Da vaia a Três Capões
A vaia monumental que Jaime Lerner e Cassio Taniguchi levaram anteontem na Arena do Atlético Paranaense em parte é debitada à paixão clubística, já que os dois torcem para os coxas. Isso, parcialmente, porque a indisposição com tudo que é oficial parece hoje generalizada.
Diante dos atleticanos, eufóricos com a catedral construída para entronizar Mário Celso Petraglia, sabidamente alguém fora das limitações terrenas, o governador e o prefeito levaram uma vaia pior do que de 30 concentrações de sem-terra em piquenique permanente à frente do Palácio. E já que chamam o ‘‘Joaquim Américo’’ (aquela idéia de mudar o nome é calhordice, até porque a família Guimarães é que doou o patrimônio ao clube) de Arena convém lembrar que no Coliseu romano o ditador perguntava ao povo se o gladiador deveria ou não ser morto, depois de subjugado: o polegar para cima era ‘‘habeas corpus’’ e, para baixo, a morte, ao grito de ‘‘peractum est’’.
Até os deuses levam vaias em estádios, o que talvez decorra precisamente de sua origem pagã, forma simplória de chamar outras religiões fora da cristã como coisa condenada. Tanto que os cristãos eram o insumo das feras da arena romana. Esquecem essas pessoas que o cristianismo se apropriou de valores pagãos para se afirmar, bastando lembrar que o Natal tem origens mitraicas mais do que conhecidas, razão pela qual o menino-Deus, na verdade regra-três do rei Sol (Natalis Invictis Solis), é tratado como se fosse um pequeno faraó, Mário Celso Petraglia para a galera atleticana.
Acossado por sua base aliada, que não comparece nem em boca-livre (dos 33 deputados, apenas 18 estiveram lá), e mais pelos sem-terra acampados no Centro Cívico, pelos prefeitos que exigem as verbas de convênios, servidores públicos extenuados pelo confisco previdenciário, os usuários das estradas vendo no pedágio uma expressão clara do Juízo Final, Lerner resolveu viajar para Três Capões, Rondinha e Goioxim. Para um espírito cosmopolita, é algo que soa como provação de um penitente em busca de purgação de culpas. Shalon, irmão.



AXIOMA
Sabem por que Lerner foi pra Três Capões neste fim de semana? Simples: ele tem mais de duas opções para se esconder.


BIZARRICE O governo estadual se agarra em tudo para defender a ParanaPrev (o título é menor e melhor do que o outro) e sugere que o de São Paulo onera mais os funcionários. São Paulo tem um governador que mesmo doente não deixa o posto para viajar. É mais sério e determinado: demitiu mais de 120 mil servidores e mesmo assim se reelegeu.
GLOSA O senador Bornhausen esteve na praça e repetiu o pecado da soberba que tomou conta do PFL: o de que o partido disputa com candidato próprio em todos os municípios. Aníbal Khury já alertou que isso é absurdo e que só conseguirá, a curtíssimo prazo, implodir a base aliada. Percebe-se que o PFL se imagina bem maior do que é e tenta restabelecer a Arena, o maior partido do Ocidente.
EPIGRAMA Houve uma discussão, outro dia, na crônica esportiva, se é ético um comentarista ser advogado de clubes ou mesmo de atletas. Não é, e isso é tão absurdo que nem cabe discussão. Também não é ética a figura do jornalista, de combate especialmente, com exercício cumulativo à função de advogado. Por aí poderia intimidar partes, juízes, promotores e, além de tudo, fazer uso do seu espaço para defender suas demandas judiciais. Cronista aciona a lei da oferta e da procura de atletas e se é advogado não pode acumular funções. Óbvio. Só que o mundo diluidor em que vivemos está aí para destruir fundamentos.
EPISTEME Quando a ordem se torna a expressão do aproveitamento corrupto, o que se dá amiude, os que a contestam são duas coisas: loucos ou invejosos.
SPRAY Quando da divulgação dos vídeos mostrando a vinculação do vigarista Joni Rodrigues com a cúpula da PM, alguns dos oficiais que apareciam no relato tentaram inculpar o major Betes, da área de comunicação (5ª seção).- Na verdade, o autor da façanha, o soldado Antonio Cláudio, foi quem fez os vídeos das celebrações com o vigarista e alguns sobre desocupações. A PM vai querer ouvi-lo para saber se age pessoalmente, o que é difícil, ou se atua sob orientação de superiores hierárquicos.- Com o desaparecimento do soldado, por motivos de segurança (aeroportos e estradas continham barreiras para impedi-lo de ir a Brasília), a oposição ganha mais espaço na batalha da terra, gerando-se expectativa forte em torno desse depoimento.- A denúncia formulada contra a Prefeitura (licitação irregular para serviços topográficos de 22 quilômetros da avenida Salgado Filho), pela Associação das Empresas de Topografia, foi assinada por seis diretores da entidade em abril deste ano.- Graças à denúncia, feita no fim do mesmo mês, foi revogado todo o processo pela Secretaria de Urbanismo, em 4 de maio. A irregularidade se deu também por ter sido feita através da Secretaria de Obras, cujo titular tinha sido o penúltimo engenheiro da vencedora.- Redundância: desde ontem o jornalista Nilson Monteiro é Cidadão Honorário de Londrina. Londrinenses, não há muitos como ele.
FOLCLORE Quando a vaia tomou conta da Arena do Atlético Paranaense para saudar o governador Jaime Lerner e o prefeito Cassio Taniguchi, enquanto sorriam, os dois políticos cochichavam: como são ingratos esses torcedores, vaiando desse jeito o Mário Celso Petraglia que construiu esse estádio.
CROMO Como ficaria o poema de Mallarmé, ajustado à telemática, quanto ao elogio à página branca como potência de ser?
AFORÍSTICO Há quem considere que o quinto lugar de Lerner no DataFolha até que é uma boa. Isso parte, logicamente, dos seus áulicos, que apontam a posição do governador gaúcho Olívio Dutra (oitavo lugar) como um risco que se correria se as montadoras não viessem para cá. Puxa-saco não puxa pela cabeça.

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