis ações vitoriosas contra o Estado, é o balanço das perdas e danos à democracia. Uma instituição que se mostrou efetiva no caso de PC Farias e que redundou na renúncia de Collor e também no da Comissão de Orçamento da Câmara Federal (embora a limpeza parcial) tende a constituir-se no material mais importante de defesa dos acusados, muitos deles, de fato, envolvidos na trama. Repeteco daquilo que se dá no juízo criminal: no front judicial se nega tudo do inquérito policial sob a alegação de que a confissão foi obtida mediante tortura.
Esses alertamentos foram feitos pela OAB e até por ministros do STF, isso sem levar em conta os depoimentos de juristas: o espetáculo proporcionado pela TV Senado é a alavanca das absolvições no cerceamento de defesa e na mínima falta de respeito humano aos que eram inquiridos pela Comissão. Houve ainda quem lembrasse que as instituições fechadas pelo Banco Central poderiam lá na frente levar a melhor na justiça. Cita-se o caso da Delfim Corretora. Outra das referências é a do Commind.
Mas se existem esses riscos concretos de perdas e danos, aqueles que atingem a democracia são mais relevantes no plano cultural e civilizatório: sanciona-se, e a imprensa colabora nessa direção, a vassalagem ao justiçamento num cortejamento servil das massas magnetizadas. A despeito dessas advertências e, mais ainda, da liminar que suspendeu a quebra do sigilo telefônico de Pedro Neiva Filho, o que inviabiliza qualquer procedimento investigatório e que por isso pode a qualquer tempo ser revista, integrantes da CPI não mudam de linha comportamental, entusiasmados com os efeitos na mídia e que cresce na medida em que maior é na população o ceticismo quanto às instituições. Pré-condições para o fortalecimento do fascismo que se nutre desse espírito de multidão, a exploração do medo para exigir mais segurança e violência.
BIZARRICE O governo Lerner lembra o samba do crioulo doido do Stanislaw Ponte Preta. O discurso do secretário de Segurança, Cândido Martins de Oliveira, é uma prova disso e da fragilidade do governo quando disse que Aníbal Khury (que está em atos de franca hostilidade ao perplexo governador) é uma soma de Brizola com Darci Ribeiro. Por que não com Pontes de Miranda, Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Lacerda? Até para bajulação há limite. O culto ao poder de Aníbal é outra prova de quanto o governo e seus integrantes são fracos. Como se ele (Aníbal) tivesse o dom de manter e derrubar, de nomear e exonerar.
SPRAY Neco Garcia pode ir para a Secretaria da Agricultura e as razões são óbvias, além do seu trabalho diplomático de mediador com sem terras. - De outro lado, Hermas Brandão, também do Norte, volta ao legislativo para dar mais consistência à defesa do governo, que está péssima desde que Algaci Túlio foi obrigado a renunciar para virar figura de retórica. - Essa equação era abertamente considerada antes da viagem do governador até porque seria delicado mudar a diretoria do Banestado no momento em que ela se saiu tão bem na refrega da CPI e também pelo fato de Aníbal Khury e os deputados terem exigido de Lerner a profilaxia no banco, o que revelaria submissão extrema do governador a uma prensa de outro poder, o que não se insere entre as suas prerrogativas. - Secretários originários do Norte têm se saído muito bem como se deu com Paulo Pimentel, o mais categorizado, Osmar Dias, também de lá e Paulo Carneiro Ribeiro. Pimentel chegou a governador e Osmar a senador. - Até a terça feira, quando do retorno de Lerner, se saberá qual o posto de primeiro escalão que Neco Garcia irá ocupar no governo, embora todos desejassem que a indicação fosse feita antes do encerramento da 37ª Feira de Londrina. - Castro, como outras cidades atingidas pelas inundações, está decepcionada com o governo. Precisava de 200 cestas básicas e recebeu 50. O secretário Greca foi lá tratar do assunto viajando de avião. Nenhum sinal de austeridade na escolha de transporte. - Consequência da generosidade do governo (com todo o atraso de pagamentos) na mídia impressa: o que tem de revista nova é de assustar, algumas luxuosíssimas, cromos sofisticados. Não bastasse o exagero de jornais e rádios mais essa. O pior é que a aposta é na quantidade e não na qualidade. - O setor doutrinário do PSDB, Rubens Bueno à frente, pode se transformar na arma para a queda de braços com alvaristas quanto ao ingresso de Lerner. Os richistas (eles ainda existem?) adensariam o grupo.
FOLCLORE Capa do Hora H desta semana mostra o relator da CPI, como se estivesse dormindo na mesa do Senado, quando está se abaixando para apanhar algo que caiu embaixo da mesa (uma drágea, uma caneta?). O título forte é A queda de Rambo. Como a postura parece de queda, o semanário acrescenta em subtítulo Quem diria: nocauteado pela própria truculência e perdido na enorme confusão que criou, Requião pode se transformar no pizzaiolo da CPI.
A comparação não é com o Rambo da ficção ianque, mas com o de Diadema, conforme editorial do Estadão. Quando sugeriram que fosse montagem, o editor Cícero Cattani replicou que aquilo lembrava mais uma desmontagem.





