Luiz Geraldo Mazza
A noite por testemunha
Ao contrário do filme famoso, esse governo do Paraná tem a noite por testemunha e não o sol, o que ocorreria se fosse mais democrático e também mais transparente. É apenas trans-parente na relação parenteral presente na máquina de poder como usufufruto em áreas negociais.
Enquanto fazia o possível e o impossível para impedir que o soldado Antônio Cláudio - Cardoso de Meira, com bloqueios em estradas e aeroportos, prestasse testemunho à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, a área policial permitia, uma vez mais, que grupos organizados invadissem uma delegacia, matassem um desafeto e soltassem presos. Ela está a dever ainda o caso mais grave da invasão, o da Delegacia de Furtos de Veículos por 20 encapuzados que mataram o assassino de um policial, ação essa tida como de retaliação pelo delegado Anníbal Bassan, Corregedor da Polícia Civil.
Esses casos também são de infringência de direitos humanos, embora exista uma cultura que privilegia a tortura política, o que é um sedimento ainda da noite espessa do regime militar. O fato é que qualquer forma de tortura se revela enquadrável como crime irremissível, conforme a Constituição de 88.
A noite por testemunha nesses dois casos de esquadrões de extermínio, um deles vinculado ao sistema, conforme a presunção da Corregedoria, funcionou nos acampamentos de sem-terra com violação das regras jurídicas e o uso também da violência contra os despejados das áreas invadidas. O clamor vem de toda parte: a Anistia Internacional, a CNBB, os partidos de oposição. E o governo permanece em olímpica indiferença às denúncias.
Esse negror que vem da noite está igualmente presente nos atos praticados no Banestado e na gastança irregular em propaganda. Falar em bolsa de Pandora ou em caixa-preta é inapropriado: estamos diante de um contêiner, um cofre de carga, escuro, impenetrável, como o Drácula, estaca ao peito, no repouso seguro de uma cripta.
A PM, quando cassa o soldado Antônio Cláudio, não tenta apenas calá-lo quanto ao caso específico da violência nas desocupações, mas também da nódoa cultuada com as ações desembaraçadas do vigarista Joni Rodrigues, que atingem de forma profunda a corporação militar e boa parte do seu comando. Se a tortura com charme, como essa que é exercida contra excluídos, tem mais força política, a outra é de um impacto moral devastador e que exige um esclarecimento que um governo de cúmplices se recusa a oferecer.
GLOSA
Alguém explica por que o Banestado comprou títulos estaduais que vão lhe dar um mico superior a R$ 400 milhões? Para se ter uma idéia da loucura, esse é o valor que se pretende obter pela venda do banco se tudo der certo.
BIZARRICE O delegado de Maringá, Aprígio Cardoso, tirava sarro da festa inaugural da Arena atleticana. E contava, à sua maneira, que o mestre de cerimônias José Maria Pizarro teria dito: E agora encham o peito e cantem o maior hino do mundo! Era um apelo para o Hino Nacional, e a galera sacou o estribilho: Atlético, Atlético,// conhecemos teu valor// a camisa rubro-negra// só se veste por amor!
AXIOMA Não dá para confundir requisitório com supositório, conquanto possam ter efeitos parecidos. Como não dá para confundir Iridium, projeto ousado de telefonia por satélite, com Piridium, remédio para crises urinárias.
SPRAY Pastoral da Terra desmontou a versão oficial de que os tais exercícios antiguerrilha seriam de cinco anos atrás. Há provas de que um deles é de março de 1997 e outro, de setembro de 1998.- O empenho da PM em desqualificar acusações é outro front de derrotas da informação.- Depoimento do soldado Antônio Cláudio à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal vai ser a pá de cal. Daí o empenho da corporação em tentar bloqueios aéroterrestres como fez durante os últimos dias.- Tudo o que Lerner mais temia vai acontecer: ficará tatuado da mesma forma que Álvaro Dias por causa dos professores. O caso dele é mais grave por se tratar de ações em cima de gente presa e, portanto, sob custódia da autoridade policial.- No Fantástico de anteontem deu para perceber porque Lerner não vai se livrar da nódoa. Num dos quadros ultrarápidos, sob o título Você viu, repetiam cenas, tanto dos exercícios antiguerrilha como da forma como se deram as desocupações. Como dizia o mestre latino e ladino: Fantasticus dixit, verum est.- Quem está perdendo com a ParanaPrevidência, ironicamente, são as companhias de seguro: os melhores contratos feitos junto a delegados de polícia, Ministério Público, procuradores de Estado estão sendo cancelados de forma coletiva. A perda de mais de R$ 1 mil por parte desses setores está dando margem a um esforço para reduzir consignações no Banestado. - Por falar em Banestado, a elite funcional está deixando o banco, por aposentadoria ou adesão ao plano de demissão voluntária. Por aposentadoria, depois de 15 anos na área de comunicação, o executivo Roberto Griebeler deixou o estabelecimento onde fazia um trabalho excepcional.
FOLCLORE Nem sempre uma rima é uma solução: o coronel Lara, comandante da PM, ontem na Globo, declamou aquele poema sobre o nosso jardim invadido, do qual levam as nossas flores. E o atribuiu a Maiakoski, equívoco anteriormente cometido por Roberto Requião na campanha de 90. Também não é de Brecht, embora esse tenha um texto parecido. A poesia pode servir à tirania: tanto Hitler quanto Mussolini tinham seus versejadores.
CROMO O que fazer com os fantasmas que invadem o meu jardim? Reclamar das pegadas, das flores despetaladas para que não levem as cigarras, as borboletas e o velho fuque da garagem ou usar um amuleto, eletrificar as cercas e ainda botar um espantalho gordo com jeito de general chileno para afastá-los?
AFORÍSTICO Deste governo tudo é possível esperar, menos o ato de governar.





