Luiz Geraldo Mazza
Cidadania ativa
Diariamente temos a prova de que os níveis de participação da chamada sociedade organizada melhoram. Claro que ainda há a maioria silenciosa, quase sempre submetida à minoria silenciosa que rege o governo e a economia, mas são animadores os sinais de resistência, embora estejamos longe de conquistar um patamar como o das sociedades modernas dos States e da Europa. Aqui, além de carecermos de bases institucionais, isto é, legislação flexível que permita e facilite esse envolvimento, pagamos por nossas raízes culturais ligadas ao autoritarismo e que induzem ao conformismo.
Se situações como a havida entre os fornecedores e o Grupo Sonae fossem mais frequentes, por certo melhoraríamos essas relações. No caso houve a reação do grupo mais fraco diante do potentado: a cobertura política e a ameaça de tirar os incentivos fiscais concedidos à Tafisa, integrante daquele complexo, como forma de pressão, garantiram ampla renegociação.
Mesmo que perturbada pelo tom demagógico e messiânico, a luta do MST é prova de que até os tidos como excluídos (há, como se sabe, muito mimetismo nesse processo, o que não o desqualifica) conseguem espaços apreciáveis na luta que já foi mais desigual.
Quando há conflito de interesses é que surge a chance de conhecer o fundo das coisas. Isso é impossível no caso das concessionárias do pedágio, que já são, por natureza, um cartel. Resta, então, que os transportadores e outros tipos de usuários partam para o confronto. A resistência civil é legítima, tanto aí quanto no drama dos sem-terra.
Em abril, a Associação de Empresas de Topografia do Paraná denunciou que uma licitação em torno de 22 kms de levantamento cadastral da Avenida Salgado Filho tinha sido ganho por uma empreiteira (Rigoni) que não tinha registro nos serviços próprios da Prefeitura de Curitiba, muito menos no CREA, e que o penúltimo engenheiro responsável por ela era o secretário de Obras. Bastou isso para que nos primeiros dias de maio o secretário de Urbanismo anulasse todo o procedimento. Aí a prefeitura cumpriu também o seu papel.
É um exemplo de como se pode agir. O ideal seria confiar nas instituições - governo, áreas de controle, Tribunal de Contas, parlamentares -, mas o melhor é partir para o ataque mesmo. Como devem fazer os caminhoneiros diante da violência que será a tarifa do pedágio. Não esquecer que esses consórcios serão naturalmente financiadores de campanha eleitoral. Jamais o governo os hostilizará seriamente.
EPIGRAMA
Até nas novelas se nota a fixação no bumbum. A das 8h30 está com um concurso de bumbum. Como se fala em traseiro dourado, dá para considerar, levando a urgência da questão fundiária, que se trata de um latibúndio em aberta oposição a um minibúndio.
BIZARRICE Num país em que se vaia minuto de silêncio tudo o que se viu na inauguração da Arena do Atlético Paranaense é normal, mesmo a hostilidade a Lerner e a Taniguchi, afinal, coxas-brancas, alvo do furor rubro-negro.
Uma das autoridades estava perplexa. Não pela vaia que até entendia, mas não sabia o significado da expressão ilha da gruta, ilha da gruta.
AXIOMA A polícia fez um razoável estardalhaço quanto às armas e munições apreendidas em 11 ocupações. Em dois bailões, dos grandes, da Região Metropolitana de Curitiba, conseguem o dobro, facilmente. Ou então nuns seis colégios da periferia.
GLOSA O esconde-esconde do soldado Antonio Cláudio, aquele que filmou a festa com o vigarista Joni Rodrigues junto com a oficialidade da PM e também cenas de desocupação, acaba se transformando em mais um ponto a favor do MST. Isso porque o homem é procurado pela PM (afinal infringiu regulamentos) e está sob custódia da Comissão de Direitos Humanos, o que colocaria mal a milícia se o prendesse. Mais uma derrota do governo Lerner, pois a tendência é cumulativa em termos de solidariedade política aos acampados.
SPRAY Circula nos meios ligados à Copel um documento sério a respeito de como se dão as privatizações no Brasil e seus efeitos mais deletérios. A tese não é ingênua, por exemplo, de pregar nacionalismo, autarquia, coisas absurdas.- Revela, no entanto, que a estatal francesa que comandou o consórcio no leilão da Light impôs a compra de equipamentos daquele país e a vinda de técnicos.-
Mais uma de espantar: Ratinho, o gênio da TV, estaria disposto a arrendar o Pinheirão para fazer rodeios. O governo também estava interessado na aquisição para complementar a Vila Olímpica. Só que está mais liso do que a Federação de Futebol, campeã de inadimplências.- Das fazendas desocupadas pela PM, a que tinha maior número de armas e munições foi a Marília, em Colorado: quatro carabinas, quatro espingardas, dois coquetéis Molotov, 14 facas, 24 facões, 35 cartuchos, três rojões. Como se vê, arsenal pouco significativo.- Fraude nos combustíveis poderia restabelecer as técnicas dos anos 50, que foram desenvolvidas pelo Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas, hoje Tecpar, e que conseguiam flagrar com um aparelho chamado fluorógrafo o índice de mistura, no ato, permitindo a autuação.-
FOLCLORE Não há mais lugar para governantes irreverentes como o interventor Manoel Ribas ou um Benedito Valadares. Manoel Ribas inaugurou um bebedouro de animais tomando o primeiro copo dágua e dizendo está inaugurado. Ou em Castro, ao ver que o discurso do prefeito era enorme, delicadamente pediu ao orador que não lhe tirasse o prazer de ler aquela peça no retorno. E botou a mão no papelório diante do político aturdido.
CROMO Os pássaros, a sabiá-laranjeira e o joão-de-barro, periquito e quero-quero são as referências honestas da cidade ecológica.
AFORÍSTICO Serve de consolação: Getúlio Vargas também foi vaiado pelos ricos no hipódromo da Gávea e pelo proletariado no Pacaembu.





