Luiz Geraldo Mazza
O barco mal calafetado
O pagamento dos funcionários ativos e inativos do Estado vai atrasar. Vinte e quatro horas, mas vai atrasar, o que é uma quebra de orientação de muitos anos. Uns dizem que se trata de problema provisório, mas o próprio Aníbal Khury alerta que a folha de julho está sob sério risco de não sair.
Não é só: os anestesistas do IPE, Instituto de Previdência do Estado, que quebrou nas mãos do atual governo, marcaram paralisação para amanhã porque não recebem há sete meses. Também o dinheiro do Proem, Programa de Expansão, Melhoria e Inovação do Ensino Médio, que deve ser repassado às associações de pais e mestres, está atrasado quatro meses.
O Estado quebrou em função das prodigalidades nas áreas de propaganda (perto de R$ 500 milhões), nos chunchos do Banestado com títulos estaduais que dão um mico de mais de R$ 400 milhões, isso sem falar no rombo da Leasing; em aventuras como a dos Jogos da Natureza e outras manifestações na área de esporte (o time de basquete de São José dos Pinhais, que disputa o nacional feminino, custa a bagatela de R$ 100 mil por mês, quando davam ao Grêmio de Londrina, e que fez excelente papel, a importância de R$ 20 mil); na irresponsável nomeação de mais de 500 amigos do peito em cargos em comissão; na pletora de secretarias com suas cortes de aspones como não houve em época nenhuma de nossa história.
Dizia-se que Lerner era um líder nacional e que sua opção pelo PFL, depois do vexame da bola preta, histérica, mas incontestável do PSDB, traria grandes benefícios ao Paraná. Para atrair as montadoras, abriu mão de rendas fiscais, além de virar sócio do empreendimento, com dispêndios de milhões, e acertar outros incentivos. Pois graças ao prestígio de Antonio Carlos Magalhães o complexo automotivo de Aratu na Bahia vai receber mais de R$ 1 bilhão do BNDES a preço de banana. Está certo o governador gaúcho em processar a União, já que o BNDES ofereceu menos da metade para a implantação da Ford, o que caracteriza discriminação das mais claras.
Quebrou o Estado e quer também comprometer o futuro, como já vem fazendo, aliás com a política de receber antes o ICMS de empresas e de pretender - e isso é de uma ousadia sem tamanho - securitizar os royalties de Itaipu por mais de cinco governos, além de colocar à venda os ativos sérios como a Sanepar e a Copel. Ninguém sabe, nem mesmo os deputados, o grau de comprometimento de ações da Copel em mãos de terceiros, como as caucionadas no BNDES.
As concessões feitas não trouxeram o nível de emprego imaginado e na área financeira o desempenho é dos mais medíocres, perdendo em peso relativo de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
BIZARRICE
Só há uma chance de fugir do horário eleitoral na TV: apelar para a TV a cabo. E se os deputados quiserem impor que a TV a cabo também se obrigue a manter a xaropeira, a saída seria dar cabo dos parlamentares.
AXIOMA Quando Lerner assumiu, a dívida do Paraná era de R$ 1 bi e 400 milhões, e hoje, segundo o PMDB no programa eleitoral, está em mais de R$ 10 bi. Dá impressão de um rei Midas ao avesso: aquele pegava em coisa e a virava ouro e este pega em ouro e o transforma em coisa com a rapidez do Flash.
GLOSA Não há nada mais paradoxal do que um governo gastar dinheiro do povo para convencer esse mesmo povo que está fazendo um governo em seu benefício. Frase do conselheiro João Féder, do TC, sobre gastos com propaganda. O pior é que normalmente o governo faz propaganda enganosa. Acrescente-se, de um modo geral, que toda propaganda essencialmente se funda num engano, nem sempre suficientemente sutil para merecer respeito.
SPRAY O governo, ao mexer na praxe do pagamento de funcionários no dia 30, mostrou aquilo que todo o mundo sabe: o fundilho rasgado de suas calças e contas.- Alega que recebe no dia 30 as transferências federais, mas soa estranho que só agora tenham apelado para a emergência.- Internamente no governo já se admite que as medidas de ajuste fiscal fracassaram e que a adoção do remédio heróico, das demissões, vai ser inevitável.- O temor de que a redução de secretarias (necessidade imperiosa) crie um fato extra para debilitar a base aliada imobiliza o governo.- Há quem veja nessa sinalização, a possibilidade do atraso de pagamento, um fator para mostrar a necessidade da criação da ParanaPrevidência e de neutralizar as liminares da justiça.- No parecer do conselheiro João Féder: São Paulo com uma receita de R$ 84,2 bi e uma despesa de R$ 76,9 bi em 1997, gastou R$ 27,6 milhões em propaganda, e o Paraná com R$ 4,8 bi de receita e R$ 5,6 bi de despesa, despendeu R$ 116,8 milhões - 322% a mais do que São Paulo. É o fim da picada.- Se os deputados fossem sérios e lessem a íntegra do relatório Féder, a Assembléia poderia cumprir, de fato, o seu papel.- Em andamento, por enquanto nas catacumbas, um movimento em defesa da Copel. Álvaro Dias, candidato a governador, acha um absurdo vendê-la da forma como Lerner pretende. Vem mais chumbo.
FOLCLORE A vereadora curitibana Nely Almeida propõe uma lei obrigando os bancos a atenderem seus usuários em 15 minutos em dias normais e em 30 minutos em véspera ou após feriadões. Infratores poderiam ser perseguidos por cães policiais sem focinheira (essa exigência, também, foi iniciativa dela). E o público que ficar 30 minutos na fila pra falar com seu vereador ou o prefeito, quem protege?
CROMO A mitologia se degrada: o lobisomem era mais suportável do que o chupa-cabras e o boitatá, bem mais útil do que o ecologista.
AFORÍSTICO Dá a impressão que terminado esse governo, a maioria vai morar no exterior, eixo Nova York-Paris, de preferência. Livra-se da vaia, sumindo também da Boca Maldita.





